Misteriosa e inebriante, a capital tailandesa, com um certo quê transgressor que a torna uma das eleitas da sétima arte, não deixou o escritor José Luís Peixoto indiferente. Na primeira pessoa, ele partilha as suas impressões.

Por fim, a temperatura tornou-se respirável. O motor do tuk-tuk esforçava-se mais ou menos, consoante as subidas e as curvas. Às duas e meia da madrugada, ainda havia bastante trânsito, mas já não havia os engarrafamentos das manhãs, das tardes ou dos serões. À frente dos meus olhos, uma fila de luzes cor-de-rosa, verdes e amarelas, que se acendiam quando o condutor travava. Concentrado na estrada ou na noite, as costas do condutor estavam atrás dessas cores garridas, não se percebendo se tinha consciência do exagero luminoso que o seu veículo produzia, forrado com fitas de lâmpadas a piscar. No regresso ao hotel, passei por ruas onde a música continuava no mesmo volume de antes, onde a multidão avançava em marés, ombro a ombro. Banguecoque continua sempre.

Aproveitei a aragem daquela hora, senti-a na pele cansada. O fresco era o próprio descanso, era a trégua. Sob o toldo do tuk-tuk, baixei-me ligeiramente para assistir às ruas e avenidas. Os templos ainda dourados, ainda cheios de gente descalça, com o olhar baixo; os mercados ainda repletos de vendedores e de compradores; as massagistas sentadas à porta dos salões, à espera de clientes, fardadas. Passei pelas ruas de Banguecoque como se passasse por tudo o que existe ou pela minha própria vida, assistindo de fora, à distância. E sorri. Também esse sorriso era uma espécie de aragem, também ele cobria aquilo que via e pensava, também ele amenizava a temperatura. No rosto, levava o sorriso que tinha recebido em todos os lugares onde estivera durante o dia.

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A Tailândia é o país que sorri. Acredito que os sorrisos são uma rede que se alimenta a si própria. Ou seja, os sorrisos refletem-se uns aos outros. Esta não é uma ideia original, mas é a impressão sincera com que se fica nesse país, onde as pessoas têm sempre olhos gratos por estarem ali, naquele momento preciso.

«A Tailândia é o país que sorri. Acredito que os sorrisos são uma rede que se alimenta a si própria.

Na manhã desse dia, cedo, quando o calor ainda começava a descolar-se do fresco, já estava muita gente na entrada do Grande Palácio, ao longo dos seus muros. Na Tailândia, a família real está muito presente no quotidiano. Pelas estradas, pelas ruas, veem-se muitos painéis com imagens do rei, da rainha ou dos príncipes. Muitas vezes, ao passarem, as pessoas juntam as palmas das mãos diante do peito e inclinam-se numa vénia, exatamente como fazem com os pequenos altares budistas que também existem por todo o lado. Nos restaurantes, nas casas, há sempre imagens da família real. O Grande Palácio foi residência oficial do rei entre o século XVIII e o século XX. Atualmente, os visitantes têm de ter cuidado para não se perderem dos seus guias e acompanhantes e é impossível caminhar sem passar à frente da fotografia de alguém.

O Grande Palácio é constituído por um conjunto de edifícios reais e religiosos, simbolicamente juntos no mesmo espaço e que são a expressão máxima desse tipo de edifícios no país. Assim que se entra, não faltam exemplos a chamar a atenção. A Torre de Ouro, enorme, exposta de encontro ao céu limpo, incandescente, como se ardesse, é uma das hipóteses mais óbvias. As dezenas de metros de painéis, com cenas históricas e mitológicas, espaço de sombra e sossego raro, são as hipóteses mais tranquilas. Como a Torre do Ouro, a maioria dos edifícios terminam numa forma bastante afiada em direção ao céu e, também como ela, quase todos brilham, cobertos por dourados flamejantes ou por uma superfície de pequenos detalhes, às vezes com espelhos para refletir ainda mais luz.

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Os turistas imitam a posição das figuras esculpidas que se repetem ao longo das paredes, seguidas, e tiram fotografias assim. Como em todos os altares, há ofertas. Nos altares das ruas, com frequência, há frutos de boas cores, bebidas frescas, garrafas de Coca-Cola com palhinha para matar a sede de Buda. No altar do Templo do Buda de Esmeralda, há ofertas de ovos limpos e cuidadosamente empilhados. Wat Phra Kaew é o nome tailandês desse templo, onde está a imagem mais sagrada de todo o país: o Buda de Esmeralda. Depois de se deixar os sapatos à porta, entre centenas de outros, já sentindo a frescura do chão na planta dos pés, os ornamentos nas paredes e teto do templo ou a decoração profusa do altar podem, com facilidade, distrair da preciosa imagem de Buda, que tem apenas 66 centímetros. Apesar de ter esmeralda no nome, é feita de jade e as suas roupas e adornos são de fio de ouro.

Seja a que hora for do dia ou da noite (sobretudo à noite), Banguecoque é uma cidade que não para. Aonde quer que se vá, nas ruas, nos mercados e até nas casas de espetáculos, a sensação é a de se estar numa cidade que não dorme na forma.

O interior da residência real não pode ser visitado. O exterior impressiona o suficiente. Passam monges budistas a falar ao telemóvel. O complexo do Grande Palácio tem mais de duzentos quilómetros quadrados de área. Mesmo que se caminhe depressa e pouco se visite do lado religioso, quando se chega aos edifícios reais, o calor já é imenso e as exposições de armamento antigo são um bom refúgio, antes de procurar uma bebida, debaixo de uma ventoinha.
Felizmente, o Grande Palácio fica na margem do rio Chao Phraya. Há barcos compridos de madeira, cobertos por uma lona com as cores do arco-íris, prontos para nos levar pelas águas e mostrar outra cidade. As águas, claro, refrescam mais do que o alcatrão.

Na Tailândia, as tatuagens são uma tradição com séculos. É vulgar os homens, incluindo os monges, terem o peito e as costas cobertos por inscrições de grande minúcia. Os motivos mais comuns são o arredondado do alfabeto tailandês, as formas religiosas e, também, certos animais, como os tigres, as cobras ou os elefantes. Por eu ter tatuagens visíveis nos braços, havia muita gente a querer mostrar-me as suas e a querer ver as minhas em pormenor. Esse foi o caso do barqueiro, que despiu a camisola para me mostrar, com orgulho, um dragão que lhe subia pelo ombro e uma carpa que lhe descia pelo peito.
Havia vários tipos de objetos a flutuar nas águas, não se via absolutamente nada no seu interior.

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Eram castanhas ou acinzentadas, eram opacas. Pouco depois de ter posto o motor a funcionar, o barqueiro fez uma vénia para a margem de onde tínhamos saído, na direção do Templo do Buda de Esmeralda. Logo a seguir, fez uma vénia para a outra margem, na direção de Wat Arun, o Templo do Amanhecer, outra das imagens obrigatórias de Banguecoque. Seguindo pelo rio largo, passando por baixo de pontes, havia a cidade de arranha-céus gigantes e havia tudo o que se conseguia ver nas margens, grupos de rapazes e raparigas com a farda completa do colégio, homens, mulheres, gente com um sorriso que conseguia distinguir-se mesmo à distância.

Depois, o barco entrou por canais bastante mais estreitos, atravessando quilómetros de casas sobre estacas onde, nos alpendres ou através das portas abertas, se mostrava a paz doméstica: roupa lavada a secar, bebés a olhar muito admirados, coelhos ou galos em gaiolas. Muitas dessas casas tinham barcos atracados e esse era o único meio para chegar a elas. Quase todas tinham as caixas do correio viradas para o rio, também o carteiro passava de barco.

Existem imagens que são recorrentes e nisso Banguecoque não é exceção. As estátuas de Buda e os templos são incontornáveis, mas mesmo ali, ohares mais atentos vão prender-se em outros detalhes; como os monges tatuados.

À frente, uma canoa dirigida por um vendedor a usar chapéu de bambu e a remar lentamente, o barqueiro desligou o motor. Cumprimentaram-se. Acabei por comprar um saco de rambutão. Na Tailândia, comer fruta faz parte das experiências essenciais de visita ao país. Existe fruta à venda em toda a parte, até no rio. Rambutão, por exemplo, tem uma casca avermelhada, revestida de espinhos moles que não picam. No interior, à volta de um caroço, encontra-se uma polpa transparente, um pouco rosada, doce e ácida. Há ainda muitos outros frutos, de formas e nomes fora do comum: jambo-vermelho, mangostão, longan, pomelo, entre muitas outras.

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O barco voltou ao pequeno porto de onde tinha saído. Essa área está rodeada por um mercado onde se vende mais do que posso descrever, com uma grande oferta de amuletos e comida. Os amuletos são medalhões com imagens budistas, muito trabalhados. A comida pode ser qualquer coisa e ter qualquer forma. Desde as sopas até aos pratos mais exuberantes. A comida é barata e muito boa. A maioria dos guias desaconselham os estrangeiros a comer na rua mas, no meu caso, com coragem, o resultado compensou sempre o risco. Para o paladar ocidental, uma das maiores diferenças poderá ser o picante. Dessa vez, pedi uma espetada de tofu frito. A vendedora mostrou-me uma panela de picante e perguntou-me se queria, disse-lhe que sim, esperando que a salpicasse com algumas gotas. Em vez disso, mergulhou-a no picante e deu-ma. Pedi também uma bebida. Encheu um saquinho plástico, enfiou-lhe uma palhinha e deu-mo.

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«Passei pela Chinatown, uma das mais interessantes e culturalmente ricas do mundo. Com uma oferta extraordinária de comida. Às vezes, a entrada para o restaurante é feita pelo meio da cozinha; outras vezes, as mesas estão na rua, com todo o trânsito a passar a centímetros.»

Sob o calor, o trânsito infernal. Os tuk-tuks são o meio de transporte mais famoso de Banguecoque. Há bons motivos para isso. São muitos e passam a toda a velocidade, levando o barulho dos seus motores como cornetas ou insetos. Mas também há os táxis cor-de-rosa, verde-alface, com ar condicionado; também há os táxis mais amolgados, sem ar condicionado; também há uma variedade imensa de viaturas, que passam por cada pedacinho de trânsito que encontram livre. Esse é caso do meu meio de transporte preferido na cidade: as motos. Não é difícil encontrar um dos muitos condutores com colete laranja fluorescente. A discussão do preço pode ser mais ou menos elaborada, consoante o nível de inglês das partes. Quando se inicia essa negociação, convém saber bem para onde se vai. Neste caso, ia para Wat Pho, o Templo do Buda Deitado.

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Já de capacete, a viagem é feita ao ritmo frenético da própria cidade. Avançando sempre entre carros com muito pouco espaço a separá-los, quase a bater em espelhos retrovisores ou em pontas de carga solta, passando imparável por diversos tipos de piso, pontes, túneis, ruas secundárias, sob a sombra de arranha-céus ou de árvores com as raízes de fora, a moto só para nos semáforos dos cruzamentos maiores, aqueles em que tem mesmo de parar. Nesse momento, como nos troços mais calmos das montanhas-russas, retoma-se o fôlego, embora o ar seja muito poluído, ao ponto de quase todos os condutores de motos usarem o rosto completamente coberto com lenços, deixando apenas os olhos de fora. Enquanto o semáforo não muda de cor, vão-se juntando cada vez mais motos. Os corações batem ao mesmo tempo.

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O inusitado está ao virar de cada esquina, mas é em Chinatown, uma das mais interessantes e culturalmente ricas do mundo, que quem está de fora sente o verdadeiro impacte de estar perante hábitos e rituais que fogem ao seu quotidiano.

Plim. Mal a luz passa a verde, cada moto acelera para seu lado, como se lançasse um grito rouco. E, de novo, o mesmo ritmo, a mesma velocidade. Apesar do vento da deslocação, continua a transpirar-se. Nesse caminho, passei pela Chinatown, uma das mais interessantes e culturalmente ricas do mundo. Com uma oferta extraordinária de comida. Às vezes, a entrada para o restaurante é feita pelo meio da cozinha; outras vezes, as mesas estão na rua, mesmo na rua, com todo o trânsito a passar a centímetros.

Quando tirei o capacete, até as sobrancelhas estavam despenteadas. Em Wat Pho, os motivos de interesse são muitos. Naquela hora, para mim, um deles era simplesmente sentar-me um pouco à sombra e imitar a inércia de uma das muitas figuras douradas de Buda que acompanham os muros. Restabelecido, deixei os sapatos à porta, também um alívio, e entrei.
O Buda que dá nome ao templo está efetivamente deitado e tem 15 metros de altura e 43 metros de comprimento. Estas dimensões são, por si mesmas, expressivas do impacte dessa presença.

A cabeça, os pés, as mãos, tudo é gigante. A posição em que está, deitado com uma mão a apoiar a cabeça, transmite calma. A frescura do templo e o som ritmado que se escuta também contribui para esse vagar. No início, avançando ao longo da frente do corpo de Buda, eu não conseguia identificar o que era aquele misterioso som metálico. Foi só quando cruzei os seus pés e cheguei à parte de trás das suas pernas que vi a fila com 108 potes. Os crentes trocavam uma nota por uma mão-cheia de moedas e passavam pelos potes, deixando cair uma moeda em cada um deles.

«Se tivesse de aconselhar alguém que visitasse a cidade durante um fim de semana, dizia-lhe que não perdesse o mercado de Chatuchak. É o maior mercado semanal do mundo, com milhares de bancas a vender todo o tipo de objetos.»

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Em Banguecoque, é possível comprar quase tudo. As ofertas são de todos os géneros e estão disponíveis a qualquer hora: desde os mercados de rua, a estender-se por quilómetros de passeio, até aos centros comerciais mais sofisticados, com as marcas de maior prestígio. Ainda assim, se tivesse de aconselhar alguém que visitasse a cidade durante um fim de semana, dizia-lhe que não perdesse o mercado de Chatuchak. Faria essa sugestão mesmo que se tratasse de alguém que não quisesse comprar nada e não gostasse de mercados, embora não acreditasse que esse indivíduo exemplar conseguisse ir lá e não comprar nada. Chatuchak é o maior mercado semanal do mundo, com milhares de bancas a vender todo o tipo de objetos. Labiríntico, caleidoscópico, fascinante.

Por outro lado, se essa pessoa tivesse pouco tempo, talvez desaconselhasse a visita a Khao San Road. Isso apesar de ser uma das primeiras indicações de todos os guias, um dos postais mais famosos e, mesmo, o conselho da maioria dos estrangeiros que visitam a cidade. Trata-se de uma rua, onde estão expostos todos os clichés da Tailândia para consumo dos turistas ocidentais. Estes chegam diariamente, em massa, e, por uma nota, tiram uma fotografia a fingir que comem uma espetada de escorpião, de gafanhoto, centopeia ou de qualquer outro inseto. Em Khao San Road, o negócio desses vendedores de espetadas insólitas, aliás, é muito mais cobrar as fotografias do que vender as espetadas realmente. As camisolas óbvias, os souvenirs evidentes, a euforia visível. Compreendo o turismo e percebo a sua necessidade, mas dispenso este género.

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Um serão mais genuíno pode ser encontrado em Patpong. Nos anos 1960, a área começou a ganhar notoriedade entre os soldados americanos que serviam na guerra do Vietname. Nas décadas seguintes, estabeleceu-se essencialmente como bairro da luz vermelha. Nos últimos anos, a oferta alargou-se. É certo que ainda existem ruas inteiras cheias de mulheres ou travestis em lingerie a convidar para entrar nos bares onde dançam em cima do balcão ou onde fazem uma famosa e infame demonstração de pingue-pongue, mas também é verdade que há muitas ruas desse bairro onde famílias inteiras passeiam ao serão entre tendas onde se vendem objetos garridos, entre salões improvisados de muay thai ou restaurantes ao ar livre a oferecer, por exemplo, uns lagostins grelhados que não esquecerei tão depressa.

A norte
Banguecoque foi mais do que um destino. Foi também uma porta de entrada para que o escritor José Luís Peixoto pudesse rumar ao norte do país e tomasse contacto com os elefantes no seu habitat natural.

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Foi lá que apanhei o tuk-tuk e me lancei no ar finalmente fresco e respirável. Nesse caminho, sabendo que me esperava o hotel, os meus pensamentos encontraram um sentido justo. Atravessado por aquela cidade, estava pronto para dar o dia por concluído e descansar. Sorrindo, olhava ainda para Banguecoque sempre jovem, sempre viva, e era capaz de acreditar que Banguecoque me sorria de volta.

Agradecimentos

TAP
www.flytap.pt
Tourism Authority of Thailand
www.tourismthailand.org
Thai Airways
www.thaiairways.com

Texto de José Luís Peixoto - Fotografias de Alfredo Leite