O cantor e compositor JP Simões faz uma viagem no tempo até à década de 1970. Vai à Cidade Maravilhosa, onde passou parte da infância, e traz-nos histórias de uma vida.

Ponto de vista – My Private Rio de Janeiro

Cidade Maravilhosa

Aeroporto do Galeão. Tinha 4 anos quando aterrei no Aeroporto do Galeão, no dia 20 de janeiro de 1974, acompanhado da minha mãe e do seu namorado brasileiro, de quem nem me lembro da cara ou se era branco, mulato, alto ou baixo. O Rio (1) cheirava a açúcar queimado com um travo a alimentos estragados dentro de uma arca congeladora avariada, e o calor era de tal modo sufocante e incómodo, que devo ter decretado, em forma de protesto calado, aquilo que foi a minha subsequente recusa em me alimentar durante o ano e meio que se seguiu.

Na altura não o sabia, mas tinha acabado de aterrar num país governado por uma ditadura militar feroz que amordaçava, torturava e matava os seus opositores e cujo temível presidente tinha um nome que ainda hoje me causa calafrios: Garrastazu. Naturalmente, também não fazia ideia de que tinha vindo de um país com um governo autoritário, para dizer o menos: talvez seja por essa e por outras semelhanças que ainda hoje se utilize a expressão de países irmãos quando nos referimos à relação Portugal- -Brasil. Seja como for, era ali que eu iria estar no 25 de Abril. Vila Isabel. A minha primeira casa no Brasil ficava num primeiro andar de um prédio modesto, no modesto bairro de Vila Isabel, onde nasceu o compositor Noel Rosa e onde o samba batucava permanentemente desde o início do século xx. O bairro foi oficialmente fundado em 1871 e era um exemplo de arquitetura e urbanismo de inspiração parisiense, feito para a classe média alta, e que se foi tornando aos poucos um bairro boémio e popular. O barulho que brotava das ruas era incomensurável face ao discreto bom-dia, boa-tarde da minha ruazinha burguesa do Bairro de Celas, em Coimbra. O cheiro intenso a fruta parecia quase mastigável quando transportado pelo bafo húmido do ar, condensado ainda mais pelo fumo imenso do trânsito automóvel. As árvores irrompiam por todo o lado, rebentando os passeios de cimento ou de calçada com as suas raízes pujantes, sem medo nem vergonha de afrontar a geometria da civilização.

Vila Isabel foi a sua primeira casa no Brasil. O samba estava por todo o lado, tal como a Coca-Cola, que, à altura, estava proibida em Portugal.

Paulo Sousa Coelho
Paulo Sousa Coelho

Cumprindo a minha rigorosa dieta, alimentava-me de mingau e Coca-Cola, bebida proibida em Portugal na altura, e cobiçava sem malícia os brinquedos caros do meu vizinho de cima, o Anderson, rapaz um pouco mais velho do que eu mas que me deixava brincar livremente com os seus tesouros. Era um lar humilde o nosso. A minha mãe vivia dentro de uma canção do Chico Buarque: ficava em casa como uma respeitosa esposa, tomando conta de mim e ajudando a sogra nos assuntos domésticos e na doença do sogro: o namorado saía todos os dias à pressa para procurar emprego, um beijo aqui, outro ali, cravava algum dinheiro à sua mãe pobre e desaparecia até à noite. Mais tarde veio a saber-se que passava as tardes jogando sinuca, bebendo e paquerando garotas com o seu velho e fiel amigo Martinho da Vila. Além do mais, ele tinha uma irmã mais nova, a Esmeraldina, uma retorcida adolescente que, por ciúme da atenção que me era dada, tentou várias vezes assassinar-me, atirando socas holandesas contra a minha cabeça (fazendo mossas consideráveis nas paredes, pois eu desviava-me). Certo dia, andava eu pela casa com um jornal pelas costas a fazer de capa de Super-Homem e ela sugeriu que eu deveria voar pela janela. Preparava-me para voar quando a minha mãe entrou em casa e me sugeriu o contrário. Quando o pai deles morreu, a Esmeraldina gritou furibunda que ele não tinha o direito de morrer na véspera de Carnaval e saiu porta fora abanando as ancas de despeito e fantasia. A minha mãe resolveu então que era altura de ir embora do encantador bairro de Vila Isabel.

Bairro da Gávea. Felizmente, tínhamos umas primas abastadas e muito simpáticas que nos acolheram no 20.º andar do seu magnífico apartamento da Gávea. Sim, porque nós éramos portugueses descendentes de brasileiros! Aí a vida mudou. Praia, passeios pela calçada, visita ao Corcovado, subida de teleférico até ao Pão de Açúcar, risos, música, festas, gente sempre a entrar e a sair de casa, num alegre corrupio. O temível Garrastazu havia sido substituído por um senhor bastante mais moderado chamado Ernesto Geisel e, embora a ditadura continuasse, qualquer ligeira abertura do sufoco era motivo para soltar a rolha da garrafa. Muitas vezes, ao chegar da praia, encontrava lá por casa um senhor a quem me havia afeiçoado e que ficava a tagarelar comigo sobre sei lá o quê durante um alegre bocado: era o simpático senhor Vinicius de Moraes (2), vim a saber muito depois. Na Zona Sul a vida parecia um cenário para ricos e turistas, playboys desafogados, morenas de biquíni atemorizando os corações no Calçadão (3), surfistas hedonistas e outros pássaros coloridos, mas era ao mesmo tempo um lugar para toda a gente, quer descesse do morro ou saísse do Grande Hotel de Copacabana (4). À hora do almoço e ao fim da tarde, um turbilhão de corpos acalorados saía dos seus escritórios e ocupações para ir mergulhar no mar. Estávamos em plena fase de libertação sexual, numa das cidades mais belas do mundo e eu tinha apenas 5 anos, distante ainda da importância vital de tal contexto. De Portugal chegavam notícias boas de revoluções exemplares e esperanças renovadas e agora é que vai ser, que inspiravam as conversas e que acendiam a esperança de que, num dia próximo, a ditadura dali também caísse de podre.

Ao chegar da praia encontrava lá por casa um senhor a quem se havia afeiçoado: Vinicius de Moraes.

(4): Corbis

A ideia de voltar para Portugal começou a pairar no ar, muito embora aquele parecesse um lugar demasiado feliz para deixar: a decisão não era minha de tomar, mas às vezes pergunto-me como teria sido se tivéssemos ficado por ali. Seria eu hoje um grande e bem-sucedido traficante? Ou seria um vendedor de Matte Leão a percorrer as praias onde os outros se divertem? Ou qualquer coisa melhor, de preferência? Para levarmos connosco o verdadeiro gostinho brasileiro, comprámos 12 latas de Coca-Cola i. De volta ao Aeroporto do Galeão, topámos com um controlo alfandegário apertadíssimo: até as fraldas dos bébés eram cuidadosamente escrutinadas em busca de drogas de todas as espécies. É fácil adivinhar o que aconteceu com as nossas 12 latas: chocalhadas, abertas uma a uma, despejadas, e «Pode levar! Tá tudo certo!». Tivemos de esperar cerca de dois anos até poder beber de novo uma Coca-Cola (5), pois essa diabólica bebida só foi legalizada em Portugal no ano de 1977. Quando entrámos no avião éramos já brasileiros a emigrar tristemente para a Europa.

Algures no Atlântico, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Durante anos, a música de Tom Jobim, a poesia de Vinicius de Moraes e as canções de Chico Buarque foram-me mais próximas do que qualquer outra música do mundo. Sentia-me em casa nesse Rio de Janeiro que a música me devolvia e, num certo período da minha vida adulta, corrompido de melancolia até à medula, deu-me para fantasiar que aquela cidade imaginária, cada vez mais ancorada no meu afeto, era o meu paraíso perdido. Na verdade, sobre o tempo em que fui um jovem habitante da cidade, poucas memórias tenho além dos relatos da minha mãe. Dei por mim a compor sambas e bossas-novas, espalhando sobre o seu doce balanço a portuguesa gravidade do meu canto. Procurei um lugar onde a minha vida pudesse fazer algum sentido mais profundo, num tempo que já não existia, algures no Atlântico, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, planando sobre a lógica das coisas, nesses lugares impossíveis onde só a música parece capaz de nos transportar.

Muitos anos depois desse período da infância, fui convidado para fazer alguns concertos no Brasil e voltei finalmente ao Rio. A cidade continuava e continua linda, sem dúvida, mas, como era de esperar, em lado nenhum encontrei o lugar que fui construindo na minha imaginação, nem toda aquela música que costumava ouvir parecia fazer eco no presente. É de facto um risco voltar a um lugar onde só fomos felizes na nossa imaginação. Mas navegar é preciso.


Bossa-Nossa
JP Simões ou João Paulo Nunes Simões, de seu nome completo, nasceu em Coimbra em 1970. É um dos mais criativos cantores e compositores portugueses, um velho conhecido da música contemporânea nacional. Pop Dell’Arte, Belle Chase Hotel e Quinteto Tati são alguns dos projetos em que se fez notar antes de consolidar a carreira a solo. Antes da profissionalização na música, JP tocou outros «instrumentos», como os cursos de Jornalismo, Direito da Comunicação ou o mestrado em Teoria da Literatura, pela Universidade de Lisboa. É autor de contos e de argumentos para cinema, para lá das sempre sentidas letras das suas canções. A representação é outra paixão, tendo já participado em filmes de Fernando Vendrell ou Edgar Pêra, entre outros. O seu primeiro álbum a solo, 1970, foi lançado em 2007, o mesmo ano em que chegou às bancas O Vírus da Vida, livro de contos ilustrado por André Carrilho. Nesta Volta ao Mundo, mostra-nos um lado pessoal que poucos conhecem, através de uma escrita cativante. Tal como a cidade de que fala.

Texto de JP Simões
Ponto de vista da edição de junho 2015 - n.º 248