A Extremadura espanhola está mesmo aqui ao lado. É a região onde se descobre o mágico Vale do Jerte. Cerejas invejadas em todo o mundo, memórias de uma guerra civil marcante e histórias de conquistadores das Américas fazem parte do percurso.

De Lisboa são 315 quilómetros. Do Porto, 410. Cáceres está bem no centro da antiga província romana da Lusitânia, na atual comunidade autónoma da Extremadura. A parte velha da cidade foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO em 1986, mas não precisava de tal distinção para merecer uma visita. É aqui que encontramos um dos mais impressionantes – e bem preservados – conjuntos urbanos da Idade Média e do Renascimento, mas a riqueza não é apenas a arquitetónica. Dentro dos seus muros começamos logo por descobrir uma garrafa de vinho que está à venda por 300 mil euros.

É um Chateau d’Yquem de 1806 e está protegido por uma vitrina moderna, acompanhada por mais 40 mil garrafas de 3500 referências numa adega única vencedora por cinco vezes do título de melhor do mundo – a do restaurante Atrio, duas estrelas do Guia Michelin. Para um apaixonado por vinhos clássicos, este é um parque de diversões. Com o olhar, passa-se da montanha-russa de um Chateau Latour de 1945 para o carrossel de xerez do século xix e várias garrafas de Mouton Rothschild com rótulos desenhados por Picasso, Dalí ou Bacon.

Na rua ao lado, nesta cidade histórica com menos de cem mil habitantes, mais um grande momento gastronómico. E literário. Numa moldura, a página 386 do romance A Rainha do Sul, do escritor e jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, cliente habitual do restaurante Torre de Sande. Está instalado num edifício do século xv, ao lado da igreja de San Mateo. Há tapas sobre a mesa e o chef César Ráez desvenda um mistério: «Sabiam que a palavra tapería foi inventada aqui em Cáceres e graças a este restaurante?» O presunto ibérico fatiado rola pela mesa, acompanhado de tintos da Ribera del Guadiana, terrinas de fígado e mil folhas com um dos petiscos mais famosos desta região – o queijo Torta del Casar. É neste ambiente de festim que recuperamos das quatro horas de viagem de carro, num espaço que mistura o gótico, o renascentista e o medieval.

A digestão faz-se a pé, passeando pela Cidade Monumental, museu ao ar livre em que se destacam a Catedral de Santa Maria, o Palácio das Veletas, a Casa do Sol ou o Arco da Estrela, já a chegar à Plaza Mayor. Foi aqui perto que deixámos o carro. É daqui que seguimos para entrar no Vale do Jerte propriamente dito.

«Nestas serras o esquecimento está cheio de memória.» Encontramos a inscrição à beira da estrada, a quase cem quilómetros de distância de Cáceres. Já estamos em El Torno, no coração da Extremadura, estacionados num parque que dá acesso ao Miradouro da Memória. A vista para o vale é impressionante, mas não é isso que nos faz sentir a pele arrepiada – é o conjunto de esculturas de forma humana viradas para o vazio e para as serras.

O miradouro idealizado pelo artista Francisco Cedenilla Carrasco é uma homenagem às vítimas da guerra civil espanhola e da ditadura franquista. Foi inaugurado em 2008. Três anos depois, um pai trouxe aqui o filho de 14 anos para praticar tiro ao alvo. Numa noite, duas das estátuas foram vandalizadas a tiro de caçadeira. Estão lá os buracos das balas, prova de que o tema continua a ser uma ferida aberta na sociedade espanhola. Ao primeiro dia de viagem encontrámos um dos pontos altos deste percurso.

Estamos a duas horas de Madrid, no local onde os nossos vizinhos garantem existir as melhores cerejas do mundo. Durante séculos, o Vale do Jerte foi a passagem natural da Extremadura para Castela, caminho ideal para a transumância, a viagem periódica de animais de pastoreio entre a planície e as montanhas. A morfologia do terreno e o clima contribuíram para que, década após década, o número de produtores de cereja tenha aumentado. Cereja não – picota, a variedade que deu fama ao vale. É agora, no fim da primavera, que as picotas estão no seu auge. São mais pequenas e saborosas do que as outras (no vale há cerca de cem variedades diferentes) e têm denominação de origem.

A partir de maio, o melhor produto está nas árvores, mas o espetáculo começou há cerca de um mês, no final de março. Imagine mais de milhão e meio de cerejeiras em flor. Parece neve a cobrir o vale entre a serra de Gredos e a cidade histórica de Plasencia, no Norte da província de Cáceres, protegido pelas encostas de Tras la Sierra e serra de Tormantos (com cerca de mil metros de altitude).

Maria del Carmen Diaz Ramos é coproprietária (com o marido, Felipe) da quinta Los Polluelos, em Rebollar (a cinco quilómetros do miradouro), uma das onze localidades do Vale do Jerte. As orelhas estão ornamentadas com brincos em forma de cereja: «Cada cerejeira dá entre cem e 150 quilos de fruta e aqui temos mais de 600 árvores. Recebemos grupos e organizamos visitas aos cerejais. A ideia é que cada pessoa recolete as próprias cerejas e as possa comprar diretamente ao produtor.» Em menos de 24 horas entrega-as em qualquer destino de Espanha, continental e ilhas.

Todos os anos, entre 15 e 24 milhões de quilos de cereja são recolhidos no Vale do Jerte. Tudo depende do clima.

Despede-se de nós – está a chegar um grupo de visitantes – na pequena loja de licores caseiros e de artesanato regional. O fruto é o grande motor da economia de uma região onde vivem cerca de 15 mil pessoas. «Tudo está ligado à cereja», informa Juan Luís, do Agrupamento de Cooperativas do Vale do Jerte. A organização tem cerca de 3500 sócios que representam oitenta por cento da economia do vale.

Produzem em conjunto uma média anual de 15 milhões de quilos – 24 milhões em doze meses foi o máximo alcançado. Isto equivale a um volume anual de 48 milhões de euros, resultado da venda para o mercado espanhol e internacional em partes iguais. Alemanha, França, Inglaterra e Holanda são os importadores principais daquilo que produz este vale com quarenta quilómetros de extensão e doze de largura.

Vale do Jerte

Não é apenas da cereja que vive a população da região, mas quase. Agropecuária e turismo são outras fontes de rendimento. No caso do turismo, no entanto, o catalisador de visitas é mesmo a cereja. E isso vê-se pelas placas à beira da estrada e pelos menus dos muitos restaurantes que vamos descobrindo pelo caminho. Um deles é a Garza Real, que acumula funções de hotel rural. Fica na localidade de Valdastillas e, graças à chef Teresa Nuñez, é um templo de boa comida: cocktail de maracujá e sumo de cereja, gaspacho especial com caldo de tomate, cereja e vinagre de Modena com azeite de hortelã, sushi com arroz-doce e doce de cereja, salmão marinado em cama de alho francês, com molho rosa e mostarda, terrina de leitão e foie gras com chutney de cereja e azeite e, para terminar, café. De cereja, claro. O restaurante funciona apenas com reservas e Teresa parece ter encontrado o seu modo de vida – «Gosto muito de conhecer gente e isto permite-me abrir uma janela para o mundo. Se não tivesse a Garza Real, não conseguiria viver numa aldeia só com 350 habitantes.»

Em Valdastillas, no coração do vale, as cerejas podem ser compradas diretamente ao produtor.

Se há turistas que chegam pela fruta e pela gastronomia, outros há que encontraram no Vale do Jerte um paraíso para o trekking. As caminhadas pela serra atraem milhares de visitantes todos os anos. São inúmeros os trilhos para percorrer e descobrir em redor do rio que lhe dá nome. Xerit ou Xerete (rio de águas cristalinas) foi o nome com que os árabes o batizaram. Assenta-lhe bem. Em termos de natureza, não sabemos quem terá escolhido o nome de uma das maiores atrações da região, mas também aqui o registo foi na mouche – Garganta dos Infernos. Esta reserva natural é composta por dezenas de quedas de água, ribeiros, cascatas, piscinas naturais e poços escavados pela erosão do rio. Graças à humidade que daí resulta, a vegetação é frondosa e exuberante, criando ecossistemas únicos. Para lá chegar temos de mudar de um automóvel convencional para um jipe e, depois, seguir a pé pela montanha. Vale o esforço para ficar a conhecer uma pequena parte destes 7200 hectares protegidos.

O ponto mais visitado é Los Pilones, a uma caminhada de 6,5 quilómetros desde o Centro de Interpretação da Garganta dos Infernos. Anualmente, mais de 150 mil visitantes aqui chegam para ver o efeito que a água provocou nas rochas ao longo de milhões de anos. As piscinas naturais têm tendência a estar muito frequentadas nos finais de semana de verão, mas nada que não se suporte. E há sempre a possibilidade de fazer o que apenas um quinto dos turistas faz: continuar a subir a montanha depois de Los Pilones. É duro, mas compensa pela tranquilidade. A vista do vale é abrangente nos dias de boa visibilidade. Quase que se tem a sensação de conseguir vislumbrar até ao mar – ilusão de ótica. Afinal, o mar mais próximo é o português.

Começamos a pensar em voltar a casa, mas ainda há tanto para ver. Em Cabezuela del Valle, terra de judeus na Idade Média, há um centro histórico de ruas íngremes e labirínticas que nos convida a «perder» tempo. Fazemo-lo e já chegamos ao fim do dia à monumental Plasencia, onde nasceram Pedro de Valdivia e Inés Suárez, respetivamente conquistador do Chile e fundadora da atual capital desse país. Passamos rapidamente da natureza e das cerejas para um passeio histórico. Na manhã seguinte visitamos as suas duas meias catedrais,
renascentista e romântica, no exato momento em que dois casamentos ali se realizam. Para celebrar a felicidade optamos por ir beber um gin tónico ao bar do Parador local – boa escolha, apesar de pouco frequentado. A noite é mais estudantil, com muita oferta nas ruas estreitas, principalmente junto ao bar El Portón. Nada que nos impeça de conhecer a parte nova desta cidade fundada em 1186.

De dia, a história e as cerejas dão cartas. À noite, é tempo de diversão. A população jovem de Plasencia não dispensa uma ida ao bar El Portón.

Na manhã seguinte, mais uma viagem no tempo até Trujillo, praticamente a meio caminho entre as duas capitais ibéricas. Pelo meio, deparamo-nos com a sombra e o voo dos abutres no Parque Nacional de Monfrague. O miradouro à beira da estrada serve para esticar as pernas, sentir o ar puro e prepararmo-nos para conhecer a cidade dos dois Franciscos conquistadores das Américas: D’Orellana e Pizarro.

O primeiro fez o que nenhum outro homem antes tinha feito – navegou a totalidade do rio Amazonas. O segundo conquistou (com a ajuda do primeiro) o território que é hoje o Peru. Pelo caminho, milhares de atrocidades, as mesmas cometidas por quase todos os exploradores europeus dos séculos xv e xvi. A estátua de Pizarro a cavalo domina a Plaza Mayor desta cidade com sete portas que separam as partes nova e velha. Na Calle de Los Naranjos, a caminho da igreja e da casa-museu Pizarro, a porta de uma garagem está totalmente aberta. De costas para a rua, uma mulher loira de meia-idade toca piano sem se aperceber de que é observada. Ao fundo, conseguimos ouvir as badaladas do sino. É meio-dia. Mais um pouco e a fome vai apertar. Já petiscávamos qualquer coisa. Podem ser umas cerejas.

Texto de Ricardo Santos - Fotografias de Gonçalo Villaverde