Quando saíste do aeroporto, espreguiçaste-te. Estava frio e era tudo demasiado real. Tentaste ligar-lhe, mas ele não atendeu. Voltaste a ligar-lhe, mas ele voltou a não atender.

Ontem, acordaste para um dia natural, tomaste o pequeno-almoço. Despertavas ainda lentamente, quando tocou o telefone. Atendeste. Era ele a dizer-te que, hoje, tinhas de estar aqui. O teu cérebro contabilizou gastos, gestos e tempo. Fizeste as malas em meia hora que te pareceu menos tempo porque ontem, naquele momento específico, possuías uma certa ansiedade que te turvava por dentro. Fizeste aquilo que se esperava de ti. Apanhaste um táxi, medido pelo taxímetro, e chegaste ao aeroporto. Depois de comprares o bilhete, esperaste numa cadeira com a mala aos pés. Passaram quatro horas que te pareceram muito mais longas porque não tinhas nada para preenchê-las, apenas a tua espera, apenas o teu olhar a desembaraçar-se sobre pessoas que se dirigiam a algum lado.

Tempo longo e cinzento, iluminado por lâmpadas cansadas, ar artificial. E, depois, todos os procedimentos a dividirem o tempo: a senhora fardada do check-in, a máquina dos metais, tira o cinto e descalça-te, o passaporte fiscalizado por um homem de óculos, a fila no portão 26, o autocarro a dar demasiadas curvas, a escada do avião, o corredor do avião, o teu lugar, 32A. E apertaste o cinto de segurança. Não tens certeza acerca de quanto tempo durou o voo porque tomaste um comprimido e dormiste. O sono agilizou-te o curso do tempo, mas também o abrandou porque, naquela posição, dormiste mal, sentiste as hospedeiras a passarem com o carrinho das bebidas, a dizerem: chá café chá café chá café. O avião aterrou. Quando saíste do aeroporto, espreguiçaste-te. Estava frio e era tudo demasiado real. Tentaste ligar-lhe, mas ele não atendeu. Voltaste a ligar-lhe, mas ele voltou a não atender.

Quando saíste do aeroporto, espreguiçaste-te. Estava frio e era tudo demasiado real. Tentaste ligar-lhe, mas ele não atendeu. Voltaste a ligar-lhe, mas ele voltou a não atender.

De repente, não sabias o que fazer com todo o tempo que tinhas à tua frente. Disseste algumas palavras noutra língua e apanhaste um táxi. Acertaste o teu relógio pela hora desse país. Chegaste a um hotel onde já tinhas estado. Havia detalhes que pareciam iguais à primeira vez em que reparaste neles e havia outros que eram muito diferentes. Duvidaste se seriam mesmo diferentes ou se apenas não tinhas reparado neles antes. Recebeste a chave do quarto 412, subiste no elevador. Até entrares no quarto, já tinhas olhado muitas vezes para o telefone (nenhuma alteração), mas voltaste a olhar. Antes de pousares a mala, sentiste a luz que entrava pelas cortinas, a cama feita e indiferente, e pareceu- te que, ali, naquela divisão silenciosa, o tempo estava parado. Ligaste a televisão na CNN.

Qualquer coisa estava a acontecer no Afeganistão (bomba), qualquer coisa estava a acontecer em Paris (reunião de chefes de Estado), qualquer coisa estava a acontecer em Detroit (tiroteio num centro comercial). Descalçaste as botas e subiste para a cama, acomodaste as almofadas nas costas. Não sabes quanto tempo passaste a debater-te entre a ideia de voltar a telefonar e o orgulho de esperar pelo telefonema dele. No início da noite, ligaste-lhe. Ele não atendeu. Puxaste o telefone do hotel, carregaste no número 9, pediste uma salada, bateram à porta, entrou um rapaz com a salada, comeste-a e adormeceste. Hoje, acordaste. Com as miniaturas de sabonete e de champô do hotel cumpriste todos os teus rituais de higiene. Vestiste roupa lavada e chegaste aqui. Estás à minha frente, deslocaste-te no espaço, não viajaste.

Texto de José Luís Peixoto