Quase sempre olhada com desconfiança em termos turísticos, a capital moçambicana pode (e deve) ser mais do que um novo eldorado para os portugueses. Ou uma mera porta de entrada para quem visita as praias do país. É uma cidade de contrastes, cheia de vida e de ritmo. Maputo não precisa de uma segunda oportunidade. Apenas de uma primeira visita.

As bancas de madeira e os alguidares coloridos estão carregados de peixe e marisco, entre eles o famoso camarão de Moçambique. Um pouco mais atrás há um espaço com grelha, cadeiras e mesas, para comer na hora sem que o sabor e a frescura se percam. Cruzamo-nos com um ou outro estrangeiro, sobretudo expatriados – mão-de-obra qualificada à procura de melhores condições de vida num país em que o dinheiro não chega a todos, mas onde há muito capital para investir –, turistas é que nem vê-los.

Será esta ausência de turistas consequência das fracas condições de higiene tantas vezes associadas aos mercados africanos? «O novo mercado do peixe já está construído. Dentro de poucos dias este vai desaparecer», diz Reginaldo Sousa, supervisor da agência Novo Tours, que se ofereceu para nos mostrar a cidade. Uma obra orçada em mais de 800 mil euros (com o apoio de capitais japoneses), localizada na Avenida Marginal, em direção à Costa do Sol, área que tem vindo a ser qualificada.

Saímos do Mercado do Peixe e vamos para o Mercado Central, na Baixa de Maputo. Um edifício colonial, datado de 1901, também ele requalificado recentemente. Mais uma vez as bancas estão exemplarmente limpas e organizadas. Também há peixe e fruta e legumes e especiarias, mas turistas… nem vê-los. Poucos minutos mais tarde, na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo (FEIMA), um espaço a céu aberto inaugurado em 2010, o cenário repete-se. Dezenas de vendedores, centenas de quadros, artigos de bijuteria, esculturas de ébano, pedra de sabão e sândalo, as coloridas capulanas (pano colorido que as mulheres utilizam como saia ou mesmo para cobrir o tronco ou a cabeça) e ainda um restaurante de comida moçambicana gerido por um italiano que se apaixonou pelo país, mas turistas, mais uma vez…

Será uma coincidência? Não é uma coincidência, naturalmente. Reginaldo contextualiza. «Quase ninguém vem de férias para Maputo. Trabalhamos sobretudo com empresas e gente de negócios. Ou com grupos que vêm explorar as praias do país e aproveitam um dia ou dois para conhecer a capital. Estamos a tentar mudar essa realidade, mas não é fácil», conclui.

O oceano Índico, o sorriso das crianças, a omnipresença da música… tudo isto é Maputo, tudo é África.

O defeito não está em Maputo. Quase ninguém vai de férias a Maputo, como quase ninguém vai de férias para Nairóbi, (no Quénia), Dodoma (na Tanzânia) ou Gaborone (no Botswana) apenas para citar algumas capitais africanas cujos países são grandes destinos turísticos, mas em que as cidades maiores são, por norma, ignoradas. Precisamente o contrário do mundo ocidental. Mudar esta realidade não será fácil, até porque a estes destinos está quase sempre associada uma aura de caos e alguma insegurança, mas não é impossível, bem pelo contrário. Pelo menos no caso de Maputo.

Melancolia africana

Comecemos pela segurança, esse bicho papão. É verdade que esta não será a capital mais segura do mundo, de vez em quando continuam a chegar notícias de raptos (por norma assaltos cirúrgicos, a empresários bem posicionados) e são bem visíveis as grades, o arame farpado e os sistemas de vigilância em todos os prédios e vivendas mais modernos. Ainda assim, são manifestamente infundados os relatos de uma cidade perigosa para o turismo. Passeamos a pé em vários bairros do centro (com e sem guia), sempre com total à-vontade. Inclusive durante a noite.

E será que tem motivos de interesse suficientes para uma visita? Sem dúvida. A antiga Lourenço Marques mudou de nome, mas, apesar dos seus altos e baixos, manteve a aura e a beleza. É claro que ninguém fará mais de 15 mil quilómetros desde Portugal apenas para passar um fim de semana na cidade, mas estando no país seria uma pena não explorar a cidade. Ou começar a explorar o país precisamente por aqui. Mesmo que as águas que se estendem ali à frente não sejam propriamante convidativas. O que não falta são praias de sonho em Moçambique, o mergulho pode esperar.

O tão (mal) afamado caos das capitais africanas é outra das surpresas. Não há caos, pelo menos no centro. Há movimento, ritmo, tráfego, às vezes confusão, algum lixo, há uma cidade onde grandes torres empresariais e um sem-número de empreendimentos hoteleiros construídos pelos chineses convivem lado a lado com edifícios coloniais que parecem clamar por requalificação, mas também uma surpreendente paz. Uma melancolia que atravessa a cidade em direção ao Índico e nos arrasta com ela. A inexplicável força africana.

Somos conquistados antes que percebamos ao certo a razão. Locais como a antiga Estação Central de Caminhos de Ferro, já considerada como uma das mais bonitas do mundo, ajudam a perceber este fenómeno. Um edifício (de 1916) projetado por um grupo de arquitetos portugueses cujo autoria da cúpula central é muitas vezes atribuída a Gustave Eiffel. Fica na Praça dos Trabalhadores, que tem no centro um grande monumento aos Mortos da Primeira Guerra Mundial. Dentro da estação, o ambiente mantém-se original e tem vindo a ser requalificado ao longo dos últimos anos. Possui mesmo um café, bar e restaurante que se tornou um dos pontos mais cosmopolitas da cidade, espaço de tertúlia e exposições e também de boémia, sobretudo ao fim de semana. A sensação de que podíamos estar em qualquer ponto do ponto do mundo, mas a certeza de que em poucos pontos do mundo teríamos um quadro com estas cores.

A herança colonial portuguesa continua presente no dia-a-dia da cidade. A sua face mais visível é a arquitetura.

Na linha, já dentro da carruagem, uma série de pessoas esperam a partida do comboio. Uma mulher aproxima-se da porta, capulana à cintura. Outra mulher, igualmente jovem, com uma criança de meses ao colo, junta-se a ela e à conversa. Têm pela frente uma viagem de cerca de dez horas. Nada que as assuste. «A gente conversa um bocadinho e quando dá por ela já chega.» Antes de partir, querem apenas matar uma curiosidade: «De que clube és?»

Memórias coloniais

É um lugar-comum, a história repete-se em Angola, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, em quase todas as antigas colónias portuguesas, mas é difícil não nos sentirmos surpreendidos. Esta sensação de estarmos em fusos horários e realidades completamente distintas, quase do outro lado do mundo e, ainda assim, rodeados de referências portuguesas. O futebol é apenas a mais imediata.

Apesar de preservar a essência africana, são cada vez mais os bares e restaurantes cosmpolitas. Esta mistura dá ainda mais vibração a Maputo.

Não vale a pena estar com meias-palavras: que não venha para aqui quem quiser desligar por completo de Portugal e dos portugueses. Cruzamo-nos com eles (connosco) em todo lado, a qualquer hora, até nos hotéis de luxo. Ou sobretudo em hotéis de luxo. Como o Polana, a unidade de referência da cidade, um dos mais distintos hotéis urbanos de África, rezam as crónicas. Não é difícil perceber porquê. Um magnífico edifício construído em 1922, com 142 quartos, ambiente clássico e serviço de eleição onde ficam alojados políticos, monarcas e homens de negócios sempre que visitam Maputo. Tem a melhor piscina da cidade. A piscina onde muitos portugueses passam os seus finais de tarde e finais de semana. O mesmo espaço onde demos por nós a assistir ao Mozambique Fashion Week, um desfile em que a modelo Cláudia Vieira foi a principal estrela e Mikaela Oliveira e Miguel Vieira, dois dos estilistas convidados.

Um legado presente em todo o lado, até numa simples conversa de jardim. Foi num deles que nos cruzámos com Albino, enquanto fotografávamos, lá em baixo, debruçado sobre o Índico, o Clube Naval de Maputo, um edifício colonial (mais um) que tem conseguido manter-se ativo ao longo do último século e possui desde há cerca de três anos um sushi bar. Albino, na casa dos 60 anos, vive nos subúrbios, mas todos os dias vai até ao centro tocar guitarra. Ou ler um livro. Neste caso A Caverna, de José Saramago. «História do Cerco de Lisboa, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio sobre a Cegueira, já li quase tudo. Nem sempre é fácil, mas gosto muito.» Depois de nos sugerir a leitura de Ungulani Ba Ka Khosa, escritor moçambicano cujo romance Ualalapi foi considerado como um dos cem melhores livros africanos do século XX, e falarmos alguns minutos sobre o passado e o futuro do país, Albino fecha a obra de Saramago e abre definitivamente o livro, tocando algumas músicas do seu repertório. Um repertório que vai do blues, ao rock, passando pelos ritmos africanos. Pouco tempo depois apanharia uma chapa de volta para o Zimpeto, bairro por onde passaríamos no dia seguinte, rumo à praia de Macaneta, situada a menos de trinta quilómetros da capital. Não saímos da capital porque Maputo saiba a pouco, bem pelo contrário, mas porque estando aqui é quase impossível não apanhar o ritmo moçambicano e, tal como eles, fugir em direção à praia mais próxima assim que chega o fim de semana.

Com a população a rodar um milhão de habitantes, Maputo está longe de ser uma capital caótica. Tem escala e dimensão humana.

O ideal talvez seja alugar um carro. Ou negociar com um taxista, como foi o nosso caso. Uma viagem de cerca de 45 minutos com direito a travessia de batelão sobre o rio Incomati, já que a praia fica localizada numa península. Estão a construir uma ponte e dentro em breve haverá, com toda a certeza, mais movimento. Para já é toda uma experiência tipicamente africana rumo a um pequeno oásis. Mesmo que algumas pessoas insistam em dizer que as areias de Maçaneta não se comparam às de Pemba, Tofo ou Bazaruto, alguns dos postais perfeitos de um país que tem cerca de 2500 quilómetros de costa. «Maputo não é bem Moçambique», diz-nos um português com que nos cruzamos o rio. «Se gostaram da cidade, imaginem o resto do país.»

Nenhuma capital é o país que representa. Ainda assim, quantas capitais mundiais não dariam tudo por ter a beleza de Maputo e uma praia destas a trinta minutos de distância?


Guia de Maputo

Moeda: Metical (0,01725 euros)
Fuso horário: GMT +2
Idioma: Português
Documentos: Passaporte válido e visto. Deve ser pedido na Embaixada, custa 70 euros.
Quando ir: de maio a novembro talvez seja a altura ideal.
Saúde: É aconselhável a vacina contra a febre amarela e a profiláxia da malária.

Ir

Moçambique tem desde há uns meses uma nova ponte aérea com a Europa. Uma ligação feita através da Turkish Airlines (turkishairlines. com), companhia através da qual a Volta ao Mundo voou. Trajeto entre Istambul e Maputo com escala em Joanesburgo. Bilhetes de ida e volta a partir de 832 euros. Conheça a cidade e o país com a Novo Tours (novotours.com).

Dormir

Hotel Cardoso
Dizem que tem o mais bonito pôr do Sol de Maputo. E talvez não seja exagero. Ainda que mais modesto do que o Hotel Polana, é uma das referências da cidade. Decoração simples e serviço eficiente, onde nada falta. Afinal está no ativo desde 1920. Especial destaque para o serviço de buffet do restaurante, com sabores um pouco de todo o mundo. Preço por noite em quarto duplo a partir de 87 euros.
cardoso-hotel.com

Polana Serena Hotel
Pode não ter o melhor pôr do Sol da cidade, mas tem, sem dúvida, a melhor piscina. E o melhor serviço. O facto de fazer parte da cadeia Serena, um dos grandes grupo hoteleiros mundiais, é demonstrativo da sua qualidade. Construído em 1922, continua a manter intacto o charme e a classe. Tem 142 quartos, spa com piscina interior, sauna e jacuzzi aberto a todos os hóspedese três restaurantes, que oferecem desde a gastronomia francesa ao sushi.
serenahotels.com/serenapolana

Comer

A oferta é extensa e variada. Comida contemporânea, indiana, moçambicana, portuguesa, chinesa, há de tudo um pouco. E até grega, como é o caso do restaurante Dhow (dhow.co.mz). Um local com vista deslumbrante para Índico, que funciona também como loja de decoração, joalheria e galeria de arte. Não se pense, contudo, que é um local pretensioso ou com tiques de novo-riquismo. Bem pelo contrário. É descontraído e cosmopolita no bom e verdadeiro sentido da palavra. Mas, estando em África, nada como experimentar a gastronomia local. A cozinha moçambicana tem muito e bom peixe, normalmente acompanhado de farinha de milho, arroz ou mandioca. Já a carne, por norma, é servida com feijão, doce de mandioca, castanha de caju, coco ou batata. Não tenha medo de experimentar, de comer «na rua». A antiga feira popular, um espaço tão semiabandonado quanto encantador, é uma excelente opção. Há vários restaurantes à disposição, quase só frequentados por moçambicanos. O táxi espera na rua, se for caso disso.

Visitar

Mercado Central
É o mais antigo e mais bonito mercado da cidade, edifício colonial projetado em 1901. Foi recentemente qualificado.

Novo Mercado do Peixe
Foi inaugurado no início do ano, na Avenida Marginal, a dois passos do mar. Tem melhores condições, mas a qualidade e diversidade do peixe é a de sempre.

Centro Cultural Franco-Moçambicano
Um polo cultural com sotaque francês e aura contemporânea, na Praça da Independência. Tem salas de espetáculos, exposições, biblioteca. Também se petisca.

Casa Elefante
Quem quiser comprar uma capulana, este é o sítio ideal. Fica junto ao Mercado Central, na Avenida 25 de Setembro.

FEIMA – Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo
Aqui há capulanas, centenas de quadros, bijuteria, esculturas de ébano, pedra de sabão e sândalo. Um espaço bem organizado, ideal para quem quiser levar uma recordação do país. Regateie.

Estação Central dos Caminhos de Ferro
Um dos edifícios incontornáveis da capital. Pela beleza arquitetónica, mas também pelo cosmopolita café, bar e restaurante. Ao fim de semana a festa é garantida.

Núcleo de arte
Espaço cultural e também de boémia. Galeria e bar frequentado por todo o tipo de pessoas. Ao domingo à noite há música ao vivo.

Associação dos Músicos Moçambicanos
Música moçambicana e bons petiscos a acompanhar.

Casa de Ferro
Dizem que foi desenhada por Gustave Eiffel. mas terá saído de um dos seus alunos. Estranha casa de ferro, prefabricada na Bélgica, encomendada pelo então governador-geral para servir de residência. Algo que nunca chegou a acontecer.

Praça da Independência
É onde fica a Casa de Ferro. Mas também a Catedral de Maputo (de 1944), o edifício do Conselho Municipal de Maputo (inaugurado em 1947) e uma estátua de Samora Machel – ali colocada em 2011, aquando dos 25 anosda sua morte.

Texto de João Ferreira Oliveira - Fotografias de Artur Machado/Global Imagens