Kampot é uma terra pequena, no Sul do Camboja, sem mar. Ficamos ou seguimos viagem? À chegada não se distinguem os argumentos que pendem a favor de uma ou de outra possibilidade. Mas eles aparecem. Vêm com a descontração que desliza nas veias da cidade e com as pessoas, as naturais de lá e as emprestadas. Ficamos.

«No meu país, os agricultores são donos das suas terras», dizia-me Dom Sophea, num inglês que se esforçava por melhorar. Contava a história dos seus pais, que sempre viveram da plantação de arroz numa província perto de Kampot e cujo rendimento, ou parte dele, sempre foi destinado para a educação dos quatro filhos. Dom Sophea abriu-nos a porta do único museu da cidade que, por coincidência, acabara de ser inaugurado nesse mesmo dia. Estava vazio. Convidou-nos a entrar e durante a nossa conversa – na verdade, mais interessante do que a exposição – começou a esboçar-se o perfil desta geração cambojana que quer aprender, crescer, evoluir. Quer muito.

Dom Sophea, no Museu de Kampot onde é voluntário para conseguir treinar o inglês.

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Grande parte da formação superior no Camboja, sobretudo a que existe fora da capital, decorre em pós laboral e/ou ao fim de semana, sendo que a oferta, nas cidades pequenas, é muito parca ou nenhuma. Ser estudante a tempo inteiro é incompatível com o rendimento de grande parte das famílias e por isso primeiro vem o trabalho, seja ele no campo, na loja, no escritório. Ainda assim, a vontade de aprender pode ultrapassar todas estas barreiras erguidas entre os jovens e a escola.

Dom Sophea tem 23 anos, é recém-formado em Turismo e trabalha, como funcionário público, no Departamento de Turismo em Kampot. Mas porque está ainda em fase de estágio não recebe ordenado. Os tempos livres, divide-os entre o voluntariado que faz no museu e um curso de Inglês. O dinheiro que recebe dos pais chega para pagar a alimentação e os cerca de 65 euros mensais pelas aulas. Dorme no chão, junto ao seu posto de trabalho. Para conseguir frequentar o curso, percorre, ao fim de semana, 12 horas de autocarro, já que a escola de línguas é em Phnom Penh, a capital.

O voluntariado foi a forma que encontrou de praticar o inglês, porque acredita que o museu vá receber muitos turistas. E enquanto falava do seu dia-a-dia, o sorriso era rasgado, porque, diz, há muitos rapazes da sua idade que vivem do trabalho nos arrozais ou nas salinas e já têm pelo menos dois filhos. Ele não. Ele está a aprender e por isso o futuro vai trazer-lhe outra vida. E a vida que ele quer há de chegar com o dinheiro suficiente para que possa comprar o seu pequeno hotel, onde se falará khmer, inglês e francês.

Todos os dias, os monges mais novos percorrem as ruas da cidade de Kampot pedindo donativos. Não batem à porta nem estendem a mão a quem passa. A iniciativa é de quem doa.

Este é o sonho de Dom. Kampot, onde o devir do rapaz ganha forma, é o cenário encantado para uns quantos estrangeiros que ali, no Sul do Camboja, numa pequena cidade à beira-rio, junto a plantações de pimenta usada em cozinhas francesas, às portas de salinas que todas as madrugadas são «varridas» por homens e mulheres da terra; ali, numa pequena cidade encostada a uma aldeia piscatória de barro vermelho, onde duas pontes separam duas pequenas partes de um todo; ali decidiram empreender e, acima de tudo, viver.

É organizada geometricamente, tem milhares de cabos pendurados entre postes a desafiar a força da gravidade, tem estradas de asfalto até ao quilómetro em que a terra volta a aparecer, vermelha, como se fosse uma veia latente, tem casamentos e funerais na rua, tem mercados. Tudo isto é digno de contemplação, porque a geometria simples enaltece as casas de inspiração francesa, com tudo em um – o negócio, o quarto, a cozinha; porque os cabos começam a fazer parte da paisagem como se tivessem nascido ali, na mesma altura em que nasceu o mundo; porque a terra batida, ocre, lembra alguma coisa parecida com as origens, com as raízes; porque as festas, a celebrar a união com o próximo ou com o divino, são feitas em tendas na via pública que de tão pública se transforma em privada; porque os mercados… bem, esses merecem um capítulo à parte.

Depois de dois dias a passear pelas mesmas ruas, as mesmas caras vão aparecendo e muitas não são de lá. Entre australianos, italianos, neozelandeses, franceses, ingleses, encontrámos portugueses, pois claro. Também Filipe e Francisco se renderam à cidade que nos mostraram como se fosse – e já é – deles. Abriram o primeiro restaurante português de toda a região, o Tertúlia, e são dois exemplos do efeito que Kampot pode exercer sobre os ocidentais que ali chegam fartos – alguns só o descobrem lá – das regras ocidentais, da alta velocidade ocidental, das expetativas ocidentais, do frio.

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Ali, o tempo é feito de uma liga mais elástica; ele é suficiente para a vida acontecer. «Às 17h00 vou ver o pôr do Sol, às 18h00 vou ver as andorinhas e às 22h00 vou beber uma cerveja. A vida aqui é tranquila. Não há nada para atrapalhar», ouve-se alguém comentar, ali mesmo na nossa mesa na esplanada do Captain Chim’s – no centro da cidade – debaixo de sombra, todos a beber cerveja e ainda as badaladas estavam longe das 22h00. Não será sempre assim, é certo. Mas é assim sempre que se queira e não quando os ponteiros do relógio apontam para o descanso, a conversa, a festa. Lá, em Kampot.

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A escola de música, no centro da cidade, convida todos a entrar e a assistir às atuações ou aos ensaios dos alunos.

A oferta hoteleira está em crescimento, assim como a de restauração e a de serviços de turismo, como passeios de barco ou visitas guiadas à grande montanha de Bokor, às aldeias vizinhas ou às plantações de pimenta. Parte dessa oferta é explorada pela comunidade internacional que traz ideias frescas mas não cai na tentação de as estilizar. Veem-se conceitos que poderiam estar em Lisboa ou em Berlim, mas a forma como estão concretizados tem Kampot no ADN. Estão, ou são, de acordo com o estilo da cidade.

Não há a mão uniformizadora da ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, há alguns constrangimentos operacionais, não há a variedade que se encontra, por exemplo, na Tailândia. Mas há imaginação e vontade de fazer. Angus é dono do bar-restaurante Espresso. Vive em Kampot com a mulher e a filha bebé e com a máquina que entretanto comprou para torrar o próprio café. «Se eu comprar café aqui nas lojas, pode vir misturado com soja e até gordura de porco. Se encomendar de Itália, quando aqui chega já tem um sabor a “velho”. Então mandei fazer esta máquina no Vietname, a única que existe no Sul do Camboja, e assim posso dizer aos clientes quando o café foi tostado.» Veste uma camisola de alças, larga e com ar cansado, calções e chinelos e nada bate com nada e tudo bate tão certo.

A poucos quilómetros da cidade, a floresta adensa-se e a tranquilidade reina. A imagem que se tem normalmente do Camboja está aqui.

Aquele sítio não é só o seu negócio é também a sua vida, e Angus quer a vida assim: fluida e não necessariamente alinhada, caso contrário não teria deixado a Austrália para viver no Camboja. Enquanto ele explica o processo de funcionamento do aparelho, tão útil quanto bonito, o Espresso enche-se de gente que ali vai não só para beber café, mas também para fazer refeições ligeiras. O dress code de Angus tem o mesmo significado de outros que se veem pela cidade. É comum mulheres e crianças usarem pijamas na rua, e não é por não saberem que aquela roupa é, por regra, utilizada à noite quando se vai dormir. Mas aqui a regra não interessa nada. Pijamas largos, coloridos e nem sempre «irmanados» desfilam por toda a parte até porque, como questionam as próprias: «Quem é que se importa com isso?»

Não há como estes lugares, onde tudo se vende e onde todos chegam para comprar, para radiografar costumes e temperamentos, formas e fórmulas de ser. Em Kampot há dois mercados que providenciam grande parte da oferta diária de alimentos. Um, o mais completo, é no centro da cidade: tem chão de cimento e teto de chapa, às vezes alto, e o espaço fica amplo, às vezes baixo e tudo parece encolher em direção ao chão; tem várias entradas e as saídas que, eventualmente, se encontrarem porque é labiríntico e cheio. Entrar diretamente para a parte dos peixes e das carnes e este ser o primeiro mercado que se visita no Camboja são as duas condições para deixar impressionado os impressionáveis com o cheiro, o calor, o sujo, a mosca, tudo junto num cocktail que nos cai em seco no estômago e nos lembra que somos estrangeiros acabados de chegar. Passa!

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Em bacias de metal, ou de plástico, com água, peixes mexem-se pela vida, literalmente, disputando o líquido. É bom sinal. Se estiverem vivos, as vendedoras podem provar que o produto é fresco. As bancadas não chegam para todos, por isso faz-se do chão o apoio. Assentam-se bacias com peixe vivo e peixe morto, alinha-se peixe seco, penduram-se nacos de carne, distribuem-se verduras, bananas e camas de rede onde descansam crianças e adultos.

Os olhos estrangeiros espantam-se com as senhoras de cócoras, descalças ou de chinelos, a desmanchar peças de carne em cima de bancadas de madeira com nacos sobrepostos; ou com as que estão de cócoras no chão a depenar os patos que, quando nus, vão de mão em mão até à panela com água a ferver; ou com as miúdas novas deitadas na rede junto da sua porção de vegetais para vender, entretidas com o Facebook: sinal dos tempos!

Junto ao mercado ficam dezenas de bicicletas e motos. Dica: memorizar o lugar onde se estaciona.

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Depois há roupa, detergentes, sapatos, produtos de higiene vindos da Tailândia, e berloques para o cabelo e para a casa. Numa outra ala, dezenas de rapazes e homens trabalham nos seus ofícios: fazem colares, anéis, pulseiras, talvez para adornar o conforto do pijama. Usam martelo, metal, pinça e um maçarico cuja chama é acionada por uma bomba que eles bombeiam com o pé. Aquele movimento, para cima e para baixo, rotineiro e ritmado, parece tique nervoso. As mulheres vendem as peças e as crianças brincam por ali, entre as micro-oficinas. Tudo é artesanal e as próprias máquinas implicam ação humana. Em comum entre este mercado e o outro, a céu aberto, que acontece junto ao rio de madrugada, é o facto de a tecnologia estar nas mãos de todos. Literalmente. Todos têm telemóvel, todos têm internet no telemóvel e todos querem partilhar a vida no Facebook.

05h30. Ainda está escuro quando as pequenas embarcações de madeira colorida começam a chegar a terra, dando por terminada uma noite de trabalho. À medida que mais barcos atracam, vão chegando mais compradores, vendedores de comida, muitas mulheres que começam a amanhar o peixe, umas dentro dos barcos, outras em alguidares sobre a terra batida. A luz do dia revela o colorido das suas roupas, as expressões morenas e magras dos homens, as poças de água com as entranhas de peixes, o fumo que sai das grelhas de quem aproveita o momento para fazer negócio, e revela um rapaz que nos pede para tirar uma fotografia, connosco, para postar no Facebook. Tem 24 anos, estava ali com a mulher, da mesma idade, e em cinco minutos fomos todos do mercado do peixe ao mundo virtual. Nós, os estrangeiros, de bloco de notas e de câmara fotográfica, estávamos exóticos.

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É comum ver-se peixe seco à venda um pouco por toda a parte. É uma forma de conservação milenar ainda muito utilizada. A gastronomia é uma chamariz para quem visita o Camboja.

Kampot é cortada por um rio de margens largas. De um lado, a zona turística: é onde se encontram a maioria dos hotéis, dos restaurantes, dos cafés e dos visitantes. De costas voltadas para o rio, à medida que se vai entrando pela cidade, ganha-se uma dimensão mais realista da vida khmer. Num pequeno espaço, conseguem montar o negócio de barbeiro, vender bilhetes de autocarro e fazer vida familiar, entre pais, às vezes avós, filhos, netos…

Numa acelera, conseguem andar cinco pessoas entre adultos e crianças; conseguem atrelar uma estrutura de vários metros e carregá-la com plásticos vários, de vassouras a alguidares, para vender pelas ruas; conseguem atar um porco que vai vivo ao encontro do seu destino; cozinham na rua, jantam na rua e fazem ginástica na rua. Durante o dia, há algumas vias principais muito movimentadas a assinalar que por ali a economia mexe; pode render pouco, mas mexe muito. Durante a noite, a vida longe do rio apaga-se, como se apagam grande parte dos lampiões. A cidade fica às escuras e só se ouve o uivar dos cães.

O mercado do peixe junta dezenas de barcos que trabalham do pôr do sol ao nascer do dia, quando regressam a terra para vender o que pescaram.

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Do outro lado, na margem oposta, a cidade é mais crua, e está encostada a uma aldeia de madeira sobre estacas, assentes em terra, com janelas onde sempre espreita uma criança, uma mulher, um velho. É aqui que moram os pescadores que sobem e descem o rio até à paragem final, no mercado da madrugada. Desse lado, há também salinas que dão trabalho a homens e mulheres; apanham o sal e carregam-no em cestos de vime, começam a trabalhar quando o Sol acorda e o calor ainda não ferve. Ganham, dizem, cerca de cinco dólares por dia. Também bem cedo, as crianças vão a pé ou de bicicleta para a escola. São dezenas os miúdos de vários tamanhos, mas as bicicletas são de tamanho único. Uma medida para cada fase da infância é coisa que por ali não é uma realidade. A realidade é outra: cada um amanha-se como pode.

Ao contrário do que acontece no centro da cidade, aqui quase ninguém fala inglês. Ao longo dos caminhos há vendas de bebidas e snacks e restaurantes khmers que parecem salas de cinema. As cadeiras fazem várias filas indianas e os homens vão chegando para ver televisão. Não há happy hour – que do outro lado é certo que começa às 17h00 – mas há pessoas a cantar karaoke para divertimento próprio e porque possivelmente acham que cantam bem. Acendem-se pequenas fogueiras às portas das casas para queimar o lixo do dia, noutro lume coze-se arroz e frita-se peixe. Cada um amanha-se como pode. E podendo, vale a pena ir a Pot (para os amigos!), a cidade onde, mais tarde ou mais cedo, todos acabam sentados nos mesmos lugares a ver o pôr do Sol.


Guia

Moeda: Riel. 1 euro = 4,5 Khr (dólar geralmente aceite)
Fuso horário: GTM +7
Idioma: Khmer
Quando ir: de novembro a março é a época seca; de abril a julho, os termómetros chegam aos 40º; julho e agosto são meses de chuva e o índice de humidade é elevado, no entanto, a paisagem fica mais luxuriante.

Andar de bicicleta pela cidade é uma das melhores atividades. Quase todas as guesthouses têm bicicletas para alugar e na rua encontra-as a partir de $1/dia. As motos são um pouco mais caras, mas compensa se a ideia é visitar as redondezas. O trânsito rege-se pela lei do mais forte: quanto menor o transporte, menor a prioridade. Não faltam tuk-tuks em Kampot: defina o preço sempre antes da partida.

kampotsurvivalguide.com

Ir

Kampot não tem aeroporto. A Lufthansa e a British Airways voam para Phnom Penh (PP), a capital, entre 600 e 1000 euros. De PP até Kampot 3 a 4 horas de autocarro. A Capitol (capitolkh.com) e a Giant Ibis (giantibis.com) fazem o percurso, por $8. As carrinhas de 12 lugares são mais confortáveis e a viagem, mais rápida – mas a lotação pode exceder-se. O táxi é também opção por cerca de $50 – negoceie o preço sempre antes de iniciar a viagem. É necessário visto para entrar no Camboja.

Dicas

Compre um cartão SIM caso precise de telefone e net em qualquer lugar (grande parte dos cafés, restaurantes e guesthouses têm wifi).
Faça um seguro de viagem, que inclua cuidados médicos. O sistema de saúde no Camboja é precário.
Ande com o repelente na mochila. Não vai querer perder o pôr do Sol por causa de umas picadas!
Aprenda algumas palavras em khmer. Por exemplo: sim, baat (dizem as mulheres) e jaa (dizem os homens); não, ot tey; obrigado, ahr coon; olá, suas’dei.
Marque, seis semanas antes de partir, uma consulta do viajante.

Texto de Petra Alves - Fotografias de Constantino Leite