Londres em 5 bairros

Esta cidade nunca passa de moda. Nunca se repete. Redesenha-se a todo o instante.

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Texto de Mónica Franco 29 Jan 2015

No coração da capital inglesa, Victoria Beckham abriu a primeira flagship store e o Harrods, a maior loja de sapatos do mundo. É uma cidade da moda – e de modas: a tendência é ser orgânico, gluten-free ou fazer detox. Um relato na primeira pessoa por quem conhece Londres. E mesmo assim se surpreendeu.

1. Mayfair

Comecei a sentir-me claustrofóbica. Ao mesmo tempo que protegia a minha mala de eventuais carteiristas, procurava preservar a integridade física – e alguma dignidade no meio daqueles apertos. Não conseguia ver para lá da multidão que circulava em compasso de espera por esta Oxford Street de que tanto ouvira falar. Procurava lojas – todos procuravam – mas parecia ser missão quase impossível encontrá-las. Era época de saldos quando visitei Londres pela segunda vez, mas naquele momento só desejava encontrar uma boca de metro para fugir deles. Tentava circular na rua mais comercial de Londres. E com «comercial» leia-se «muito consumo », às toneladas. Gente aos magotes. Nesta rua que parece uma avenida, a vizinhança é composta tanto por lojas de recordações como por grandes cadeias internacionais, como a Zara, por lojas de moda britânicas, como a megastore da Topshop que vende de tudo (até cupcakes), e ainda por grandes nomes da moda internacional, como Ralph Lauren, Givenchy, Fendi, Hermès, ou aquela que é considerada a melhor department store do mundo, a Selfridges.

Fugi. E só uns anos mais tarde descobri que existia vida a sul da Oxford, no interior do quadrado formado pelas Oxford e Regent Street (a norte e a leste, respetivamente), Picadilly (a sul) e Park Lane (a oeste). Um quadrado banhado a ouro chamado Mayfair. Parece que aqui as luzes se tornam mais intensas com a concentração de tantos Dior, Hermès, Miu Miu , Chanel… E entram- -nos na retina quando exploramos os 16 mil metros quadrados (sim, 16 mil!) da loja da Victoria’s Secret na New Bond Street. Preto no fundo, luzes, ação! Loja de lingerie-fashion-show.

Mayfair é o bairro das Kate Moss, das Victoria Beckham, dos nomes que erguem bandeiras no mundo da haute-couture. É um pequeno bairro no centro de uma capital de 13 milhões de habitantes. Aqui, as ruas parecem cheirar a perfume francês.

Desta vez, a última em que visitei em Londres, descobri mais uma coisa: a primeira, única e exclusiva loja da vocalista/mulher-de-futebolista/ estilista Victoria Beckham. E esse é, para mim, um dos maiores encantos da capital de Inglaterra. Não a senhora Beckham, mas a capacidade que a cidade tem de crescer, de se reinventar, de responder a todas as vontades (e até de as transformar em necessidades). A loja da Posh Spice tinha aberto na Dover Street um dia antes da minha visita. Ainda se servia champanhe à entrada, ainda havia um camião a descarregar as últimas peças e os meninos de smoking com bandejas de prata ainda nos impediam de descer ao piso inferior. A loja é composta por três andares de desenho minimalista, forrados com espelhos e pensados para dar protagonismo às peças que caem do teto, penduradas em grandes cordões de aço, balançando ao sabor do desejo. O lugar tem a assinatura de Farshid Moussavi, professora de arquitetura em Harvard (e conhecida por visitar as suas obras de stiletti calçados).

A flagship store da ex-Spice Girl é vizinha de Jimmy Choo, Christian Louboutin e do designer de moda britânico Alexander McQueen. O número da porta, a rua e o bairro não ficaram nas mãos do acaso. Se ir às compras para o West End londrino é chique, é porque existe Mayfair. Se a Bond Street era conhecida por ser a rua fashionista por excelência, agora parece que a Dover Street é que é. Sobretudo desde que, em 2004, abriu o Dover Street Market um «centro comercial» para fashionistas com a bênção da Comme des Garçons. Se é caro? Vale a pena responder?

Gerardo Santos/Global Imagens

2. Marylebone 

Até há poucos anos, Marylebone não existia para mim. E até o português Nuno Mendes colocar este antigo bairro rural no mapa hype de Londres, não existia sequer para muitos ingleses. Para felicidade de uns, para desagrado de outros, que tinham no bairro o seu refúgio secreto no coração da cidade, hoje Marylebone é buliçoso e mediático. É a «casa» daquele que é considerado o melhor restaurante da capital pela revista Time Out London. O lugar onde o Daily Mail e outros meios de comunicação mais cor-de-rosa fazem esperas a famosos como a atriz Jennifer Aniston ou a cantora Kylie Minogue. Chiltern Firehouse 1 é o restaurante do momento na capital inglesa e Nuno Mendes, o português, tornou-se um dos homens mais influentes do país real.

Em poucos anos, Marylebone mudou muito. Mas continua a ser um lugar para foodies felizes. Onde ninguém estranha que um antigo quartel de bombeiros seja convertido em restaurante da moda, onde a revista Monocle pode abrir a sua única loja-café, onde queijarias e livrarias, como La Fromagerie e a Daunt Books, se tornam clássicos sempre contemporâneos. Marylebone é a vizinha a norte de Mayfair e, sendo chique, é-o de uma forma mais indie. Fica a norte da Oxford Street e a sul do Regent’s Park , guarda «entre paredes» a casa de Sherlock Holmes, o Museu Madame Tussaud, a Fundação Calouste Gulbenkian, a reputada escola de cozinha Le Cordon Bleu, a instituição da decoração que é a Conrad Shop e a única loja Kusmi Tea da cidade. E bem perto das suas fronteiras fica o Harrods, onde recentemente abriu a maior loja de sapatos do mundo. Shoe Heaven pode ser paraíso, mas pode também causar arritmias graves… 42 mil metros quadrados só de sapatos?! Dos melhores designers de todo o mundo?! Sim, verdade. Se não estão reunidas as condições, é melhor nem subir ao «céu».

Marylebone é um lugar para foodies felizes. Onde ninguém estranha que um antigo quartel de bombeiros seja convertido num restaurante da moda.

3. Notthing Hill

Os londrinos têm manias. Cada um com as suas e o chef português Luís Baena com as de todos os que frequentam o seu restaurante em Notting Hill. A mais peculiar? Não sequer é a do gluten-free, mas da «alergia» a tudo o que cresce nas árvores. A imagem pode ser extremista mas mostra como os ingleses podem ser picuinhas na hora de escolher. E mesmo assim o chef não tem razões de queixa. Notting Hill Kitchen, o restaurante aberto há pouco mais de um ano, segue uma matriz que já é de sucesso: cozinha feita com produtos portugueses de excelência. A sua tiborna Pata Negra foi apelidada de show-stopper. Contam-se histórias em todos e cada um dos pratos. E parece que os britânicos não resistem a elas (nem a eles).

Luís Baena não serve brunch, mas praticamente todos os (muitos) restaurantes do bairro o fazem. É um ritual de fim de semana que se pode prolongar quase até ao jantar. No Electric Diner, os ovos, os hambúrgueres e as batatas fritas servem-se em mesas à americana ou ao balcão virado para a rua do mercado de Portobello. O restaurante recentemente reaberto com nova gerência e novo poiso dos notting-hillers é a face mais visível de um dos mais antigos cinemas da cidade. Sessão numa cama, sofá ou cadeirão? Parece bem, não parece? Ao sábado e domingo, no Pizza East (com sucursal também em Shoreditch ), as pizas substituem-se por ovos, iogurtes e granolas (ou não) e devem ser apreciados em câmara lenta num dos dois pisos deste antigo pub georgiano. Apesar de mais mainstream, com dezassete lojas espalhadas pela cidade, a Gail’s faz do pão e dos bolos, das papas de aveia e da granola, dos ovos com polenta e das fatias douradas boas razões para contaminação.

Notting Hill é muito mais do um mercado famoso. É um bairro pacato frequentado sobretudo por locais. Basta sair da Portobello Road para sentir o seu pulso. Vibrante mas com uma cadência compassada.

Organic, organic, organic. A palavra repete-se quase até à exaustão em todos os cantos da capital. Até nas cadeias de fast-food do aeroporto. Mas a Daylesford (que acabou de renovar a sua segunda loja, em Notting Hill) vence a batalha acenando a bandeira da agricultura orgânica há 30 anos, a partir de uma quinta no interior de Inglaterra. «Diretamente da nossa quinta para o seu garfo» é uma das frases-mestras. Ottolengui orgulha-se de utilizar produtos locais, artesanais, frescos, sem corantes nem conservantes. As delis de Notting Hill, Islington , Kesington e Belgravia e o restaurante do Soho (chamado Nopi) são considerados os melhores lugares para se comer vegetais nesta cidade de mais de 13 milhões de habitantes. O nome da marca é sobrenome de chef pop star israelita, radicado em Londres desde 1997, que tem já quatro best sellers de cozinha editados, uma mão-cheia de programas de televisão e uma crónica semanal no The Guardian.
Há Notting Hill para lá do mercado de Portobello Road. Para lá das portas coloridas das casas tornadas famosas pelo filme com Hugh Grant e Julia Roberts há encantos com outras cores – e de muitas caras. Garantido.

Portugal está na moda em Londres? Talvez. Mas mais correto seria dizer que tudo está. Que Londres está.

4. Chelsea

Não nos cruzámos com José Mourinho, treinador do Chelsea FC e residente na área, mas fomos londrinos por uns dias. E o que é um londrino faz? Toma o pequeno-almoço orgânico na Daylesford, compra um ramo de flores na Wild at Heart, visita umas quantas galerias e alguns antiquários, assiste com regularidade às exposições da Saatchi Gallery, e agora até almoça em modo healthy, no Good Life Eatery, o primeiro restaurante de uma tendência que vem com saladas, sementes, sumos e batidos (e sem glúten). Passámos a tarde a vaguear no bairro, entre uma very british Stella McCartney (na Fulham Road ), a Sloane Square, onde fica a loja da Hugo Boss e o novo espaço da americana J. Crew e a Sloane Avenue , recheada com Bulgari, Cartier e D&G.

Um londrino que se preze frequenta parques. Por isso, corremos no Battersea Park , acabado de «remodelar», junto ao rio Tamisa e paredes meias com o Pestana Chelsea Bridge. «Vivemos» em Chelsea por uns dias – e não é que dormimos num hotel onde se fala português?
O Pestana Chelsea Bridge foi a nossa base das operações. Quatro estrelas que parecem cinco, bandeira da cadeia hoteleira madeirense, primeiro e único hotel do grupo no Reino Unido, vista para o Tamisa. Sucesso garantido, pois claro. E uma via rápida para algumas das ruas mais especiais de Londres. Atravessávamos o Tamisa todos os dias, em missão de descoberta deste Sudoeste londrino. O bairro que até ao século xvi era apenas uma aldeia de pescadores junto ao rio e a partir do século xvii o lugar dos ricos, «aldeia de palácios», é hoje, entre muitas coisas, o lugar onde o galático Gordon Ramsay implementou, em 1998, o seu restaurante de fine dining com três estrelas Michelin.

Chelsea é um bairro pobre tornado rico. Uma aldeia de pescadores que virou punk e depois yuppie. Encostado ao Tamisa, tem diferentes formas de vida. Aqui a vida vive-se no parque, nas ruas pejadas de lojas e nos cafés orgânicos.

Entre a Pimlico Road e a Sloane Square, ainda se sente o espírito de «aldeia» de Chelsea. Floristas de bairro, como a Wild At Heart, com a assinatura da famosa Nikki Tibbles, que trabalha com flores há mais de 20 anos, são vizinhas da mais recente loja da Daylesford, com supermercado, loja de kitchenware, mercearia, talho e cafetaria com esplanada e dog parking. A Sloane Street tem outra configuração. Artéria com boutiques de luxo porta sim porta sim, inscreve nos seus letreiros nomes grandes vindos de todo o mundo, mas também desta mesma cidade, como Anya Hindmarch e as suas carteiras de corn flakes.

Chelsea já foi um bairro boémio, onde o movimento punk ganhou fulgor. Na icónica King’s Road , a não menos icónica estilista britânica Vivienne Westwood inaugurou a sua primeira loja (agora, a sua flagship store fica em Mayfair), e aqui viveram os músicos Malcom McLaren, Mick Jagger, Keith Richards e os Beatles. Atualmente o bairro abandonou o visual punk. Cresceu, tornou-se yuppie, substituiu os picos nos casacos por fatos, gravatas e Porsches.

5. Shoreditch e Dalston

Em Londres há espaço para tudo e para todos. E no East End arranja-se ainda mais um bocadinho. Há muito que esta zona a nordeste da cidade abandonou a sua conotação negativa e o lado mais obscuro. Os artistas ajudaram a efetivar a mudança. O chef Nuno Mendes foi um deles. Em 2006 abriu o primeiro restaurante, Bacchus, na Hoxton Street, em Shoreditch. Depois usou o seu apartamento (também em Shoreditch) para o supper club The Loft Project. Em 2010 abriu o Viajante no Town Hall Hotel em Bethnal Green , que lhe valeu a primeira estrela Michelin. Fechou-o temporariamente, mas promete reabrilo com todo o fulgor muito em breve numa nova morada. Onde? No East End, claro. The Clove Club também abriu num bonito Town Hall , mas o de Shoreditch. E também ganhou a primeira estrela Michelin (no dia em que lá almoçámos). Os donos têm também no currículo experiências de supper club no East End. A cozinha, liderada pelo jovem e criativo chefe de cozinha irlandês Isaac MacHale, é modern english. Provando que a gastronomia britânica está muito bem, obrigada. Londres sempre recebeu bem todo o mundo – e o mundo todo sente-se em casa aqui. Uma das últimas modas é a cozinha do Peru. O prestigiado Virgilio Martínez (do Central em Lima, número 15 na lista dos 50 melhores restaurantes do mundo) abriu na cidade dois restaurantes, sendo o mais recente o Lima Floral, no Soho . (O primeiro foi o Lima, em Fitzrovia .) Em Shoreditch, a novidade é o Andina com cozinha peruana acessível e bem-disposta.

Shoreditch e Dalston ficam no East End londrino. A conotação mais «negra» desta zona leste da cidade foi substituída por uma nuvem alternativa, divertida, descomplexada e inovadora. Tudo o que é criativo tem de andar por aqui.

Bem perto do Andina fica um dos mais recentes projetos de Shoreditch: o Box Park. Um centro comercial pop up, alternativo, feito de uma combinação de contentores, onde cabe tudo: da Moleskine à Replay, dos donuts a lojas só de auscultadores, do design à GAP concept store. Atravessando a rua e entrando no coração de Shoreditch, há que não deixar escapar a Redchurch Street , onde lojas de massa caseira (Burro e Salvia), de chás (T2), bares gay, cafés com loja de decoração (Maison Trois Garçons) ou com esplanada fora (Allpress), lojas com muitos e bons estilistas dentro (Hostem) e os graffiti nas paredes convivem numa harmonia desconcertante. Dalston ainda não chegou aí. Com turcos e caribenhos a dominar este pedaço a norte de Shoreditch, o bairro ainda mantém um look clandestino e underground, mesmo depois de os Jogos Olímpicos o colocarem na lista dos locais a não perder da cidade. O Dalston Roof Park, um centro cultural com esplanada e bar no topo de um edifício, o Oto, café-concerto com uma programação cultural rica e o histórico bar de jazz Vortex, dão-lhe um clima artístico que tem tudo para vingar. E dar que falar. Em Dalston abriu também The Portuguese Conspiracy, uma deli portuguesa, com bacalhau à Brás e vinhos. Em Shoreditch, junto ao bonito mercado de flores de domingo, o Columbia Road Market, inaugurou-se A Portuguese Love Affair, loja de produtos portugueses vintage. Portugal está na moda em Londres? Talvez. Mas mais correto seria dizer que tudo está. Que Londres está. Sempre.

Leia a reportagem completa na edição de fevereiro 2015 - nº 244