Fomos à costa leste de Madagáscar descobrir o lado mais selvagem e exótico da quarta maior ilha do mundo. Viemos de lá encantados com a natureza, os sorrisos, a história e... a baunilha.

navegador Diogo Dias (irmão do Bartolomeu, do cabo da Boa Esperança) batizou a ilha com o nome de São Lourenço. Foi a 10 de agosto de 1500, enquanto ia a caminho da Índia. Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao território que hoje conhecemos como Madagáscar e deixaram marcas ainda visíveis, principalmente nos nomes de povoações e locais. Não foi uma paragem em vão – afinal, a ilha tem algumas das praias mais bonitas do mundo. A paisagem é semelhante à das Seychelles: formações rochosas e corais no mar azul-turquesa, águas calmas e cristalinas, cocos, palmeiras, praias desertas de areia branca, lagoas paradisíacas, além de espécies endémicas únicas, como os lémures. A promessa de umas férias inesquecíveis está lá. E com uma vantagem óbvia em relação a outros destinos: devido aos poucos turistas e às infraestruturas quase inexistentes, os preços são incrivelmente mais acessíveis do que noutras paragens do Índico. É o que se passa em Île aux Nattes, uma pequena porção de terra (cerca de três quilómetros quadrados) ligada à ponta sul da ilha de Sainte-Marie, ao largo de Madagáscar. Aqui só se chega de piroga.

Para ir a Île aux Nattes, o melhor é apanhar um voo doméstico diretamente de Antananarivo (a capital do país) para a ilha de Sainte-Marie. À chegada, no pequeno aeroporto, apanha-se um tuk-tuk que, em menos de cinco minutos, nos leva até ao local de embarque de piroga para a Île aux Nattes.
Os amantes de aventuras têm outra opção: viajar durante toda a noite desde a capital em taxi brousse – táxi coletivo local, geralmente a abarrotar de passageiros e mercadorias, incluindo galinhas – até Tamatave, depois seguir noutro taxi brousse até Soanierana-Ivongo, onde um barco os leva até Ambodifotatra, na ilha de Sainte-Marie.

Para chegar à Île aux Nattes, só de piroga. Deslizando sobre as águas turquesa transparentes, sorrimos: estamos a chegar ao paraíso.

Em Île aux Nattes, uma boa opção é alugar um bungalow na praia e ficar dias inteiros a espreguiçar ao sol. São todos construídos com materiais locais, respeitando a paisagem, à sombra de coqueiros e de frente para o mar, para proporcionar uma vista panorâmica das lagoas marinhas delimitadas por corais. Rodeados por recifes de corais, e a salvo de tubarões, há muito para ver e fazer: mergulho, snorkelling, pesca, ciclismo, observação de aves, massagens ou caminhadas. Além de corrermos o sério risco de nos apaixonarmos pelos lémures, que brincam e saltam até dez metros entre as árvores, a ilha também é um lugar de excelência para a observação de baleias. É um dos melhores locais do mundo para ver a passagem das baleias com bossa, que migram em grandes grupos desde a Antártida. Todos os anos, entre julho e setembro, acasalam tão perto da costa que podem ser vistas da cama de rede ou da praia. Entre duas mil e três mil baleias deixam as águas geladas no final de abril para aproveitar este ambiente propício e seguro, onde acasalam e se reproduzem.

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Madagáscar é a terra do «mora mora» (docemente, docemente), o lema nacional. Há discretos vendedores de fruta, de peixe e marisco, de óleos naturais de coco, ylan ylang (a famosa essência que ficou conhecida na década de 1920 no Brasil como Kananga do Japão) e de artesanato local.

As crianças da ilha brincam e nadam em liberdade, sorrindo aos poucos turistas europeus. A quietude irrepreensível é cortada apenas pela suave ondulação junto ao recife de coral a cem metros.
A água é cristalina e banha-nos pela cintura. Stress e preocupações desaparecem. A respiração abranda. Podemos mesmo perder o norte ao calendário e deixar de saber que dia é. Passado e futuro desvanecem- se facilmente, deixando-nos a saborear o momento presente. Afinal, o paraíso existe mesmo.

Pode explorar-se a ilha a pé ou de bicicleta. Perguntamos pelos lémures, queremos saber se vivem em cativeiro ou em liberdade. Tophine, a nossa guia, explica-nos que os vamos encontrar em estado selvagem. Os lémures são livres e protegidos, considerados antepassados dos malgaxes (grupo étnico predominante do país) e, por isso mesmo, sagrados. Vivem nas copas das árvores e só se deixam ver quando querem. Temos sorte. Logo no primeiro dia, enquanto caminhamos descalços pela praia, o nosso olhar é atraído para algo preto e branco que se enconde entre as folhas das árvores. É uma fêmea com duas crias, que brincam. Tophine diz que algumas espécies são territoriais, mas geralmente são muito meigas e dóceis. Embora sejam animais selvagens, estes já estão acostumados à presença de pessoas e facilmente vêm para os nossos ombros.

Para os turistas que não se contentam em ficar deitados debaixo das palmeiras a contar estrelas, a única diversão noturna é a discoteca da aldeia. Mas este barracão só abre aos sábados. Dançamos envoltos na sensualidade da música malgaxe contemporânea e nas canções do rei do reggae, Bob Marley, amado como um ídolo por todo o país. Antes de deixarmos a Île aux Nattes, resolvemos explorar a romântica ilha de Sainte-Marie, que deve o seu nome a navegadores portugueses. Descoberta no Dia da Assunção, em 1506, a ilha de Sainte-Marie, ou Nosy Boraha, como é chamada pelos malgaxes, foi em tempos um abrigo e esconderijo para o saque de muitos piratas famosos e temidos do Índico.

O canal dos Pangalanes estende-se por mais de 650 quilómetros na costa leste de Madagáscar.

Hoje, as suas verdes colinas escondem outros tesouros bem preservados: enseadas ricas em recifes de corais, florestas exuberantes com cascatas, flores, borboletas, lémures, camaleões, pássaros exóticos, piscinas naturais, cultura, artesanato e muita superstição.
Madagáscar é o país com mais espécies de camaleões em todo o planeta, exibindo mais de metade das mais de 150 espécies
já identificadas, do mais pequeno (2cm) ao maior do mundo (68cm). A fauna e flora subaquáticas de Sainte-Marie estão classificadas como património natural. É um dos spots de mergulho de primeira classe no oceano Índico.

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Em Ambodifotatra, a cidade principal de Sainte-Marie, alugamos motorizada durante um dia. Graças à construção recente duma nova estrada, é fácil visitar as piscinas naturais na ponta norte da ilha. Passamos por pequenas aldeias onde compramos artesanato e bebemos água de coco. A beleza natural é deslumbrante. As piscinas naturais são três enseadas separadas por rochas vulcânicas. Só é possível entrar nestas praias sagradas com um guia local, que nos recebe à chegada. Guillaume dá-nos as boas-vindas e obriga-nos a tirar os sapatos. A sola dos pés arde na areia branca e fina, mas a lenda é clara, e para respeitar: «Se formos calçados adoecemos gravemente e, sem se saber a causa, morremos em poucos dias». O acesso à terceira, a mais bela e exótica do trio de praias, faz-se debaixo do sol intenso, e não é para todos, pois a corrente pode ser muito forte. A recompensa é sublime.

Campos de arroz
Um dos maiores consumidores per capita do mundo é Madagáscar, onde é comum comer arroz três vezes por dia.

Aqui, tal como em toda a Ilha Vermelha, há muitas lendas e tradições. O jovem guia ensaia o seu melhor francês mas a verdade é que acabamos por não entender quase nada do que nos diz sobre rituais e sacrifícios de zebus (espécie de bovino) neste local. Regressamos ao hotel num silêncio feliz. A gratidão que sentimos é avassaladora. O magnífico pôr do Sol reflete as cores do arco-íris nas águas calmas. Dezenas de pirogas de pescadores emergem soltas, livres, como palavras num poema. Dentro da rede mosquiteira no hotel, adormecemos com um sorriso malgaxe colado ao rosto. Mais um dia no paraíso. Bem guardado, como um tesouro, no coração.

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É tempo de seguir para o canal dos Pangalanes. Saindo do cais fluvial em Toamasina (Tamatave) pode viajar-se vários dias em barco a motor para visitar aldeias de pescadores, ver dezenas de espécies diferentes de lémures, fazer observação de aves e plantar árvores com Organizações Não Governamentais. As refeições e o alojamento podem ser feitos em resorts construídos no braço de terra entre a água doce do canal e as praias selvagens do oceano Índico. Sentimos mais uma vez que o país parou no tempo. Estamos longe da poluída e frenética capital e das cidades que exibem sem pudor a típica explosão de gente, cores, culturas e mercados a céu aberto onde tudo se vende. É a época das chuvas. Felizmente para nós, só chove durante a noite. Freud, o nosso guia no canal, diz-nos que cerca de 85% das espécies que vivem em Madagáscar são endémicas, ou seja, mais de 80% da vida selvagem da ilha não é encontrada em nenhum outro lugar na Terra.

Há cerca de noventa milhões de anos, Madagáscar desprendeu-se dos continentes africano e asiático e a fauna e flora desenvolveram-se em completo isolamento. O resultado é uma riqueza biológica muito especial com milhares de espécies animais e vegetais conhecidas, e muitas outras que os cientistas suspeitam que existam nas florestas virgens, e que ainda nem sequer foram catalogadas.

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Mas as mudanças climáticas e a atividade humana ameaçam este ecossistema singular. O desmatamento e as práticas agrícolas têm, nas últimas décadas, destruído grande parte da floresta primária de Madagáscar.
Na manhã seguinte, Freud reserva-nos uma boa surpresa: através da ONG francesa Homme et Environnement, conhecemos a Reserva Experimental de Vohibola e plantamos duas árvores. O ecoturismo em Madagáscar está a dar os seus primeiros passos. Para travar esta destruição das florestas e salvar a biodiversidade é preciso educar e reflorestar. Quase todos os Parques Nacionais ou Reservas Naturais têm viveiros e oferecem o tour «Plante uma Árvore», entre outros circuitos. Freud é simpático e carinhoso. Embora seja muito jovem, já recebe turistas há dois anos através duma pequena empresa familiar, e acabou de se estabelecer como agente turístico independente (pangalanes.wordpress.com).

Milhares de quilómetros de floresta foram destruídos. Felizmente, o ecoturismo e a reflorestação está em alta.

Perto de Andasibe, rodeados de verde luxuriante no Chez Marie Logde, despertamos antes de nascer o Sol, ao som de gritos estridentes e poderosos. Estamos às portas da floresta húmida do Parque Nacional de Mantadia, da Reserva da ONG Mitsinjo e do Parque Comunitário Villageois. O canto dos lémures – os indri – assemelha-se ao canto das baleias. Pierre Eugène e Julienne são guias locais. Conhecem a floresta como as palmas das suas mãos e nos dias seguintes levam-nos para fora dos trilhos da floresta, para chegarmos bem perto da mais reverenciada e protegida espécie de lémures, a única que não tem a longa cauda. Graças a uma lenda babakoto o lémure indri é tratado como um animal sagrado, e não pode ser caçado ou ferido. Hoje em dia, esta espécie, tal como as outras cerca de 60 espécies de lémures, está ameaçada de extinção por causa da perda do seu habitat.
A água de coco refresca-nos o corpo e a alma. As refeições e as sobremesas típicas, saboreadas com os pés na areia quente, são
outros pontos altos. A gastronomia de Madagáscar, rainha das especiarias e da produção de baunilha, é rica, variada e muito saborosa. Aqui a eletricidade é solar, e só funciona entre as 18h00 e as 22h00. Não há carros, nem internet, nem wifi. Despertar com o canto das aves, adormecer embalados pela luz dos pirilampos, pelo som suave da música da lagoa e das ondas nos corais à frente de nós é lindo e não queremos que termine. Ao fim de poucos dias, é fácil começar a sonhar com a possibilidade de comprar um bungalow e nos mudarmos para este paraíso.

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Entre lémures e os sorrisos do povo malgaxe, é difícil o viajante não se apaixonar por esta ilha.

Molho de Baunilha
Receita do chef Alain

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Ideal para acompanhar pratos de legumes, peixe, marisco, carne, arroz ou massas.
Ingredientes:
1 vagem de baunilha,
preferencialmente fresca
1 cebola grande
25 gr manteiga
100 gr crème fraîche
½ Copo vinho branco
Pimenta preta moída qb
Sal qb
Preparação:
Derrete-se a manteiga. Junta-se a cebola muito bem picada e a baunilha fresca (com uma faca abre-se a vagem, retiram-se as sementes do interior e corta-se finíssimo, em pequenas tirinhas). Junta-se o vinho branco, reduz-se, sempre a mexer. Adiciona-se crème fraîche, sal e pimenta-preta. Bom apetite!

Informações

Vacinas não são obrigatórias mas recomenda-se levar repelente para insetos, protetor solar, chapéu e medicamentos para regular a flora intestinal. Evite beber água da torneira, há água engarrafada à venda em todo o lado. Nem todos os malgaxes gostam de ser fotografados, em caso de dúvida peça permissão. Na capital tenha atenção aos carteiristas e camufle os seus objetos de valor.

madagascar-tourisme.com
parcs-madagascar.com

Texto de Avani Ancok - Fotografias de Manuel Trindade