A Quinta de Lemos permite passeios bucólicos de outono, provas de vinhos e um jantar com a marca do chef Diogo Rocha. Os donos da Abyss & Habidecor, reputada marca de tecidos, abrem as portas de sua «casa» para dar a conhecer o melhor da região.

Ao entrar na Quinta de Lemos deparamo-nos de imediato com o edifício da adega, como que a sublinhar que ali o vinho é rei. O empedrado de granito guia-nos à porta e já lá dentro, no hall, sobressaem três bandeiras: a portuguesa, a belga e a europeia. É aí que Pierre Manuel de Lemos começa a explicar a história da sua família, sendo que ele resume bem a identidade plural desta União Europeia sem fronteiras: o pai é português, a mãe belga. Pierre é a simbiose das duas culturas, é sobretudo um cidadão europeu. E conta com orgulho a história do pai, Celso de Lemos: «A Quinta de Lemos nasceu há 15 anos, era um sonho do meu pai. Ele é uma pessoa muito simples, muito humilde, que nasceu numa família de sete filhos.

Até aos 17 andou por aqui e só se interessava por futebol.» Curiosidade avulsa, chegou até a jogar no Sporting. Pierre continua, revelando que a sua avó Georgina (mãe do seu pai, que dá nome a um dos vinhos de topo da casa, o Dona Georgina) mandou Celso «fazer-se à vida e aconselhou-o a ir para a Bélgica estudar têxtil. Ele apanhou o comboio e lá foi. Com o tempo ganhou disciplina e começou a pensar que devia fazer algo pelo seu país. E conseguiu». A Abyss & Habidecor é hoje uma empresa de tecidos de algodão, linho e caxemira de prestígio internacional, que fornece personalidades como Obama, Putin e Cristiano Ronaldo. E Pierre sublinha: «Temos três mandamentos, um é ser made in Portugal, mas hoje em dia o made in já não é suficiente, tem de ser também made by e made of.» Feito por portugueses e com produtos portugueses, portanto. O orgulho de Pierre na portugalidade é sincero, vê-se no entusiasmo com que fala, com um simpático sotaque francófono, dos negócios familiares.

Pierre Manuel de Lemos gere a quinta da família, comprada há 15 anos, e é um apaixonado pela região do pai, pelo vinho, por pássaros e por fotografia.

Ainda na adega, Pierre encaminha-nos para um salão onde são feitas as provas de vinho – disponíveis mediante marcação prévia (preço: 15 euros). Por ano, a casa produz 100 mil garrafas. E, garante o cicerone, «temos uma estrutura que nos permite colocar qualidade em todas elas». Vinho novo é coisa que não interessa à Quinta de Lemos. A produção é toda aqui guardada cinco anos antes de sair para o mercado. Outro traço da identidade da quinta é, sem pôr de parte os blends, a aposta nos monocastas. «No Dão a maioria dos vinhos são blends, mas nós queremos partilhar as castas locais e nacionais. A nossa ambição é dá-las a conhecer lá fora e o rótulo ter o nome ajuda a promovê-las. Todos os anos temos vinhos cem por cento de cada uma das castas [a saber: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jáen e, nos brancos, Encruzado], o que é muito difícil», conta.

Ali ao lado está a ser construído um lagar de azeite, outro produto que vai dar que falar. Mas é tempo de sair da adega e dar uma volta pela quinta. De vinha existem 25 hectares, sendo que devido à grande quantidade de chuvas no Dão, superior à do Douro, por exemplo, na Quinta de Lemos optou-se por plantar mais vinha por hectare do que o normal. «A média em Portugal é entre 3500 e 4 mil pés por hectare, aqui temos 6 mil», explica Pierre de Lemos. Vale a pena passear a pé por este espaço que permite belas paisagens e boas fotografias para mais tarde recordar. Além das vinhas há duas hortas biológicas com morangos, pimentos, couves, couve-flor, curgete e o que mais a terra der, bem como uma cerca com uma cabra e outra com galinhas que fazem as delícias dos mais novos. Pelo caminho há castanheiros que nesta altura do ano deixam cair os ouriços no chão, bem como cogumelos selvagens. É o outono em todo o seu esplendor.

O outono é uma das melhores épocas para visitar a Quinta de Lemos, onde além das vinhas se encontram oliveiras, castanheiros e hortas, bem como uma cabra e galinhas.

O passeio abre o apetite. Se for sexta ou sábado, o visitante está com sorte: é só deslocar-se ao edifício modernista de betão projetado pelo ateliê Carvalho Araújo – que fez parte da seleção final dos prémios internacionais do website de arquitetura ArchDaily. Nesse edifício, que sem se impor domina a paisagem, está o restaurante Mesa de Lemos, chefiado por Diogo Rocha. Lá dentro sobressai um rochedo que foi aproveitado como parte da parede interior, local onde começam os 25 lugares deste espaço com refeições de alta cozinha com fusão de produtos e sabores portugueses. Portugal é mesmo o prato principal, do camarão algarvio ao atum dos Açores, passando pelo espadarte de Setúbal.

Há duas hipóteses de jantar: o menu de degustação de seis pratos ou outro mais abreviado com três. Impõe-se atenção a um detalhe: as refeições têm de ser marcadas previamente. E, de um modo geral, a atenção aos detalhes propriamente ditos, a «prata da casa»: junto ao restaurante, é imperativo visitar os três quartos que fazem parte do showroom da Abyss & Habidecor, uma marca que tem clientes como o Harrod’s e a Bloomingdale’s.

As toalhas, tapetes, roupões e lençóis da Abyss & Habidecor já chegaram a casa de Obama, Putin e Ronaldo e a armazéns como o Harrod’s e Bloomingdale’s.

A Quinta de Lemos fica cerca de 15 quilómetros a sul de Viseu. Por isso há que aproveitar a terra que terá sido de Viriato. A igreja da Misericórdia, o Rossio, a Rua Direita e a Rua Formosa são pontos que não se devem perder na cidade beirã. Mas há outros três que merecem destaque: A catedral, o Museu Nacional Grão Vasco, que encerra um valioso acervo de pintura quinhentista, e o Parque Aquilino Ribeiro, que já foi quinta medieval. Muito bem cuidado, tem um lago e uma capela. Como em tudo, nada é melhor do que o prazer da descoberta. E por terras de Viseu as boas surpresas são muitas!

Visitar

Quinta de Lemos
Passos de Silgueiros (Viseu)
Tel.: 232951748
Web: quintadelemos.com
Preço: 15 euros por pessoa (prova de vinhos)

Comer

Mesa de Lemos
Tel.: 961158503
Das 20h00 às 23h00. Encerra de domingo a quinta.
Preços: 25/50 euros (menu de 3/6 pratos; suplemento de vinhos: 10/20 euros)

Ficar

Country Houses & Nature Casas do Pátio
São quatro casas de campo que misturam arquitetura rústica e moderna. Ficam na aldeia termal de Caldas da Felgueira e têm os elementos por tema – cada qual o seu. Cada casa pode acomodar dois a quatro hóspedes.
Travessa do Comércio, Caldas da Felgueira (Nelas)
Tel.: 966540330
Web: casasdopatio.pt
Preços: Casa T1 a partir de 90 euros por noite (inclui pequeno-almoço)

 

Texto de Tiago Guilherme - Fotografias de Diana Quintela/Global Imagens