Nunca conheci ninguém que tivesse tirado férias e atravessado o mundo para conhecer Manágua. Trata-se de um destino bastante exótico, muito extravagante e, como costumam escrever nos guias em inglês, off the beaten track (numa tradução livre: fora dos caminhos mais percorridos). Estas expressões que, normalmente, se utilizam para atrair turistas, parecem ser as mesmas que, neste caso, os afastam.

Uma das surpresas que as viagens proporcionam é perceber que, no mundo, há cidades com organizações radicalmente diferentes. Antes dessa experiência, por defeito, acredita-se que, no essencial, as cidades partilham uma série de princípios. A capital da Nicarágua é a prova de que não é assim. No mundo, há cidades com muitas formas.

Em 1972, a capital da Nicarágua sofreu um terramoto de enorme intensidade. Dada essa violência e a precariedade das construções, calcula-se que cerca de 90% da cidade terá ficado destruída. Ao longo dos anos setenta, a elite governante de então roubou toda a ajuda internacional que foi enviada para reconstruir a cidade. Não há quem desminta a crueza desta afirmação. Em 1979, iniciou-se a revolução Sandinista que deu origem a um conflito que terminou em 1990. Após uma guerra civil de 11 anos, mais de 20 anos sobre o terramoto, foi já em meados dos anos noventa que, muito devagar, se iniciaram algumas obras públicas. Nessa época, o centro da cidade já deixara de ser claramente identificável. O terramoto fizera que alguma construção crescesse junto dos edifícios que resistiram; o conflito fez que comunidades surgissem dispersas em áreas afastadas; a necessidade fez que muita população se instalasse junto das reservas de água. Todas essas construções foram desenvolvidas sem uma ideia que as organizasse.

Uma das surpresas que as viagens proporcionam é perceber que, no mundo, há cidades com organizações radicalmente diferentes.

Com frequência, as ruas novas não seguem o traçado das antigas e, ainda hoje, em Manágua, quando alguém indica caminhos ou localizações, não indica os nomes das ruas, novas ou velhas; o mais comum é usar referências que já não existem: qualquer coisa fica a x metros a oeste do antigo teatro, ou qualquer coisa fica a x metros a norte do antigo mercado.

Em Manágua, os fantasmas existem, há muita gente que ainda os vê. Com poucas exceções, não se trata de uma cidade de gente nos passeios. A grande dispersão da cidade impede caminhadas, mas permite muitos terrenos baldios. A primeira imagem de Manágua, a que mais fica na memória, são imensas estradas, muito amplas, congestionadas com todo o tipo de trânsito, poluição e bom tempo, malabaristas a aproveitarem os segundos de um semáforo vermelho diante de uma multidão de motorizadas.

Naquela que é a segunda metrópole mais populosa da América Central, logo após a Cidade da Guatemala, são apresentadas duas opções ao visitante mais insistente: a Catedral de Santiago, um dos poucos edifícios que resistiu ao terramoto, e o Puerto Salvador Allende, onde se paga bilhete para entrar numa área renovada com restaurantes e salsa ao vivo.

Faltou falar das pessoas. Em qualquer ponto da cidade, apesar das cicatrizes do passado, apesar das dificuldades do presente, as pessoas sorriem, são delicadas, sempre atenciosas. Vale a pena tirar férias e atravessar o mundo para conhecê-las.

Crónica de José Luís Peixoto - Fotografias Direitos Reservados