Qualquer semelhança com um parque temático convencional é pura coincidência. No Futuroscope os príncipes, princesas, plutos e patetas são substituídos por filmes 3D e atrações 4D em que o conhecimento é a nota dominante. Sem nunca esquecer a diversão.

Futuroscope

São quase onze horas da manhã e muitas das atrações do parque ainda estão fechadas. Não há filas intermináveis, não se ouvem gritos e ninguém parece ter passado a noite em claro ansioso por abraçar as figuras da sua infância. A serenidade é tal que me pergunto desde logo se o Futuroscope será realmente um parque de diversões? É um método antigo, este de começar um texto pelas horas de forma a situar a ação, mas, pelo menos neste caso, garanto que não se trata de um truque para agarrar leitores.

É impossível ficar indiferente a esta estranha serenidade, sobretudo quando já se visitou parques como o Walt Disney World, em Orlando (o maior parque temático do mundo) ou o Parque Warner Madrid, locais tão funcionais quanto caóticos e barulhentos desde as primeiras horas do dia. Avolumam-se as dúvidas, as perguntas surgem em catadupa: como é que um espaço destes, a 300 quilómetros de Paris, consegue ser o segundo parque mais visitado de França? Será que vale mesmo a pena a visita numa área em que a oferta é tão grande? Já lá vamos, por agora voltemos ao início.

Ás da bilheteira
Em 2014, o Futuroscope recebeu 1,6 milhões de visitantes. Desde a abertura, em 1987, mais de 46 milhões de pessoas passaram aqui.

O Futuroscope foi inaugurado em 1987. Os filmes em 3D e 4D, como o Deep Sea, estão entre as atrações mais procuradas.

São quase onze horas das manhã, nem todas as atrações estão abertas, mas ninguém anda perdido. Há vários ecrãs espalhados pelo recinto a informar o início dos espetáculos. E o ecrã diz que a próxima sessão, a nossa primeira sessão, tem lugar já a seguir e chama-se Deep Sea (Mar Profundo), filme projetado numa das várias salas IMAX. O 3D e o 4D são as montanhas-russas do Futuroscope, a emoção está no fundo do ecrã e não na próxima curva. Neste caso no fundo do mar. Um filme com cerca de meia hora em que mergulhamos no oceano, por entre polvos, lulas, tubarões e medusas gigantes, como se fôssemos também nós um peixe, um peixe voyeur que contempla em segurança a riqueza, a diversidade e as idiossincrasias da vida marinha.

O silêncio é absoluto, chego mesmo a fechar os olhos, será que os miúdos gostam disto? – pergunto-me. Quando as luzes se acendem olho em volta e vejo crianças, não criancinhas, crianças, mas também muitos adultos, alguns deles em grupo, em casal, sem filhos. Ainda não estou convencido, que isto ainda agora começou, mas começo a dar o benefício da dúvida: será que a mil vezes repetida e tantas vezes mal empregue expressão «um local para pequenos e graúdos» fará aqui verdadeiro sentido? Já sabem a resposta, naturalmente, continuemos, contudo, a fingir por mais algumas linhas, afinal é de entretenimento e ilusão que se trata.

Renovação constante

Deep Sea é uma das novas atrações de 2015, tal como Mistérios do Cubo, a próxima para onde nos dirigimos. As novidades são uma constante por aqui, que um parque de diversões não consegue sobreviver ao longo de 27 anos e ser o segundo mais visitado do país (só batido pela invencível Disneyland Paris) sem se reinventar constantemente. Voltamos a entrar numa sala, o que nos espera desta vez? Outro filme? Não. O ecrã é agora substituído por um palco. Um palco onde estão dois acrobatas e um cubo, um cubo gigante de onde sai um bailarina que se junta aos rapazes para um espetáculo sensorial, um jogo de luzes, cores, dança, acrobacia e magia, como se aquele misterioso cubo projetasse todos os nossos voos de criança. «Gostaste?», ouço um pai perguntar à filha no final do espetáculo. «Sim», reponde. «Agora vamos dançar com os robôs», continua.

Nós também. Mas antes quero saber como vieram cá parar. Como se convence uma criança de 10 anos a visitar este parque e não uma Disney, um Parque Warner ou um Port Aventura qualquer? «Não se convence», diz de imediato o pai, Philippe, um bretão que fez cerca de 300 quilómetros para mostrar à sua princesa que há mais vida para além de príncipes, plutos e patetas que passam na TV. «Não tenho nada contra a Disney, bem pelo contrário, até porque já lá fomos. Mas ela queria voltar e eu disse que não, que já estava muito crescida. Este parque tem o melhor dos dois mundos: é possível aprender um pouco sobre tudo sem que eles sintam que lhes estamos a impingir coisas. Até eu aprendo. E divertimo-nos os dois», conclui Philippe.

Mission Hubble, uma novidade de 2014, é um bom exemplo disso mesmo. Uma aventura 3D que leva os participantes para uma missão de salvamento do telescópio espacial Hubble, de forma a que este possa continuar as suas observações no espaço. Diz-se que terá inspirado o Gravity, filme com George Clooney e Sandra Bullock que foi vencedor de sete Óscares; Destinos Selvagens é um bom documentário que conta a história de duas mulheres que foram viver para a selva, uma para salvar elefantes órfãos e outra orangotangos; já na atração Les Yeux Grands Fermés, os visitantes são guiados por um animador cego que nos leva a explorar diferentes universos no escuro, como subir ao pico dos Himalaias ou passear em Nova Iorque.

O Futuroscope fica a dez quilómetros de Poitiers e a 300 de Paris. É um dos Parques de Diversões mais visitados de França, depois de Disney, Le Puy Du Fou e Astérix.

Olhar e sentir sem ver. É o único local em que é pedida uma contribuição à entrada destinada a uma associação de invisuais. Por agora é em direção à Dança com os Robôs que seguimos. Uma atração que, paradoxalmente, é divertimento puro. São 90 segundos sentados nas mãos de robôs gigantes, às voltas, de pernas para o ar, dentro de uma espécie de discoteca com música e imagens do mediático DJ Martin Solveig projetadas nos ecrãs. Philippe e Pauline lá estão, a sorrir, aos gritos, pai e filha, professor e aluna como que no recreio.

As melhores atrações do mundo

Uma manhã depois novas perguntas se impõem: o que visitar agora? O que visitar primeiro? Um dia é pouco para  percorrer os 60 hectares do parque e ficar a conhecer as suas30 experiências, três pode ser demasiado cansativo, dois dias é o ideal. Nós temos apenas mais uma tarde. Anna, a nossa guia, representante do Futuroscope, diz que somos livres de escolher o que quisermos, mas que não devíamos deixar de passar pela The Fun Experience Arena (outra das novidades de 2015), pelo Arthur e os Minimeus, distinguida como a Melhor Atração do Mundo em 2011 e pela Máquina do Tempo, que recebeu a igual distinção em 2014. E ainda subir à Gyrotour, uma cápsula envidraçada com 46 metros de altura onde é possível ter uma vista geral sobre o parque, e ao bem mais radical Aérobar, um bar para quem não sofre de vertigens ou quer de uma vez por todas livrar-se delas. Nada mais nada menos que uma mesa redonda, suspensa a 35 metros de altura, em que estamos agarrados a uma cadeira e com os pés no ar, a dar a dar.

Assim seja, então. Primeiro o Arthur e os seus Minimeus. Conhecem estes filmes de animação realizados por Luc Besson? (Ele que é, porventura, o mais bem-sucedido e americano dos realizadores franceses da atualidade). Arthur, um rapaz com 10 anos de idade, descobre um admirável mundo novo, o fantástico mundo dos Minimeus, criaturas minúsculas que vivem no jardim da avó. Um mundo cheio de beleza mas também de perigos que passará a habitar depois de ter diminuído de tamanho. Tudo para salvar a casa da avó. Também nós passamos a habitá-lo assim que nos sentamos na cadeira.

É a bordo de uma joaninha gigante que vamos, túnel após túnel, susto após susto, descida vertiginosa após descida vertiginosa, por entre outros insetos monstruosos, gloriosas máquinas voadoras e cenários de cortar a respiração. Bom, muito bom. A melhor do mundo? Não sabemos, mas nada como seguir para a outra melhor atração do mundo, a ainda mais recente Máquina do Tempo. Dos Rabbids já ouviu falar? Quem tem filhos deve conhecer, quem não tem não vai deixar de se divertir por isso. Porquê? Porque são recriados grandes momentos da história, como a descoberta do fogo, a chegada do homem à Lua ou a criação dos Jogos Olímpicos.

São 60 hectares de área onde poderá descobrir 30 diferentes experiências. Todas elas com caráter lúdico e didático. O ideal para aproveitar tudo é uma visita de dois dias.

Tudo acontecimentos que se devem as essas criaturas desastradas. Uma atração divertida, apelando ao riso é à curiosidade, sem ser infantil ou moralista, pecados que andam tantas vezes de mãos dadas. Sim, por esta altura já estou convencido, já estamos convencidos, de que o Futuroscope não é um parque de diversões qualquer. Um parque especial. Escuso por isso de contar em pormenor como foi o resto do nosso dia, que isto de explicar sensações pode ser mais cansativo do que vivê-las. Voltámos à Dança com os Robôs, passámos por O Principezinho, uma atração que recria o livro de Saint-Exupéry e acabámos na The Fun Experience Arena, outra das novidades do ano. Um centro de jogos com PlayStations, simuladores, sala com lasers para atravessar sem tocar ou um jogo em que os concorrentes são convidados a empurrar uma pequena bola até ao campo adversário só com o poder da mente. E muitas outras atrações, filmes e espetáculos ficaram por ver.

Para as 22h30, precisamente doze horas depois do início da visita, está agendado Lady Ô, um show no lago do parque com direito a fogo-de-artifício. Mas primeiro sentamo-nos no restaurante La Table d’Arthur, onde nos servem um menu composto por vários pratos contemporâneos. Cozinha de autor, gastronomia molecular! Na sala, além de várias famílias, há também homens de negócios. São muitas as empresas que recorrem ao parque para reuniões de trabalho, concedendo depois aos funcionários tempo livre para se divertirem. Estes franceses são loucos, penso. Ou não, talvez o futuro passe mesmo por aqui.

Texto de João Ferreira Oliveira - Fotografias de Rui Oliveira