A atriz portuguesa Vera Kolodzig surpreendeu-se em Madagáscar. Descobriu a ilha com o também ator Diogo Amaral que trouxe as fotografias de uma viagem que ambos não esquecem. E onde se sentiram perdidos.

Tenho uma pequena obsessão por mapas. Preciso de saber sempre onde estou e qual a relação entre os locais. Nas viagens de avião vou sempre atenta ao indicador no pequeno ecrã. Dá-me uma certa segurança saber onde estou. Gosto de me perder por ruas desconhecidas, mas gosto sempre de saber em que zona. Ou, no mínimo, saber em que cidade estou e em que parte do país fica essa cidade. A primeira vez que me senti realmente perdida foi em Madagáscar. Ainda hoje não faço ideia de onde estava, porque a pequena localidade de An- tsikaraka não aparece em nenhum mapa. Estava mesmo no meio de lugar nenhum. Algures ao longo do rio Tsirihibina.

Tinha chegado a Madagáscar há pouco tempo, depois de um mês com os dias contados em Moçambique. Os vistos para portugueses são cada vez mais difíceis de obter especialmente para viajantes sem hotel marcado. Exceder o prazo do visto estava completamente fora de questão, por isso o Diogo e eu esprememos, nos trinta dias a que tínhamos direito, três mil quilómetros de estradas esburacadas num velho SUV emprestado por uma familiar que vivia em Maputo.

A primeira impressão que tive quando cheguei a Antananarivo (palavra que me parece sempre ter uma sílaba a mais) foi a de que tinha acabado de chegar a um pedaço de América Latina africana. Quase como a sensação que tive quando cheguei às Filipinas: a de que tinha aterrado numa América Latina asiática. A verdade é que não conheço a América Latina, mas o meu imaginário de telenovelas venezuelanas e pinturas da Frida Kahlo é suficiente para me criar sensações.

«A primeira vez que me senti perdida foi em Madagáscar. Estava no meio de lugar nenhum. Algures ao longo do rio Tsirihibina.»

Antananarivo é a capital e é, também, a maior cidade desta ilha do oceano Índico. Foi fundada em 1600 e construída no cimo de doze colinas. É uma mistura de casas de madeira, edifícios da era colonial francesa e escritórios modernos. Dos pontos de interesse destaca-se o Rova, o palácio no ponto mais alto da cidade que serviu de residência a vários reis. Sofreu um incêndio em 1995 que destruiu todo o património no interior, sobrando apenas a estrutura de pedra e os túmulos dos maiores monarcas. Ainda assim vale a pena visitar, tanto pela vista sobre a cidade como pelo cenário fantasmagórico. Senti que podia ali ser filmada qualquer uma dessas séries de vampiros.

Depois da visita ao palácio perdemo-nos nos bairros circundantes entre escadas íngremes e letras gigantes à Hollywood. Outro local a não perder é o Anosy, um lago artificial em forma de coração no sul da cidade. Nas margens há barracas de barbeiros locais desprovidas de máquinas de barbear – as tesouras mais parecem instrumentos de tortura.

No segundo dia de viagem apanhámos um taxi-brousse (um autocarro local) para Antsirabe, com o objetivo de planear a descida do rio Tsiribihina. Numa carrinha de nove lugares cabem dezasseis pessoas, e nem a compra de quatro lugares para dois me deixou mais confortável. Organizada a descida do rio com um guia local, apanhámos mais um taxi-brousse que foi um verdadeiro teste à minha paciência. Demorámos sete horas e meia a fazer 200 quilómetros, primeiro porque queimou a embraiagem, depois porque ficámos sem travões e, como se não bastasse, iam saltando peças não sei bem de onde. As pessoas entravam e saíam mesmo quando parecia que não cabia mais ninguém – mulheres com bebés, velhos com cestos de galinhas (vivas) e homens com espingardas na mão. Na chegada a Miandrivazzo pude finalmente descansar no prometido «quarto com casa de banho» – uma retrete sem tampo a um palmo da cama.

A descida do rio Tsiribihina incluía o barqueiro, a tenda e as refeições. Senti-me uma verdadeira Pocahontas quando me sentei na piroga. A embarcação não passava de um tronco cravado mas surpreendentemente estável. Com a água a dois dedos do topo da madeira, a relação com o rio acastanhado cheio de crocodilos no fundo tornava-se demasiado próxima. Parámos duas noites ao longo da margem. A primeira numa pequena comunidade, a segunda num ilhéu deserto. Foi aí que assisti à morte da nossa companheira de viagem Clotilde, uma galinha magra que saboreei ao jantar com uma certa amargura. A viagem pelo rio é relaxante e ao mesmo tempo esmagadora. As paisagens são arrebatadoras, os sons muito intensos.

«É o país mais selvagem em que já estive. Em muitos momentos, senti-me engolida pela natureza.»

Senti-me dentro de uma pintura e, por momentos, acreditei que éramos as únicas pessoas no planeta. Deslizávamos tranquilamente ao ritmo da corrente fraca e íamos passando por florestas deslumbrantes, bandos de pássaros coloridos e montanhas a perder de vista. Tirei uma fotografia a um habitante da margem que chorou quando viu a sua imagem porque percebeu que estava velho. Antes de desembarcar vi o tão esperado crocodilo. Descobri mais tarde que já não há assim tantos porque os matam para vender. Essa informação, apesar de triste, tinha-me poupado alguns medos durante estes três dias. Foi assim que chegámos a Antsikaraka, a vila no meio de lugar nenhum, levados num carro de bois depois da descida do rio.

Madagáscar é o país mais selvagem em que já estive. Em muitos momentos senti-me engolida pela natureza. Noventa por cento das espécies de animais e plantas da ilha não se desenvolveram em mais nenhum sítio do mundo. Há setenta espécies de lémures e seis espécies de embondeiros exclusivos da ilha. Aliás, ver lémures e embondeiros era o nosso objetivo de viagem. Uma das espécies de embondeiros que vimos tem a capacidade de regenerar os seus troncos quando caem. Outra é a presente na Avenue du Baobab, em Morondava – imagem típica e cartão-postal do país. Esta avenida é composta por cerca de 25 árvores com trinta metros de altura numa estrada de terra que foi em tempos uma floresta. Alugámos uma moto de quatro rodas (ou melhor, pedimos emprestada aos donos de um café em troca de algum dinheiro) para passear para trás e para a frente nesta avenida até ao pôr do Sol, a hora mágica em que as cores ficam mais intensas.

O meu primeiro encontro com um lémure foi num bungalow na praia de Ifaty. Senti a parede de bambu a estremecer e vi um pequeno bicho cinzento com os olhos vermelhos a fugir. Lido bem com baratas, mosquitos e outros bichos do género, mas só a ideia de um rato causa-me ataques de ansiedade ao estilo de Paris Hilton. Só no dia seguinte um funcionário do resort disse que se tratava de um lémure noturno. Até então para mim os lémures eram animais com a cauda comprida às riscas e sentido de humor, como no filme de animação. Essa espécie mais «típica» só vi no parque natural de Isalo.

Madagáscar é um país cheio de surpresas. Não é propriamente fácil fazer uma viagem independente e foi por isso que se tornou tão especial. Adoro desafios e aventuras. Os turistas com quem nos cruzámos tinham todos um roteiro estudado e organizado e a única rapariga que encontrámos a viajar sozinha estava em pânico porque não encontrou o espírito backpacker de que estava à espera. É preciso ter muita paciência porque as infraestruturas são muito básicas.

Para evitar mais uma jornada de taxi- -brousse decidimos alugar um jipe com motorista (porque não podia ser de outra forma) para viajar entre Morondava e Ifaty numa estrada que estava fechada naquela altura do ano. Sabia que a estrada era má, não sabia que era inexistente. Demorámos dois dias, da madrugada ao cair do Sol, a percorrer cerca de 450 quilómetros de mato denso que incluiu uma praga de gafanhotos e longas horas atolados num rio. Mais uma vez não fazia ideia onde estava no mapa. E continuo a não fazer ideia de onde surgiram os habitantes que nos ajudaram a tirar o jipe do rio.

Quando viajo gosto de viver ao máximo a vida local e em Madagáscar as experiências não podiam ter sido mais genuínas. Numa noite, depois de alguns copos de rum barato, acabámos numa festa familiar da circuncisão. O ritual inclui o sacrifício de galinhas, patos ou bois. Agora que não como carne talvez fosse mais difícil lidar com isto. Houve muita comida, bebida e dança até ao nascer do dia, hora em que foi feita a «operação». Segundo a tradição só assim é que os rapazes se tornam verdadeiros homens. Não fomos convidados mas fomos muito bem recebidos.

Madagáscar é um país único, um autêntico caleidoscópio de natureza. Foi aqui que me encontrei por finalmente me ter sentido realmente perdida.

Senhora do tempo sem fim
Atriz, jovem, aventureira, mãe recente, Vera Kolodzig foi protagonista da telenovela da TVI Jardins Proibidos. Estreou-se no teatro em Confissões de Adolescentes e participou em peças como A Dama do Maxim, Os 39 Degraus ou Consegues Ver os Teus Pés?, entre outras. Fez também dobragens de filmes de animação como Happy Feet ou Cars, participou em curtas-metragens como Romeu & Julieta ou The Blind Voyeur. Entre os seus mais recentes trabalhos televisivos destacam-se as telenovelas Doida por Ti e Espírito Indomável. Depois de uma viagem de quase quatro meses pela Ásia e Oceânia assinou a coautoria de Nós por Aí, livro em que revela a sua paixão por viagens e conta como é viajar de mochila às costas. Recentemente viajou com a família pela costa californiana com relatos semanais no jornal i e fotográfico na Vogue. A atriz foi escolhida pel’O Boticário para ser a nova cara da campanha de Natal da marca. Na edição janeiro 2016 da Volta ao Mundo recorda a sua passagem por Madagáscar com Diogo Amaral, autor das fotografias publicadas neste Ponto de Vista.

Texto de Vera Kolodzig - Fotografias de Diogo Amaral e Direitos Reservados