Tem estado um inverno ameno, mas há neve na serra e tudo o mais que nos atrai nela.

Quem entra no Parque Natural por Gouveia, percorre a Estrada Nacional 232, um início de subida em que, na paisagem, sobressaem pinheiros e carvalhos. E passa-se pelo Sabugueiro, a última povoação antes de se chegar ao ponto mais alto da serra, onde se pode fazer uma paragem de abastecimento. Na Rua do Comércio, onde porta sim, porta sim se vende queijo tradicional, enchidos da serra, gorros, casacos de pele, botas para a neve e cães serra-da-estrela, encontra-se o Abrigo da Montanha, que depois de dois anos em obras passou, em novembro passado, de hospedaria a hotel e spa de quatro estrelas.

O restaurante do hotel, uma referência na zona, manteve porém na carta os seus pratos tradicionais, como o arroz de carqueja com enchidos ou o cabrito no forno. De estômago composto, continua-se a subida, agora pela Estrada Nacional 39, caminho por onde várias vezes se cruzam nuvens, que de um momento para o outro impedem a visibilidade do asfalto. O ar é já mais fresco quando se chega à Lagoa Comprida, a maior massa de água na serra, antigo glaciar que desde o início do século XX foi utilizado para produção de energia elétrica.

O Abrigo da Montanha, depois de dois anos em obras, passou, em novembro passado, de hospedaria a hotel e spa de quatro estrelas.

A barragem Marques da Silva – nome do fundador da Empresa Hidroelétrica da Serra – começou por ter seis metros de altura, em 1914, e desde 1965 que tem 28. A lagoa pode ser contornada a pé. Estamos já a 1600 metros de altitude, altura em que a giesta e a urze e outra vegetação rasteira começam a dominar. Daqui, rapidamente se chega à única estação de esqui portuguesa. Apesar do tempo anormalmente quente nesta época do ano, começa a aparecer neve. Caída durante a noite ainda se mantém, mesmo com o denso nevoeiro, que, dizem os entendidos, derrete rapidamente o manto branco. Mas mantém-se o tempo suficiente para ser possível fazer bonecos de neve ou escorregar em cima de pás de plástico.

Na estância, o Mancha, instrutor de snowboard e esqui, conta que este ano ainda poucas aulas deu. Os ventos não estão de feição, mas ainda há muito inverno pela frente. Chegados à Torre, o ponto mais alto de Portugal continental, não faltam sítios para onde escolher lembranças. No Centro Comercial Torres há queijos, enchidos, a famosa aguardente de cereais e zimbro e vários licores tradicionais.

Ao descer pela mesma estrada, o viajante depara-se com a indicação para a «Senhora do Desterro». Seguindo-a, vai dar ao Museu Natural da Eletricidade, que ocupa o edifício da primeira central elétrica, datada de 1907. Nas traseiras corre o rio Alva, vindo do cimo da serra pelo Sabugueiro, e cujo sistema hídrico para aproveitamento energético ajudou a moldar a serra como hoje a conhecemos. Quem chegar à aldeia da Senhora do Desterro à hora das refeições deve entrar no restaurante Margarida 1 (não há que enganar, pois é o único), construído à volta do forno comunitário da aldeia que data, conta a diligente D. Adelina, proprietária do restaurante, pelo menos de meados do século XVII. Bacalhau à Margarida, bochechas e arroz de pato à antiga são as especialidades da casa.

Texto de Luísa Marinho - Fotografias de Artur Machado/Global Imagens