Vamos começar por desfazer o mito de que os espanhóis não percebem o nosso idioma – os extremenhos percebem e muitos até o falam. Neste «Alentejo» do outro lado da fronteira, um português fica consolado de hospitalidade, boa comida, bom vinho e cidades carregadas de encantos e surpresas.

Boa mesa, bom vinho, bom vento. Podia ser Alentejo, mas não é: Olivença, Cáceres e Mérida são as escalas do nosso roteiro pela Extremadura.

É uma transição suave da planície alentejana para o outro lado da fronteira, onde os campos são os mesmos, amplos e de curvas brandas, e quase nada além das placas na estrada nos indica que estamos em Espanha. Passando Elvas, está Badajoz à vista, e, a pouco mais de 10 km da fronteira, Olivença. Pequena, graciosa e caiada, será a primeira paragem de uma visita a cidades com encantos distintos, mas que, no seu conjunto, mostram bem como pode a Extremadura espanhola consolar um visitante português.

Nela habita um povo que acolhe com grande gentileza os seus vizinhos ibéricos, encontra-se um património gracioso e autêntico. Por último mas não em último, experimenta-se uma gastronomia conservadora no bom sentido, que – mesmo acompanhando as tendências da cozinha experimental, restaurantes empenhados em criar reputação e aposta na alta qualidade dos vinhos – defende com unhas e dentes os seus produtos tradicionais, exibindo com igual orgulho o seu caro presunto de porco preto como o seu pimentão curado ao fumo, um ingrediente comum e barato da cozinha extremenha.

Olivença e a sua encantadora identidade híbrida espanhola e portuguesa é a primeira paragem de um circuito que pode estender-se, dependendo do vagar ou da sofreguidão do visitante. A Evasões demorou-se uma tríade de dias entre os campos de Badajoz e as ruínas romanas de Mérida, passando por Olivença e pela impressionante Cáceres medieval. De um lugar ao outro, enche-se a barriga de paisagens tranquilas e cativantes, de convívio atencioso com os locais, de património interessante e ainda, claro está, de refeições memoráveis, envolvendo os soberbos enchidos e queijos e os surpreendentes vinhos extremenhos. Para um português ensinado desde a infância a saber o que é bem comer e beber, é preciso dar o braço a torcer à Extremadura.
Convém, na partida, considerar que para lá da fronteira vigora a pausa da sesta e que se almoça e janta um par de horas mais tarde, com a atenuante da diferença horária.

De um lugar ao outro, enche-se a barriga de paisagens tranquilas e cativantes, de convívio atencioso com os locais e de património interessante.

É tentador estrear uma visita a Olivença sem levar na mente que a cidade já foi portuguesa e que há quem reclame que, nestes 214 anos que leva como espanhola, devia ter continuado a sê-lo. Pelas suas ruas e praças, nada transpira esse dilema político, apenas a serenidade com que os oliventinos – com os mais velhos deles a falarem ainda português – vivem a sua identidade simbiótica. Essa portugalidade aguça o prazer de passear pela cidade, com as placas das ruas a contar por si só muitas histórias, ostentando o nome espanhol e o antigo nome português ao mesmo tempo. A inserção das construções medievais – torreões, igrejas, muralhas – nas comuns casas da cidade que foi deixando de ser defensiva é outro aspeto peculiar de Olivença. E, na pausa para almoço, a singeleza oliventina esconde surpresas: um hotel que ocupa um antigo palácio, o de Arteaga, serve no seu restaurante um menu de degustação de preço mais do que razoável (25 euros/pessoa), incluindo bons vinhos extremenhos, que pode fazer ponderar um regresso.

Situada a um par de horas de Olivença, Cáceres é, na verdade, um par de cidades numa só. Temos a Cáceres medieval cujo impressionante estado de conservação lhe valeu a classificação de Património da Humanidade há precisamente 30 anos, o que faz de 2016 um ano de festa. Ao lado, em redor da larga e movimentada Avenida de Espanha, alinha-se uma cidade moderna e bem espanhola: com um comércio de rua buliçoso e muita gente a passear. Cáceres passa de uma festa para a outra: em 2015, foi capital espanhola da gastronomia, pelo que «degustação » paira ainda como palavra do ano. Embora seja uma palavra sem novidade na cidade onde brilham as duas estrelas Michelin do restaurante Atrio, de Toño Pérez, e o carisma daquele que dizem terá a estrela que se segue: Benjamim Caballero no seu Botein.

Mas como se almoça tarde, vamos primeiro percorrer o centro histórico de Cáceres, nove hectares de construções por onde passou a mão árabe, cristã e romana. Tal é a riqueza de detalhes que vale a pena fazer uma visita guiada. Muita história está na cara da cidade, como por exemplo as várias vidas das casas que foram passando de castelos defensivos para moradias, depois da Reconquista Cristã. Por isso, existem em Cáceres casas com ameias como telhado e varandins na fachada, explica-nos Marco Mangut, da Associação Profissional de Guias Turísticos de Cáceres.

Uma dessas casas é um dos museus mais recentes da cidade, o Palácio de Los Golfines de Abajo, construído há cerca de 500 anos e que albergou os reis católicos, Fernando e Isabel nas suas duas visitas a Cáceres. Desde o verão que se podem visitar oito áreas ricamente decorada. E se pode haver interiores ricos, já os exteriores raramente o são. «Cáceres conseguiu conservar sem grandes alterações o que estava dentro das muralhas, não porque dantes havia essa consciência, mas porque era uma cidade pobre e esteve isolada durante muitos anos», explica o guia Marco Mangut, apontando em vários lugares um expediente urbanístico comum: reaproveitar o máximo da obra da anterior ocupação.

Cáceres conservou o seu centro histórico, Património da Humanidade, porque era uma cidade pobre e porque esteve isolada durante muitos anos.

Um dos exemplos mais interessantes dessa conservação utilitária fica no Museu de Cáceres, no edifício dedicado à arqueologia. Foi sempre chamado de aljibe (cisterna) hispano-árabe, porém uma investigação recente da Universidade de Cáceres concluiu que aquele espaço mais provavelmente teria sido a mesquita do Alcazar (fortaleza) árabe, que foi depois adaptada a cisterna pelos cristãos. As colunas já eram «recicladas» – são antigos marcos miliários romanos tornados pilares. Se for ao Museu de Cáceres, não deixe de fazer um par de outras coisas: visitar as demais valências do museu (Etnografia e Belas Artes, este último com obras de Picasso e Miró), em edifícios contíguos e passear no bairro popular de Santo António, antigo bairro judeu, no qual se encontra embutido. É também nessa banda que pode parar para petiscar no encantador Los Siete Jardines, um café-galeria de arte, com um soberbo pátio relvado de onde se vê a periferia verde da cidade.

De Cáceres, chega-se a Mérida numa hora, para entrar numa cidade aparentemente banal que há de revelar, sem aviso prévio, o seu fator «uau», presente no imponente aqueduto placidamente sobranceiro a um parque verde. Fica-se de cabeça no ar e boca aberta perante os arcos daquele a que o povo chama Aqueduto dos Milagres, por ter sobrevivido a dois terramotos – o de 1531 e o de 1755 (o mesmo que arrasou Lisboa). É preciso que nos habituemos rapidamente a ser espantados por Mérida, a cidade com mais vestígios romanos por quilómetro quadrado fora de Itália, indo dali até à mais comprida ponte romana sobrevivente no mundo, com quase 800 metros, sobre o rio Guadiana.

O conjunto arqueológico de Mérida é Património da Humanidade desde 1993 e, em qualquer rua, pode ser-se surpreendido com um antigo balneário, as ruínas de uma casa, o templo de Diana. Mérida foi fundada pelo imperador Octavio Augusto, que nela ofereceu residência aos legionários reformados – os Eméritos. Emérita Augusta era o seu nome e chegou a ser uma cidade importante, capital da Lusitânia. Com o fim do império romano, a cidade encolheu e deixou de fora, a servir de lixeira durante séculos, dois dos seus tesouros mais valiosos hoje em dia: o anfiteatro e o teatro, junto aos quais foi construído de raiz o Museu Nacional de Arte Romana, de visita incontornável.

Esse conjunto de espetáculos é de visita acessível, pela informação que surge a cada passo, contextualizando as ruínas. Uma sugestão: comece por percorrer o anfiteatro, no qual a cantora Montserrat Caballé deu, em 1990, uma queda memorável, jurando depois disso nunca mais regressar a Mérida. Contornando esse recinto, prepare-se para soltar outro uau – o impressionante teatro surge diante dos olhos como uma visão de outro mundo. Esteve séculos debaixo de lixo até começar a ser escavado em 1910, revelando ao mundo uma maravilha da arquitetura romana. Mérida arranca 2016 como Capital Ibero-Americana da Cultura Gastronómica, o que é apenas mais um – bom – pretexto para planear uma visita aos simpáticos vizinhos extremenhos.


GUIA

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Arte do presente na cidade do passado
Quando se conhece Maria de Jesus Ávila, coordenadora do Centro de Artes Visuais Helga de Alvear, duvida-se se é uma portuguesa a viver em Espanha há muitos anos. Maria de Jesus fala português com sotaque espanhol e conhece bem Lisboa – esta investigadora, professora e muitas vezes comissária de exposições e produções de arte contemporânea foi conservadora do Museu do Chiado e da Culturgest durante 14 anos, até 2008, até se dedicar à gestão da coleção de arte contemporânea da Fundação Helga de Alvear – , mas é uma alemã radicada em Espanha. É ainda uma das mais conceituadas galeristas do país que depositou em Cáceres as suas 2300 obras, entre elas muitas de artistas portugueses. A exposição patente agora – «…Y el tiempo se hizo [e o tempo se fez]», é comissariada por Maria de Jesus Ávila. O Centro abriu em 2010 para dar outra face à cidade, instalando-se num palacete adaptado a museu pela dupla de arquitetos Emilio Tuñon e Luis Mansilla.

Centro de Artes Visuais
Fundação Helga de Alvear, Calle Pizarro, 8, Cáceres
Tel.: +34927626414. Web: fundacionhelgadealvear.es
Horário: terça a sábado, das 10h00 às 14h00 e das 17h00 às 22h00; domingo até às 14h30.
Entrada gratuita

Comer

Estrelas extremenhas
Toño Pérez e Benjamim Caballero têm em comum serem ambos de Cáceres, ambos cozinheiros por pura vocação, uma paixão pela comida alentejana e uma militância na utilização dos produtos extremenhos. O restaurante Atrio de Toño Perez, com duas estrelas Michelin, merece uma visita além da comida do chef, que define o seu trabalho como «uma cozinha pessoal, emocional, baseada no conceito enraizado da cozinha extremenha». Tem uma impressionante garrafeira com 35 mil garrafas, com vinhos que são documentos históricos e o rótulo mais antigo com data de 1806. O Atrio começou por ser um restaurante de cozinha regional, há 30 anos, até se ter instalado no centro histórico, num edifício antigo reabilitado, onde também funciona um hotel de luxo, de sofisticado minimalismo.
Benjamim, apontado por muitos como a estrela Michelin que se segue, também planeia estrear-se na hotelaria. Tal como Toño Perez, com o qual fez parte da sua formação, é conservador na sua devoção aos ingredientes tradicionais extremenhos, e o menu de degustação no seu bonito restaurante começa com a sopa de tomate da mãe, feita com base de estrugido, pimento seco e pimentão doce seco ao fumo. «Sou um cozinheiro que faz comida de memória e para a memória, valorizo muito os sabores da minha infância», refere.

Atrio
Plaza de San Mateo, 1, Cáceres
Tel.: +34927242928. Web: restauranteatrio.com
Preço: menu seleção de pratos clássicos 109 euros
(sem bebidas)

Botein
Calle Madre Isabel Larrañaga, Cáceres
Tel.: +34927840240. Web: botein.es
Preço médio: 45 euros, sem vinho

Ficar

Hotel Palacio Arteaga
Calle del Moreno Nieto, 5, Olivença
Tel.: +34924491129
14h00 às 16h00 e das 20h30 às 23h30 (restaurante)
Web: palacioarteaga.es
Preços: alojamento em quarto duplo com pequeno-almoço – 55 euros; almoço degustação – 25 euros/pessoa, com bebidas; almoço “tapeo” (petiscos): 15 euros/pessoa, sem bebidas

NH Palacio de Oquendo
Plaza San Juan, 11, Cáceres
Tel.: +34927215800
Web: nh-hoteles.es
Preço: quarto duplo a partir de 200 euros, sem pequeno-almoço

Visitar +

Finca de los Fresnos
Valverde de Leganés, Badajoz
Tel.: +34655 487774
Web: turismo.badajoz.es

Palácio de los Golfines de Abajo
Plaza de los Golfines, Cáceres
Tel.: +34927255765
Horário: terça a domigo, das 10h00 às 14h00
e das 16h00 às 19h00
Preço: 2 euros

Museu de Cáceres
Coleções de Arqueologia, Etnografia e Belas Artes
Plaza de las Veletes, 1, Cáceres
Tel.: +34927010877
Horário: terça a sábado das 09h00 às 14h30 e das
16h00 às 19h15, domingo das 10h15 às 14h30
Web: museudecaceres.gobex.es
Preço: Grátis para cidadãos da União Europeia

Visitas guiadas a Cáceres Asociación Profesional de Guías Turísticos de Cáceres
Plaza Mayor, 2
Tel.: +34 927217237
Web: facebook.com/asociacionguiasturismocaceres
Visitas: com a duração máxima de duas horas,
todos os dias às 11h00, 12h30, 17h00 (inverno)
e 18h00 (verão), exceto domingo à tarde
Preço: 6 euros/pessoa

Cuenta Trovas de Cordel
“Juglar por la noche”: passeio teatralizado pelo centro
Plaza Mayor, 29 – 1º
Tel.: +34 667776205 Web: cuentatrovas.com
Preço: 10 euros por pessoa (só para adultos)

Conjunto Monumental de Mérida
Várias localizações na cidade
Entrada conjunta em todos os recintos, à venda em
qualquer um deles: 12 euros (válido para vários dias)
Web: consorciomerida.org Horários: recinto do
teatro e anfiteatro todos os dias das 9h30 às 18h30

Museu Nacional de Arte Romana
Calle José Ramon Mélida, Mérida
Web: museuarteromano.mcu.es
Horário: terça a sábado das 09h30 às 18h30,
domingo das 10h00 às 15h00. Entrada gratuita

Texto de Dora Mota - Fotografias Diana Quintela/Global Imagens