Teresa e Tiago eram advogados, tinham emprego fixo, salário certo. Decidiram trocar tudo por onze meses de viagem, da Argentina aos EUA. Tiago trocou o Direito pela fotografia e Teresa passou das leis para a escrita. Do percurso, resultou um blogue e muitas histórias para contar.

Antes da grande viagem, Teresa Pedrosa e Tiago Fernandez eram advogados. Ela trabalhava há nove anos no mesmo escritório, ele há seis. Conheceram-se na Faculdade de Direito, em Lisboa, começaram a namorar no terceiro ano do curso e viajam juntos desde então. Primeiro foi o Interrail pela Europa, depois veio o resto do mundo. Passavam o ano à espera do mês de agosto, o único em que conseguiam três semanas sem trabalhar. Nos onze meses que sobravam, faziam contas à vida. A prioridade era poupar o mais possível, o que faltasse até ao próximo destino.

Mas, no início de 2013, algo mudou. Uma espécie de crise de meia-idade antecipada – aos 36 anos, contam a rir – que os fez ponderar em outros caminhos. Não sabem dizer como começou. Entreolham-se, um à espera que o outro avance com uma explicação. É Teresa quem arrisca: «Havia um certo cansaço no trabalho. Era muito stressante. E o gosto pelas viagens crescia, três semanas começava a ser muito pouco.» Para ajudar, Tiago estava a frequentar um curso de Fotografia e surgira-lhe a ideia para um projeto específico: fotografar ao longo de estradas, explorando em imagens o conceito de road trip. Passado pouco tempo, estavam a debater a possibilidade de andarem três meses a fotografar pelas estradas dos Estados Unidos da América.

Perceberam que não iam conseguir licença sem vencimento e despedirem-se passou a ser uma hipótese. Mas, «se era para desistir dos trabalhos, três meses apenas nos EUA pareceu-nos curto», diz Tiago. «Conhecíamos bocadinhos da América do Sul, que também nos interessavam. E se nos íamos despedir, o limite temporal era vago, só tínhamos de nos manter dentro do orçamento e garantir que pelo menos três meses da viagem eram na América do Norte. A ideia original era ficar oito meses, acabámos por conseguir esticar para os onze», resume. «A decisão foi um risco, claro», acrescenta Teresa. «Mas não foi completamente impulsiva. Tomámos consciência de que, afinal, havia uma insatisfação interior.»

O plano começou a ser delineado em fevereiro. Trabalharam até setembro, já focados na viagem, a poupar em tudo. Partiram em outubro, hostel marcado em Buenos Aires. Na mochila, além do equipamento fotográfico, coube o livro de Fernando Pessoa com o poema Horizonte, cujo verso deu nome ao blog que começaram um mês antes de partir, Distância Imprecisa (www. distanciaimprecisa.com).

«A expressão é adequada porque viajar faz parte de nós e sentimo–nos em casa mesmo longe da nossa zona de conforto. A distância torna-se imprecisa, como uma névoa», explica Teresa.

Foi pelo blogue – onde relatam pormenores do percurso e oferecem dicas a quem lhes queira seguir o exemplo – que conseguiram entrar na zona reservada à imprensa do Carnaval de Barranquilla, na Colômbia, o país que foi uma das maiores surpresas de toda a viagem. Julgaram–no inseguro, a evitar. Afinal, Colômbia não é só guerrilha, «é organizada, espetacular!». Passaram ainda pela Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e, finalmente, os Estados Unidos da América, onde alugaram um carro que lhes permitiu liberdade total para fotografar: fizeram a célebre Route 66, juntaram-se a um motard que ia para Sturgis, para uma das maiores concentrações de motas de todo o mundo, espantaram-se com o isolamento das comunidades amish e até com a delicadeza dos texanos.

Onze meses, onze países. A aventura de Teresa e Tiago passou também por 28 estados dos EUA. Uma viagem que não se esquece.

Passaram por 28 estados. «Quem vai só a Nova Iorque, Chicago ou LA não tem ideia da América profunda», salienta Teresa. Tiago assegura que os norte-americanos são tão individualistas quanto generosos: além das fotografias – que agora prometem mostrar em exposição – dos EUA trouxeram a certeza de que os filmes de Hollywood não fazem justiça à amabilidade e curiosidade dos locais.

Da América Central e do Sul, dizem que falar espanhol os ajudou a quebrar o gelo junto dos grupos mais reservados. Em Chichicastenango, na Guatemala, uma família deixou-os assistir a um ritual maia de celebração da vida, que faziam num cemitério. «Foi uma experiência muito intensa». Nunca quiseram colocar-se do lado de fora, como quem olha para a realidade através de uma montra, e mergulharam a fundo na aparente excentricidade sul-americana. Quanto às dificuldades, juram que foi uma viagem sin apuros, para usar uma das expressões que aprenderam e a que mais acharam graça. A parte pior, dizem, foram as viagens de autocarro nas sinuosas estradas bolivianas. Como casal, geriram sem grandes dramas o facto de estarem juntos 24 horas por dia e nada mudou na relação. Mas voltaram diferentes, cada um à sua maneira: Tiago é mais fotógrafo do que advogado. E Teresa decidiu que, dentro da advocacia, há de trabalhar em direitos humanos.


Nota: A entrevista a Teresa e Tiago foi publicada na edição de fevereiro de 2015 (n.º 244), pelo que decidimos recuperá-la e partilhá-la com os nossos leitores.

 

Texto de Bárbara Cruz - Fotografias de Tiago Fernandez