A rota «Caminos de Pasión» une oito municípios do Sul de Espanha. Além das suas originais festividades da Semana Santa, partilham todos um legado histórico, cultural e gastronómico.

Entre Sevilha, Córdova e Granada existe uma Andaluzia diferente, mais discreta e rural. Os oito municípios que fazem parte da rota «Caminos de Pasión » não atraem o turismo de forma maciça, a não ser durante a Semana Santa, vivida por estes pueblos de forma intensa. Quem não estiver interessado em vivenciar a azáfama dessa época festiva – que em 2016 acontece entre 20 e 27 de março – pode fazer a rota durante o resto do ano com a vantagem de poder conhecer tranquilamente a história de um território onde se formaram algumas das primeiras civilizações europeias, onde prosperou a cultura sefardita e a islâmica, que viu romanos abrirem estradas e construírem villas ou batalhas sangrentas entre cristãos e muçulmanos.

Começar por Carmona é entrar de mansinho no coração desta região espanhola. Além de ser a cidade da rota mais próxima do aeroporto de Sevilha (a 20 minutos), é também a mais alta de Los Alcores. Como ponto estratégico, foi ocupado desde a pré-história e durante a época romana era a cidade mais segura da Bética. Não será por acaso que foi designada por Fernando III, aquando da conquista cristã aos muçulmanos, século XIII, como o «lucero («estrela brilhante») da Europa».

Aqui, pode começar a contar-se a história da Península Ibérica. História inscrita nas pedras que ao longo dos séculos construíram e reconstruíram o Alcázar de la Puerta de Sevilla, fortaleza que serviu para defender as populações que habitaram a zona desde o século IX a.C. No Alcázar, funciona o posto de turismo e uma exposição permanente. Da torre de menagem vê-se a cidade, mas também muito para lá desta. Perscruta-se já a Sierra Sur, a este, por onde se segue até ao próximo destino.

Carmona é a cidade mais próxima do aeroporto de Sevilha. É aqui que existe uma fortaleza que defendeu as populações que aqui se fixaram desde o século IX a.C.

A caminho da aristocrática Osuna, o solo, que à saída de Carmona é de tons negros, torna-se castanho e as raras oliveiras são a partir de agora a paisagem mais comum. Ainda na província de Sevilha, Osuna é, tal como Carmona, uma típica cidade andaluza, com edifícios claros e pátios árabes. Sendo uma vila ducal, não faltam casas senhoriais, em ruas exuberantes como a calle San Pedro, onde se concentram pomposos edifícios barrocos, como o Hotel Marqués de la Gomera. No ano passado, ficou aqui instalada a equipa da série de TV Game of Thrones, que escolheu a Praça de Touros de Osuna para servir de Arena de Daznak, da imaginária cidade de Meereen.

Toda a cidade é fotogénica, sejam as renascentistas Colegiata e Universidade, dois ex-líbris do município, seja o centenário Casino, onde a alta sociedade se reunia no século XIX. Hoje, continua a ser para sócios mas qualquer visitante pode aproveitar para beber ou tapear algo nas suas salas de estar. Num dos quatro conventos da terra, o de la Concepción, de clausura, confecionam-se os bizcochos marroquíes, que para ali se mudaram o ano passado, depois do Convento de las Marroquíes de Écija, onde eram feitos, ter encerrado. Uma irmã, atrás de um balcão fechado a grades, prepara as caixas com os bolos para venda. Ao deparar-se com portugueses, explica com entusiasmo que a fundadora da congregação a que pertence (Imaculada Conceição), Beatriz da Silva, era portuguesa, de Campo Maior.

A caminho da próxima paragem, já na província de Córdova, justifica-se uma paragem nas Bodegas Delgado, em Puente Genil, onde se produz os famosos vinhos da região demarcada de Montilla-Moriles : o vino fino e o Pedro Ximénez. Em visita guiada fica a conhecer-se o processo de produção e pode provar- se este vinho generoso. Na mesma região demarcada está Lucena, cidade original, dentro da rota, por ter grande influência sefardita e onde recentemente foi encontrada uma necrópole judaica do século XI. Entre o século IX e XII foi das poucas cidades maioritariamente hebraicas neste território.

Não tão exuberante como outros sítios dos Caminos, Cabra tem um cunho rural e próximo da natureza, não estivesse em plena Sierra Subbética. O aroma a pasta de azeitona que se sente nas ruas lembra que é grande a produção de azeite na zona. É sítio para se comer bem, principalmente as tapas onde o azeite é essencial, como o salmorejo cordobés, creme denso à base de tomate, alho e pão. Este e outros petiscos podem pedir-se na Mesón La Casilla, um dos restaurantes aderentes da rota, que durante todo o ano serve a comida tradicional da Quaresma e da Semana Santa.

O aroma a azeitona vai ficando cada vez mais forte à medida que se caminha para Baena. O orgulho por este produto aqui é grande.

O aroma da azeitona vai ficando cada vez mais forte à medida que se caminha para Baena, a nordeste de Cabra. Nesta terra de denominación de origen para produção de azeite, destaca-se a Almazara Núñez de Prado, lagar de azeite biológico. É Don Francisco Nuñez de Prado, aristocrata e proprietário, que orienta as visitas, coisa que faz com humor fresco e energia rara. O orgulho neste produto é tão grande em Baena como em Priego de Córdoba, a zona de denominación de origen onde se produzem os mais premiados azeites do mundo. Nesta última paragem da província de Córdova há um magnífico bairro da época do Al-Andalus, labiríntico, de ruas estreias, casas brancas, pátios e janelas decoradas com muitas flores. É limitado pelo adarve, varanda natural de onde se vê a Sierra Subbética. Fora do Barrio de la Villa, a cidade está repleta de fontes, como a Fuente del Rey, muitos jardins e arquitetura religiosa, destacando-se a Iglesia de la Asunción, considerada uma obra-prima do barroco andaluz.

Alcalá la Real é a última paragem dos Caminos de Pasión. Estamos já na província de Jaén. A Fortaleza de la Mota, um conjunto monumental instalado a 1000 metros de altitude, é um dos mais surpreendentes pontos da rota. Tem vestígios da ocupação árabe e cristã e muitas histórias para contar. Antes da subida, para ganhar forças, recomenda-se uma paragem no Aguardentero, taberna familiar onde se bebe manzanillas, vermutes e aguardentes caseiras. Para não destoar da tradição.


Ficar

Casa Baños de la Villa
No antigo bairro árabe de Priego de Córdoba, o hotel dispõe de piscina interior e serviço de banho turco. Os quartos distinguem-se pelas suas cores e pela decoração.Calle Real, 63 14800, Priego de Córdoba (Córdoba)
Tel.: (+34) 957547274
Preço: a partir de 93 euros (quarto duplo com pequeno-almoço e sessão de banhos árabes)

Hotel Palácio Marqués de la Gomera
Palacete com um pátio ao estilo árabe enquadra-se na exuberância barroca de Osuna.
Calle San Pedro, 20, Osuna
Tel.: (+34) 954812223
Preço: a partir de 70 euros (quarto duplo sem pequeno-almoço)

Comer

El Balcón del Adarve
Restaurante de comida tradicional onde é possível fazer provas do azeite de Priego de Córdoba, premiado como o melhor azeite do mundo.
Paseo de Colombia, 36, Priego de Córdoba
Tel.: (+34) 957547075
Preço médio: 30 euros

Mesón la Casilla
Calle Martín Belda, 14, Cabra
Tel.: (+34) 957 52 33 33
Das 12h00 às 17h30 e das 20h30 às 24h00
Preço médio: 20 euros

El Aguardentero
José Martín Vela produz a famosa manzanilla (maçã concentrada misturada com água quente e anis), vermutes artesanais e aguardentes de cereja e de ervas.
Plaza del Ayuntamento, Alcalá la Real
Das 08h00 às 17h00. Fecha domingo.

Visitar

Alcázar de la Puerta de Sevilla 
Carmona
Tel.: (+34) 954190955
De segunda a sábado das 10h00 às 18h00.
Domingo das 10h00 às 15h00
Preço: 3 euros

Colegiata
Este importante edifício «plateresco», estilo próprio da Renascença espanhola, a Colegiata alberga obras de conhecidos artistas espanhóis de arte sacra.
Plaza de la Encarnación, 4, Osuna
Tel.: (+34) 954810444
Das 10h00 às 13h30 e das 15h30 às 18h30
Preço: 3 euros

Bodegas Delgado
Calle del Cosano, 2, Puente Genil
Tel.: (+34) 957 60 00 85

Villa Romana de Fuente Álamo
Os vários mosaicos romanos desta villa do século I d.C. dão a conhecer a história da «Bética». O sítio arqueológico é complementado com um centro interpretativo.
CV-297, 45A, Puente Genil
Tel.: (+34) 957605034 Preço: 3 euros

Almazara Núñez de Prado
Av. Cervantes, 5, Baena
(+34) 957670141 . Entrada gratuitas

Museu Arqueológico de Baena 
Calle Santo Domingo Henares, 5, Baena
Tel.: (+34) 957671757
De terça a quinta e domingo, das 10h30 à 13h30; sexta, sábados das 10h30 às 13h30 e das 17h00 às 19h00

Texto de Luísa Marinho - Fotografias de Diana Quintela/Global Imagens