A Volta ao Mundo chegou à televisão em maio e foi na Extremadura espanhola que começámos a aventura. Foram quatro programas por semana na RTP3 sobre o destino com José Luís Peixoto. E quando muda o mês, mudamos de poiso.

Temos a Extremadura colada à pele. A fronteira é uma linha fina ou uma ideia. Deve haver azinheiras que são atravessadas por essa linha. Para se poder ver algo com clareza, para se poder avaliar proporções e analisar, é preciso distância. Quando se está demasiado perto, falta a visão do todo e, porque estamos envolvidos no que nos toca, falta uma certa isenção, a capacidade de nos excluirmos do que está diante de nós. A partir do Centro e do Sul de Portugal, falta essa distância para vermos a Extremadura, precisamos dela para ganhar perspetiva.

Os abutres que têm ninhos no Salto del Gitano conseguem observar tudo o que se move cá em baixo. Esse enorme rochedo tem um declive abrupto e, por isso, é como uma parede imensa que se levanta do rio e que expõe essas aves para quem, com binóculos que não precisam de ser muito sofisticados, queira vê-los com detalhe. Quando esses abutres levantam voo, abrem asas com uma envergadura que ultrapassa os dois metros. Sobre o rio Tejo e sobre os campos, cruzam-se com muitos outros habitantes do parque de Monfragüe, como é o caso das cegonhas-negras, que vieram passar a primavera e o verão, e das águias-imperiais ou ibéricas. O parque tem 18 mil hectares de paisagens e recebe a chegada do Tiétar ao Tejo. O Tiétar é um dos principais afluentes do Tejo em Espanha, nasce na serra de Gredos, que, no início desta primavera, ainda tinha os picos completamente cobertos de neve, visíveis a muitos quilómetros.

Para quem apenas conheça as cidades da Extremadura, como era o meu caso, a natureza é uma das grandes descobertas desta viagem. No Norte da província, o vale do Jerte é motivo de deslumbramento. Muito conhecido pelas cerejas, principal produto dessa região, é particularmente gratificante visitar este vale na época em que as cerejeiras florescem. Com a serra de Gredos lá ao fundo, com as enormes extensões de cerejeiras mais perto, cobertas por flores brancas, é como se tivesse nevado em tudo o que se vê.

É justamente dos picos das montanhas que chega a muita água que escorre em cascatas e que, moldando ladeiras, forma gargantas de rocha granítica e águas limpas, transparentes. No verão, para privilégio dos visitantes do vale, esses cursos de água abrandam em piscinas naturais. Talvez a mais conhecida seja a Garganta de los Infiernos. A água desce entre montanhas, ao longo de um profundo rasgão na terra. A natureza no seu estado mais puro, como no início dos tempos. Muitos outros exemplos poderiam ser enumerados. Entre todos, refiro também a Garganta Mayor, pela sua beleza tranquila, de águas muito mais calmas, mas também porque fica ao lado de uma aldeia chamada Garganta la Olla, na comarca de La Vera, que tem origem medieval e ruas que mantêm essa traça, não abdicando da sua vida e da sua contemporaneidade. As aldeias são, aliás, surpresas que a Extremadura conserva, pequenos mundos.

Mas a natureza também guarda descobertas no âmbito do património e da história. No início do século XV, foi a natureza e o isolamento que atraíram os monges que edificaram o Mosteiro de São Jerónimo de Yuste. Hoje, os motivos de interesse deste edifício são múltiplos. Entre eles, encontram-se todas as histórias ligadas ao imperador Carlos V (I de Espanha), que escolheu este mosteiro para sua última residência. Aí se pode visitar o quarto onde morreu em 1558 e onde mandou construir uma porta para poder assistir à missa desde o leito ou, também, a cripta que o próprio destinou para os seus restos mortais, sob o altar dessa mesma igreja. Após estes séculos, o mosteiro continua a ser casa de monges, com jardins magníficos e vistas únicas.

Foi na Catedral Nova da cidade de Plasencia que se realizaram as cerimónias fúnebres do imperador Carlos V. Normalmente, esta é considerada a catedral mais imponente e rica de toda a província da Extremadura. Realmente, tanto o seu exterior como o interior são ornamentados com muito trabalho. O retábulo do altar-mor é uma das principais obras do barroco espanhol. Também ele exige perspetiva, precisamos de afastar-nos para conseguir vê-lo inteiro. Mas uma catedral nova pressupõe a existência de outra, velha.

Neste caso, há quem defenda que as duas são a mesma ou, pelo menos, são irmãs siamesas. A construção da Catedral Velha foi iniciada no final do século XII, o seu estilo arquitetónico situa-se entre o românico e o gótico. A construção da Catedral Nova começou no final do século XV, com um estilo renascentista. Estas catedrais acabaram por criar um objeto arquitetónico muito curioso. À medida que se construía a nova, ia-se destruindo a velha. A Catedral Nova ia ocupando o espaço da velha. Já no século XVII, quando se suspenderam as obras por falta de financiamento, as duas catedrais ficaram uma sobre a outra, sendo muito visível o ponto onde a construção de uma e a destruição da outra foram interrompidas. Um dos bons lugares para ficar na cidade é, também, um monumento de grande interesse histórico. Refiro-me ao atual Parador, da rede espanhola de Paradores Nacionais de Turismo, que era o Convento de Santo Domingo, mandado construir no século xv sob as ruínas da antiga sinagoga e parte da judiaria, com tudo o que isso tem de significativo acerca da história dos judeus na cidade, na região e na península.

Também em Trujillo há um património assinalável, localizado num núcleo histórico que, com muita facilidade, permite que imaginemos outros tempos. As esplanadas da Plaza Mayor merecem algum investimento de horas: ali, sentados, com a cidade a erguer-se à nossa frente, a rodear-nos. Depois, vale a pena avançarmos por qualquer rua, fazendo questão de não sabermos o caminho. Perdermo-nos em Trujillo é um prazer e, se mantivermos o campanário da Igreja de Santa Maria como referência, não nos desorientaremos muito. Vale a pena entrar nessa igreja do século XIII, assim como em muitas outras que existem pela cidade. Muito recomendável também é entrar no castelo e subir às muralhas. Aí, no ponto mais alto de Trujillo, veem-se as ruas, toda a cidade, e veem-se também os campos que, ao longe, se estendem em todas as direções. A nordeste, lá ao fundo, de encontro ao horizonte, distingue-se a serra de Gredos, os seus picos brancos de neve.

A pouco mais de quarenta quilómetros de Trujillo fica Cáceres. O seu centro histórico foi declarado Património da Humanidade pela UNESCO em 1986. No centro desse centro, a Concatedral de Santa Maria é o principal templo católico da cidade. Partilha com a já referida Catedral Nova de Plasencia a sede da diocese, a sua cátedra. A construção do edifício foi iniciada no século XV, sobre um edifício do século XIII de estilo mudéjar. Este é o termo que designa a arquitetura ibérica com elementos árabes, desenvolvida por muçulmanos que permaneceram em territórios conquistados pelos cristãos.

As torres que acompanham o que sobra das antigas muralhas foram construídas numa Cáceres muçulmana. Esse é o caso da Torre de Bujaco, que tem a melhor vista sobre a Plaza Mayor, pedonal, onde ao fim do dia todas as gerações da cidade se parecem juntar. Uns sentados nas esplanadas, outros conversando de pé, as crianças a correrem de um lado para o outro. Do alto dessa torre, olhando na direção oposta à praça, está a cidade antiga, as suas ruas, Nesse labirinto, encontram-se os mais importantes monumentos da cidade, alguns museus e, também, recantos mais discretos, que precisam de ser descobertos por cada um, sem ajuda. É também em pleno centro histórico, entre essas pedras edificadas há séculos, que se situa uma nova atração: o restaurante Atrio, de Toño Perez, um dos grandes chefs espanhóis atuais, reconhecido com duas estrelas Michelin.

O restaurante Atrio, em Cáceres, tem duas estrelas Michelin na ementa. Toño Perez é o chef responsável pela fusão do antigo e do moderno da gastronomia da Extremadura.

Como uma viagem através do paladar, no interior do próprio paladar, com todos os detalhes assegurados, a luz certa e, às vezes, os sinos da Igreja de São Mateus, muito subtis, como ecos da memória. A Extremadura é grande. Na fronteira que partilha com Portugal, toca os distritos de Castelo Branco, Portalegre, Évora e ainda um pouco de Beja. É possível fazerem-se grandes distâncias sem sair da província. Entre Cáceres e Mérida, no entanto, bastam setenta quilómetros. Ainda assim, as diferenças entre as cidades são bastante evidentes. Começando pelo património, Mérida recebe-nos com o seu aqueduto romano que, ao longo dos seus 827 metros de comprimento, chega a ter um altura de 25 metros.

A capital autónoma da Extremadura é justamente conhecida pela riqueza da sua herança romana. Sem discussão, o seu espaço arqueológico é considerado o mais importante da península. Muitos acham mesmo que é o mais rico fora de Itália. Fundada em 25 a.C, com o nome Emerita Augusta, foi a capital da Lusitânia. Hoje, essa grandeza é visível em grandes construções, como o anfiteatro ou o teatro, onde ainda hoje se realiza um festival anual de representações de textos clássicos ou de versões dos textos clássicos. É também visível nas estátuas ou, mesmo, nos pequenos objetos romanos de uso quotidiano, que podem ser encontrados no Museu Nacional de Arte Romana, um projeto arquitetónico de Rafael Moneo, que sintetiza de modo magnífico a modernidade e o extraordinário espólio que o museu contém, bem como o que representa.

Depois de passar pelo Templo de Diana, antes de deambular entre tapas, por exemplo, vale a pena observar o entardecer nas margens do Guadiana, entre todos os habitantes da cidade que ali se encontram, com a ponte romana refletida pelo rio, atravessando séculos e milénios.

Nas lonjuras que o Sul da Extremadura nos oferece, as azinheiras apresentam as suas copas desgrenhadas. São como esculturas caprichosas, como nuvens verdes rentes à terra. É em extensões como estas que os porcos pretos ibéricos passam os seus dias. Nos meses em que há bolota, esse é o seu alimento exclusivo. Após alguns anos, o presunto ibérico de bolota, jamón, chegará às mais diversas mesas. Para quem tenha esse interesse específico, é possível visitar todas as fases do processo. Da mesma maneira, em propriedades como Los Fresnos, da ganadaria de Luís Terrón, é possível fazer incursões por estes terrenos e, ao vivo, ver os touros no seu habitat. Esse é um silêncio que impõe respeito. A vida de pequenas povoações como Zafra oferece uma tranquilidade que limpa o espírito. Depois das grandes cidades, caminhar por essas ruas é ganhar uma nova respiração. Ou, mais ainda, quando caminhamos na aldeia de La Parra, em direção ao antigo Convento de La Parra, onde se pode passar a noite e descansar do mundo inteiro. Ou, mais ainda, quando caminhamos pelas ruas de Talega, pequena aldeia arrumada à fronteira de Portugal, numa terra que, como Olivença, foi portuguesa entre 1314 e 1801.

E de novo aqui, esta linha fina, esta ideia, com alguma coisa de um lado e alguma coisa do outro. Esta linha que separa muito pouco. Depois de atravessá-la, depois de passar tempo para lá dela, é inegável que, afinal, estamos perto de casa, estamos perto de nós próprios. Essa é uma descoberta que nunca terminará.

Agora na televisão

José Luís Peixoto é o primeiro cicerone na estreia da Volta ao Mundo em televisão. Para preparar o programa que passou todos os fins de semana de maio na RTP 3, o escritor foi acompanhado pelo videógrafo e fotógrafo Rafael Reigota, da produtora GMK (parceira neste projeto) e pelo editor da revista, Ricardo Santos. A viagem teve o apoio no terreno do Turismo da Extremadura e não teria sido possível sem a cooperação dos guias locais, empresários e restauradores e gerentes de hotéis da região. Uma palavra ainda para as marcas que estiveram presentes neste arranque: automóveis Peugeot e sapatos Rockport.

Agradecimentos:

Guia da Extremadura

Documentos: Passaporte ou Cartão de Cidadão
Fuso horário: Mais uma hora do que Portugal Continental
Idioma: Castelhano
Moeda: Euro. A maior parte dos estabelecimentos aceitam cartão de débito e crédito. As caixas de multibanco encontram-se com facilidade.
Quando ir: Esta é uma região para todas as épocas do ano, seja pela proximidade seja pela diversidade paisagística.

Ir

O ideal, dada a proximidade geográfica, é ir de automóvel ou de moto. Mérida, a capital desta região espanhola, está a 287 quilómetros de Lisboa (cerca de três horas de viagem) e a 420 quilómetros do Porto (quase quatro horas e meia de caminho).
turismoextremadura.com

Dormir

Parador de Plasencia
O hotel está inserido no impressionante Convento de Santo Domingo, construído no século xv. É um dos monumentos a não perder em Plasencia, com as suas impressionantes paredes de pedra, tetos trabalhados e estilo gótico.

Plaza San Vicente Ferrer
Tel.: +34 927 425 870
Quarto duplo a partir de 115 euros por noite com pequeno-almoço.
parador.es

Parador de Cáceres
O centro histórico de Cáceres e Património da Humanidade e parece saído de um filme de época. E é entre esse património que descobrimos um palácio renascentista reabilitado de forma excelente com um jardim que convida ao sossego. Está lado a lado com igrejas, muralhas e outros palácios que nos fazem sonhar. Serviço inatacável.

Calle Ancha, 6
Tel.: +34 924 211 759
Quarto duplo a partir de 140 euros por noite com pequeno-almoço.
parador.es

Parador de Mérida
Na capital da Extremadura, opte por ficar no centro da cidade. Este antigo convento do século XVIII foi construído sobre o que sobrou de um templo romano dedicado à Concórdia de Augusto. O serviço pode ter algumas falhas, mas a localização é única e evita o recurso ao automóvel.

Calle Almendralejo, 56
Tel.: +34 924 313 800
Quarto duplo a partir de 90 euros por noite com pequeno-almoço.
paador.es

Palácio Conde de La Corte
Zafra é conhecida como a pequena Sevilha, mas o seu encanto vai muito para lá desse apelido. Este hotel de charme é uma das razões para visitar Zafra, tal a qualidade da oferta.

Plaza de Pilar Redondo, 2
Tel.: +34 924 563 311
Quarto duplo a partir de 100 euros por noite com pequeno-almoço.
vivespacio.com

Comer

Hotel Balneario del Jerte
Espaço moderno de bem-estar muito procurado na região do vale do Jerte. Tem opção de buffet e restaurante à carta com destaque para os produtos regionais.

Carretera Nacional 110, Km 383
Tel.: +34 927 633 000
Preço médio: 20 euros
balneariovalledeljerte.com

Palácio Carvajal Girón
Funciona primeiramente como hotel, mas é uma das boas ofertas gastronómicas de Plasencia. Cozinha moderna e cuidada num espaço onde a decoração moderna surpreende pelo bom gosto.
Plaza Ansano, 1 – Plasencia
Tel.: +34 927 426 326
Preço médio: 25 euros
palaciocarvajalgiron.com

Atrio
É o restaurante mais estrelado (Michelin) da Extremadura. Tem duas estrelas, funciona como Relais & Chateaux e é um desafio para quem aprecia a nova gastronomia espanhola sem esquecer a tradição dos produtos regionais. É uma experiência inesquecível para todos os sentidos.

Plaza de San Mateo, 1 – Cáceres
Tel.: +34 927 242 928
Preço médio: 150 EUROS
restauranteatrio.com

Rex Numitor
Espaço dedicado às boas carnes da Extremadura, no centro da capital da Extremadura
Calle Castelar, 1 – Mérida
Tel.: +34 609 586 441
Preço médio: 20 euros
facebook.com

Convento de La Parra
Funciona como hospedaria e restaurante e é o local ideal para quem se quer desligar do mundo. Queijos, enchidos e carnes da região estão aqui bem representados. O pátio quase que nos obriga a uma sesta.

Calle Santa Maria, 16 – La Parra
Tel.: +34 924 682 692
Preço médio: 25 euros
vivedespacio.com

Barbacana
Faz parte de um hotel, está aberto ao público e é uma das boas sugestões na pequena mas interessante localidade de Zafra.

Calle de López Asme, 30 – Zafra
Tel.: +34 924 554 100
Preço médio: 20 euros
hotelhuertahonda.com

A não perder

Parque Nacional Monfrague
Tem quase 18 mil hectares de extensão e por ele corre o Tejo e o seu afluente, o Tiétar. A comunidade de abutres é visível a olho nu junto ao Salto del Gitano, bem como as sempre raras cegonhas-negras.
parquedemonfrague.com

Real Mosteiro de Guadalupe
É de visita obrigatória na Extremadura. Descubra a Capela de San Martín, os museus de telas bordadas, de escultura e de pintura, entre muitos outros pontos de interesse.
monasterioguadalupe.com

Infos

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Oficina Extremadura Turismo
Avenida de Las Comunidades – Mérida
Tel.: +34 924 332 187
gpex.es
turismoextremadura.com

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Texto de José Luís Peixoto - Fotografias de Rafael Reigota/GMK, Diana Quintela e Gonçalo Villaverde