Até há pouco mais de uma década, Teresa viveu em trânsito entre dois continentes. Levava uma vida de filme, mas num piscar de olhos trocou as festas e o glamour pela vida com as tribos que já conheceu.

Teresa Barros tinha 9 meses quando os pais deixaram Portugal para se fixarem na Inglaterra. Aos 2 anos, fez a primeira grande viagem de que tem memória: foi com a família a Moçambique, terra natal da mãe, e ainda se lembra da geladaria onde a levaram em Lourenço Marques. As outras recordações de infância são de Manchester, onde a família ficou seis anos, até ao 25 de Abril de 1974 em Portugal. «O meu pai tinha acabado de estudar durante dez anos, terminou o doutoramento e não queria vir para um país caótico.» Porque o Canadá era um dos poucos Estados abertos à imigração e a língua não era problema, deixaram solo britânico e partiram para Toronto.

«Não acredito em vidas passadas, mas se existirem, eu acho que fui Índia.»

«Os meus pais sempre incentivaram as viagens, acreditavam mais crescíamos», admite. Por isso, além das deslocações anuais que fazia a Portugal, para não perder as ligações familiares, começou cedo na descoberta do mundo e nunca escondeu que privilegiava as viagens que a levavam para o meio da natureza. Com o pai, habituou‑ se a acampar. Ainda adolescente, no Canadá, aprendeu que era preciso pendurar a comida nas árvores para não atrair animais. «Mas o meu pai é guloso e levava sempre um queijo da serra ou de Azeitão para comer nos acampamentos.» Uma noite, foi preciso que o pai se metesse numa canoa e atravessasse um lago, largando na água o queijo que estava a deixar os ursos nas redondezas a salivar. Teresa não se amedrontou. «A única coisa que me faz impressão são os insetos da cidade», revela a rir.

Antes de acabar o ensino secundário, os pais decidiram regressar a Portugal e propuseram‑lhe que passasse um ano numa escola privada canadiana no Sul de França, em Saint‑Jean‑Cap‑Ferrrat, para se adaptar à vida europeia. Aceitou e teve um «ano surreal»: vivia com famílias francesas, passava fins de semana no Mónaco e ia muitas vezes dançar ao bar frequentado pela princesa Carolina. «Não me podia sentar, porque se me sentasse tinha de beber alguma coisa e o mais barato no menu era uma garrafa de vinho que agora devia custar uns 300 euros.» Foi convidada para ir ao festival de Sanremo, Itália, e acabou numa festa privada no casino com as bandas na berra da altura, dos Def Leppard aos INXS.

«Não acredito em vidas passadas, mas se existirem, eu acho que fui Índia.»

Depois desse ano de glamour, mudou‑se para Portugal mas aguentou pouco tempo. Licenciou‑se no Canadá em Comunicação Social e as cadeiras opcionais fê‑las de Antropologia – só não foi antropóloga porque achou que era uma profissão difícil para «ganhar a vida». Durante os anos de faculdade, tornou‑se ativista pela conservação do meio ambiente e, aproveitando a ligação ao jornalismo, criou um programa que era difundido no canal regional da cidade de Otava.

Chamava‑se Views for a Better Tomorrow e permitiu‑lhe entrevistar um índio da tribo dos ianomâmis, que vive na Amazónia, na fronteira do Brasil com a Venezuela. Esse índio estava no Canadá com o estatuto de refugiado: dizia‑se perseguido por Collor de Mello, porque o presidente brasileiro queria atravessar na floresta tropical uma estrada de alcatrão, junto à aldeia da tribo, e ele tudo fizera para o impedir. Foi através dele que, mais tarde, conseguiu pela primeira vez passar alguns dias a viver na Amazónia com os próprios ianomâmis. Dormia no chão, numa cabana, comeu à base de vegetais e ficou fascinada com o conhecimento da tribo em medicina natural.

Repetiu a experiência anos depois, já na Indonésia: passou uma semana com os mentawai, uma tribo que habita nas ilhas com o mesmo nome, a mais de cem quilómetros da costa de Sumatra. Nessa altura, já trocara o esqui – que praticava assiduamente no Canadá – pelo surf e vivia perto de Lisboa. Um amigo português, que largara tudo para ir para a Indonésia fazer viagens de surf, quis proporcionar‑ lhe a experiência, mas Teresa tinha vontade de conhecer a cultura local mais do que apanhar ondas. Através de um antropólogo, pôs‑ se em contacto com os índios.

«Dormia no chão, comeu só vegetais e ficou fascinada com a medicina natural.»

Aos mentawai fez a promessa de ajudar a divulgar os seus ritos e costumes, ameaçados pelos missionários muçulmanos enviados pelo governo indonésio, que queriam mostrar‑lhes o caminho de Alá. «Como nós fizemos também», desabafa, recordando a evangelização em nome da fé cristã. Aprendeu algumas palavras do dialeto da tribo, foi ensinada pelas mulheres a ir à pesca e explicaram‑lhe como fazer veneno. Viveu em casas construídas sobre estacas de madeira e apurou o ouvido, para distinguir os sons dos animas. «O xamã teve uma paixão por mim porque sou meio ruiva e ele nunca tinha visto, achava‑me linda», recorda a sorrir. E se inicialmente precisava da tradução de um guia, ao fim de pouco tempo já comunicava com a tribo por gestos e olhares. «Não acredito necessariamente em vidas passadas , mas se existirem, eu acho que fui índia», confessa. «Se existe Deus, eu sinto‑ o na natureza».

Antes da Indonésia já estivera na Costa Rica, onde assistiu de madrugada à desova das tartarugas e avistou um lagarto raríssimo que nem os cientistas da National Geographic, que lá tinham estado um mês à espera, conseguiram fotografar. Já foi à Índia, ao Nepal, ao Sri Lanka, jantou num restaurante no deserto da Namíbia e dormiu em tendas na selva do Botswana, a ouvir os rugidos dos leões. As aventuras de Teresa são inesgotáveis e as histórias para contar sucedem‑ se. Para viajar, só tem uma condição: ir acompanhada. Porque há momentos que são demasiado especiais para viver sozinha, e não consegue imaginar como seria não ter ninguém com quem os reviver depois.

Texto de Bárbara Cruz