Pode não ter a fama de Havana, mas não lhe fica atrás quanto a arquitetura e personalidade. Bem pelo contrário. Cidade Património Mundial, é também a terra natal de Candita Batista, a primeira estrela negra da música cubana.

Camagüey, Cuba

Um homem puxa-me pelo braço e aponta para o outro lado da rua. «Não é a farmácia que devem fotografar, mas a minha mãe.» Estamos no centro histórico de Camagüey, cidade classificada pela UNESCO como Património Mundial em julho de 2008. Fotografar farmácias e mercearias é algo comum em Cuba, toda a gente quer levar uma prova do regime socialista, e nada como conseguir uma imagem da famosa folha de racionamento. As farmacêuticas parecem compreender a curiosidade e ninguém se furta à câmara, apesar das muitas prateleiras vazias.

O homem é que não se conforma. «Têm de fotografar a minha mãe», insiste. «Venham comigo, venham comigo.» E porque é que devemos ir fotografar a tua mãe, perguntamos? «Porque é uma estrela. Toda a gente conhece a minha mãe.» Em viagem, tudo o que cai do céu é chuva ou uma boa história, por isso não custa nada ir averiguar. A porta de casa está aberta para a rua, como estão quase todas as portas e janelas da cidade. Convida-nos a entrar. «Aqui está a minha mãe. Candita Batista», diz com orgulho. Candita, sentada no cadeirão, sorri. As paredes recheadas de fotos e distinções confirmam de imediato a grandeza da carreira, se bem que bastasse a sua postura para perceber que estamos na presença de uma grande estrela. Está-lhe no sangue, no corpo, na pose, no sorriso, nuns incríveis olhos verdes que não parecem ter perdido a cor nem o brilho, apesar da idade. Uma vez estrela, estrela para sempre. O filho não exagerou. Candita Batista foi, de facto, a primeira estrela negra da música cubana, uma diva numa época e num país em que os negros nem sempre ocuparam lugares de destaque, apesar da apregoada igualdade racial.

A primeira mulher a integrar uma orquestra masculina, cantora com uma voz inconfundível, um ícone de beleza caribenha que deu concertos nos maiores palcos do planeta, incluindo o mítico Olympia, em Paris, lado a lado com Maurice Chevalier e Charles Aznavour.

Verde, amarelo, azul, as cores fortes, vivas, são uma constante, seja em casas particulares seja em hotéis ou edifícios oficiais.

Já a conversa vai longa quando percebe que somos portugueses. Agarra-me a mão e pede ao filho para ir buscar algo lá dentro. É um arquivo com recortes de jornais. Abre na parte reservada às digressões na Europa e lá estão as referências à sua passagem por Portugal, em plena década de 1950. Um concerto que decorreu no Maxime, cabaret lisboeta que reabriu em outubro do ano passado pelas mãos de Manuel João Vieira. «A extraordinária vedeta negra, Candita Batista, incomparável intérprete de ritmos cubanos», assim era anunciado o espetáculo. «Fui muito, muito, muito feliz no vosso país», diz. «Nem imaginam quanto.» Antes de nos despedirmos deixa um desejo: «Pode ser que um dia ainda me convidem para voltar.» A 3 de outubro de 2016 faz 100 anos.

A cantora Candita Batista é a mais ilustre habitante da cidade. A primeira grande estrela negra da música cubana. Tem 99 anos.

Aposta no turismo e na arte

É compreensível que ninguém venha propositadamente a Cuba para passar férias em Camagüey, tão difícil que é concorrer com Havana e com as mil e uma praias do país, mas estando na ilha deveria ser obrigatória uma passagem pela cidade, nem que seja por uma noite. Um simples almoço. Situada na província com o mesmo nome (a maior província de Cuba), e com cerca de 300 mil habitantes, só é superada em importância, dimensão e população pela capital e por Santiago de Cuba. Mas quer ultrapassar fronteiras em termos turísticos. Com uma arquitetura e um ambiente muito próprios, procura aproveitar as comemorações da sua fundação (celebrou 500 anos em 2014) e a tão apregoada abertura do regime para ganhar um novo fôlego.

E nada como ter bons hotéis para fixar turistas. A oferta hoteleira tem sofrido consideráveis melhorias, com cada vez mais casas particulares disponíveis para aluguer – algo que não era permitido de forma oficial há alguns anos –, além do nascimento de alguns hostels e até boutiques-hotels. O La Sevillana, no coração do centro histórico, é a cara desta nova vida, um sedutor edifício datado de 1920, alvo de uma remodelação quase total, que conserva a fachada e a arquitetura colonial.

Dança, festa, música, a boa disposição e o ritmo cubano são uma constante, sobretudo no centro da cidade.

Aqui, tal como em toda a cidade, não se esconde o passado espanhol, bem pelo contrário. O colorido vitral da entrada é, na verdade, uma homenagem a Sevilha e à sua mundialmente famosa dança. Tem nove quartos, quatro estrelas e a promessa de um serviço de eleição. Uma atmosfera em tudo semelhante à existente no Hotel Santa Maria, situado a poucas centenas de metros de distância, também ele um edifício de arquitetura colonial, verde, de frente para a igualmente icónica Iglesia de la Soledad. No lobby, os hóspedes são recebidos ao som de uma pianista, negra e sorridente, como Candita. Já nas paredes
e nos espaços comuns estão trabalhos de muitos artistas locais.

A música, o cinema, o teatro, a dança, a arte de uma forma geral, mais ou menos popular, mais ou menos erudita, está persente no ADN dos cubanos. Cruza-se connosco no meio da rua. As autoridades tentam tirar partido disso mesmo e acabam de inaugurar a Calle de los Cines, rua que vai desde a Plaza de los Trabajadores à referida Iglesia de La Soledad. Uma espécie de passeio temático pelo mundo da Sétima Arte onde há restaurantes, teatros, museus, cinemas antigos, galerias de arte e muitas fotografias de algumas das mais famosas caras de Hollywood. Há também empregados de bar vestidos com papillon como se estivessem a preparar daiquiris e margaritas a Humphrey Bogart e bares que são, precisamente, réplicas de bares famosos, como o Rick’s Café, do filme Casablanca, onde todas as noites é possível assistir a espetáculos e ouvir música ao vivo. A cidade é mesmo reconhecida pelos seus muitos festivais, entre eles um festival de cinema, de vídeo, bailado e música clássica. Para 2016 está programada uma grande homenagem a Candita Batista, verdadeira embaixadora e orgulho maior da cidade. E vai cantar, naturalmente. Continua a cantar sempre que lhe pedem.

Cidade antipiratas

A cor é outra das imagens de marca de Camaguey. Verde, amarelo, cor-de-rosa, cor de laranja, vermelho, castanho, uma mistura que lhe empresta uma atmosfera mais leve e caribenha do que outras cidades da ilha, se bem que a arquitetura seja sobretudo colonial. Tanto parece que estamos no México como rapidamente saltamos para a Andaluzia, devido à encruzilhada de ruas, ruelas, praças e pracetas. A unir todo isto, o ritmo cubano e a essência cubana.

Não é facil encontrar a rua certa no centro de Camaguey. É propositado. Foi uma forma de os seus antepassados se protegerem dos saqueadores.

Convém, ainda assim, prevenir os mais desorientados (e mesmo os mais orientados) de que é quase certo que andem às voltas para encontrar o rumo certo. Não é defeito, é feitio. Como a província era atacada de forma sistemática por piratas, os seus habitantes optaram pelo caos como forma de de proteção e ordenamento territorial. Com maior ou menor dificuldade, além disso é sabido que os desvios de percurso em viagem são sempre uma boa forma de conhecer um destino, quase todos os caminhos vão dar à Plaza San Juan de Dios e à Plaza del Carmen. Se a primeira é uma das mais pitorescas da cidade, representando na perfeição essa osmose entre a aura caribenha e a herança colonial, a Plaza del Carmen é uma espécie de galeria a céu aberto com uma série de esculturas em bronze.

Trabalhos da autoria da Martha Jiménez, quase em tamanho real, que representam uma série de pessoas e hábitos locais, tais como o velho a ler o jornal, um casal a namorar, um grupo de mulheres a conversar ou um homem com uma luneta à cata de piratas. Hoje já não há piratas nas Caraíbas, nem americanos – que chegaram a ser apelidados de «piratas sem ética» por Fidel Castro; são agora desejados pelos habitantes da cidade e por todos os cubanos, ansiosos não só pelo desenvolvimento económico que os dólares possam trazer, mas também para mostrar a sua forma única de receber. E de viver. E de cantar…

A Plaza SanJuan de Dios é um dos locais obrigatórios, pela beleza e riqueza arquitetónicas.

Guia

Moeda: Há duas moedas. O peso cubano (CUP) e os pesos conversíveis (CUC), a moeda do turista. Um CUC representa sensivelmente um euro.
Fuso horário: GMT – 5 horas
Idioma: Castelhanos
Documentos: Passaporte com validade mínima de seis meses e visto obrigatório (normalmente é tratado pelas agências de viagem e incluído no preço). À saída do país é necessário pagar 25 CUC, relativo a taxas locais.
Quando ir: quase todas as épocas são boas. Até novembro convém estar preparado para a possibilidade de aguaceiros diários. A partir daí começa a estação seca. Com ou sem chuva, a temperatura é quase sempre alta e a humidade elevada.

Ir

Há uma ligação diária durante todo o ano desde Madrid para a capital Havana, através da Air Europa (aireuropa.com). A Ibéria (iberia.com) e a Cubana (cubana. cu) também têm ligações diretas e diárias desde a capital espanhola. Voo tem a duração de nove horas.

Comer

O camarão e a lagosta são famosos em Cuba, se bem que a gastronomia não seja propriamente o ponto forte da ilha, uma vez que não tem uma grande variedade de produtos próprios. Com forte influência africana e espanhola tem na carne de porco o produto mais utilizado. O arroz, o feijão, a batata e a yuca também são omnipresentes. Se bem que já haja vários restaurantes internacionais na cidade, é sempre bom experimentar um restaurante «da casa», se possível daqueles onde (também)vão os cubanos. Na Plaza San Juan de Dios há muitas e boas opções. Para acompanhar a refeição, nada como um cocktail cubano. E são tantos: cuba libre (rum, refrigerante de cola e limão), mojito, daiquiri, piña colada ou a canchánchara (rum, mel e limão), esta mais tradicional.

Onde ficar

Hotel Santa Maria
O número de camas na cidade está a crescer, mas este é ainda o grande hotel da cidade, apesar de apenas ter 31 quartos. Um edifício colonial, bem preservado, localizado em pleno centro histórico, no coração da boémia, e com um serviço de quatro estrelas. Custa menos de 50 euros por noite. Calle República, esquina Ignacio Agramonte, Camaguey.

La Sevillana
Se o Santa María ainda é o hotel maior de Camagüey, o La Sevillana, com inauguração marcada para breve, está pronto para ocupar o seu lugar. Ou para ser o complemento perfeito. Uma unidade de charme com atmosfera tipicamente andaluza, como o nome deixa antever.

A não perder

Calle de dos Cines
Uma espécie de passeio da Sétima Arte com referências a filmes e atores icónicos. É também aqui que fica o bar Casablanca, ideal para ver espetáculos de música ao vivo.

Plaza del Carmen
Praça onde se situam as famosas esculturas em bronze de Martha Jiménez, artista da terra que viu o seu trabalho distinguido pela UNESCO.

Iglesia de la Soledad e Iglesia de Nuestra Senora de la Merced
Camagüey é considerada a alma católica de Cuba, com dezenas de igrejas de vários estilos. Em 1998 recebeu o Papa João Paulo II. Desta vez, em setembro de 2015, o Papa Francisco não visitou a cidade.

Teatro Principal de Camagüey
Construído em 1850, é não só um bonito edifício da era colonial como um teatro que continua a receber os melhores festivais da cidade. E são muitos.
A Plaza San Juan de Dios é uma das mais bonitas do centro histórico, repleta de cor e de vida.

Texto de João Ferreira Oliveira - Fotografias de Jorge Amaral/Global Imagens