Um bistrô que tem tantas antiguidades como a casa de uma avó, mas que é novinho em folha. Quem vive junto à Rua da Madalena, em Lisboa, já sabe: quando toca o sino, vale a pena apressar-se. Quer dizer que acaba de sair uma fornada de croissants artesanais.

«Aquele relógio de cuco era da minha avó. A mala de viagem castanha debaixo da estante pertenceu ao meu avô e até ainda tem a etiqueta de uma das viagens da família. Já aquele jornal exposto na parede foi fundado pelo meu tio-avô», vai apontando João Múrias, cuja memória tem gravada a história de todos os objetos que ocupam a singular estante da Fábrica Lisboa. Metade deles vieram da garagem dos seus pais e os restantes (que ainda são muitos) foram fruto de visitas a feiras de antiguidades, antiquários e horas de compras na internet com o chef pasteleiro Francisco Moreno, o outro sócio deste bistrô que abriu em maio do ano passado.

O resultado está à vista e rouba sempre uns segundos de atenção a quem entra no número 121 da Rua da Madalena, e passa pelos ainda conservados arcos do edifício classificado. A estante que vai até ao teto tem o efeito de provocar uma certa nostalgia para os que viveram com cassetes VHS, rodaram o disco de um telefone fixo, escreveram sem ecrã e – passando uns anos e uma geração à frente – tiveram o primeiro Game Boy. Já para não falar no chuveiro antigo e nas dezenas de compartimentos de plástico destinados à farinha, ao açúcar e às massas, que fazem lembrar a casa da avó.

Um Livro de Pantagurel de 1951 ajudou a inspirar o chef, que segue as receitas antigas e originais de vários bolos e salgados da casa.

De tempos a tempos, o cheiro a doce que vem da cozinha aberta intensifica-se e pode ver-se Francisco Moreno a socar a massa da próxima fornada. O sino à entrada é tocado por um dos funcionários e o aviso está feito: há croissants quentinhos de massa folhada a sair do forno. Os de salmão fumado e queijo creme, os de Nutella e os de doce de ovos já têm honras de preferência, mas no total são mais de dez variedades para provar. A fama não é de estranhar, já que as estrelas da casa são de fabrico artesanal, feitos um a um pelo chef madrileno que fez formação francesa.

Um Livro de Pantagruel de 1951 de João Múrias ajudou a inspirar o chef, que segue as receitas antigas e originais das vários bolos e salgados da casa, como o caracol, as tartes e as quiches. Até mesmo o «chocolate quente da avó» é feito de forma tradicional, e isso nota-se na espessura.

Estas são apenas algumas das especialidades para espreitar na ementa da Fábrica Lisboa, sempre pendurada nos cabides das mesas – estas provenientes de um antigo cinema da Avenida de Roma.

Os cabides das mesas eram de um antigo cinema da Avenida de Roma e muitos objetos que decoram a sala pertenciam à família de João Múrias, que abriu este bistrô com o sócio Francisco Moreno.

À boa maneira portuguesa, não se fala em vintage nem em brunch neste espaço. Mas, entre coisas do antigamente, continua a haver espaço e tempo para «pequenos-almoços tardios » e «lanches ajantarados» com as saladas ou os ovos mexidos com presunto, acompanhados por pão rústico. Feito e cozido na Fábrica, escusado será dizer.

Fábrica Lisboa
Rua da Madalena, 121 (Baixa)
Tel.: 215968827
Web: fabricalisboa.com
Das 08h00 às 20h00; fim de semana, das 09h00 às 19h00. Encerra à segunda

Texto de Marlene Rendeiro - Fotografias de Paulo Spranger/Global Imagens