Com as férias escolares começam os planos de muitas famílias para conhecer um destino de sonho. Mas, por vezes, a logística de pegar nas crianças, fazer e desfazer malas e passar pelas filas nos aeroportos tira a coragem a muitos. Uma jornalista que está a dar a volta ao mundo com a filha de 3 anos escreve sobre a experiência de viajar com crianças. Dicas que valem tanto para estas férias de verão como para passar vários meses fora de casa.

Se alguém me encontrar na rua e perguntar: «Então, e vocês lá em casa, o que têm feito?», a minha resposta será: vimos de perto a cratera de um vulcão em atividade numa ilha no Sul do Japão, subimos aos íngremes templos de Bagan, na Birmânia, atravessámos a ponte de estacas de madeira mais longa do mundo, conversámos com monges budistas, fomos a um espetáculo de música rock durante o Festival de Comédia em Melbourne, saltámos num campo de cangurus, dormimos numa tenda debaixo de eucaliptos cheios de coalas na Great Ocean Road, caminhámos quilómetros em desfiladeiros e em trilhos sagrados para os aborígenes australianos, vimos crocodilos no Parque Nacional de Kakadu e mergulhámos com tartarugas e tubarões bebés na Grande Barreira de Coral.

Se o meu interlocutor fizer um ar espantado é apenas porque não sabe que no final do ano passado comunicámos à família e aos amigos que iríamos realizar um sonho antigo e dar a volta ao mundo ao longo de vários meses com a nossa filha de 3 anos e meio. Nessa altura ouvimos de tudo, desde palavras de incentivo a desabafos de «inveja boa», mas também várias exclamações desanimadoras: «Vocês são malucos!». Geralmente vinham acompanhadas de justificações de que é cansativo para a miúda e para nós, que ela não iria aproveitar nada, nem nós. Ainda assim, fomos.

Partimos de Lisboa no final de Fevereiro e, neste momento, já passámos por Japão, Birmânia, Singapura e Austrália. Se tudo correr como previsto, seguiremos para a Nova Zelândia, Fiji, costa leste dos Estados Unidos, Peru e Bolívia, antes de regressar a Portugal.

Releio os parágrafos acima e, confesso, fico cansada com o que fizemos em pouco mais de dois meses, mas viajar com crianças é muito mais simples – e recompensador para todos – do que à partida podemos supor. Não acredita?

A cada família a sua viagem

«Viajar em família é uma experiência enriquecedora para pais e filhos: pela descoberta de novas culturas, novos hábitos, novas gastronomias. Para as crianças em particular traduz-se numa oportunidade de serem expostas a novos lugares, pessoas diferentes que falam uma língua que não conhecem, associada a uma quebra das rotinas diárias familiares que, também, acaba por ser uma situação apreciada pela novidade que encerra.» Quem o diz é Carla Martins, professora auxiliar da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, traduzindo uma ideia que quase todos temos: viajar é bom. Mas como fazê-lo com pequenos seres que não pediram para sair de casa?

O ponto de partida para este artigo tem de ser apenas um: cada família tem as suas dinâmicas específicas e existem modos de viajar para todos os gostos. Há as famílias que não abdicam de ficar em resorts com um tranquilo «Tudo Incluído», as que preferem uma mochila às costas, as que vão de barco pelo oceano fora, as que vão de caravana ou bicicleta, as que não se aventuram em viagens de avião e preferem destinos próximos.

Os familiares nem sempre compreendem que os pais levem as crianças atrás, mas o risco (calculado) faz parte da viagem da vida.

Nem todos os estilos de viagem encaixam na forma de estar familiar de cada um e, por isso, é preciso escolher o que melhor se adequa aos nossos hábitos e preferências. O mesmo se aplica à escolha do sítio para onde se vai. «Certamente que quando se viaja com crianças é importante avaliar se o destino será o mais adequado para as idades em causa. Com crianças mais pequenas, por exemplo, city breaks em Portugal ou até mesmo na Europa poderão ser mais indicados do que viagens para o Oriente que implicam muitas horas de avião e adaptação a um clima e gastronomia bastante distintos do nosso», resume a psicóloga Carla Martins.

1.ª regra
Não substime, nunca, os seus filhos

Quando andava em preparativos para esta viagem de volta ao mundo e contava sobre os nossos planos, ouvi inúmeras amigas minhas dizer: «Eu gostava tanto… mas isso com o meu filho não dava!» Aqui vai uma regra de ouro: não subestimar, nunca, a capacidade de adaptação dos nossos filhos. As crianças surpreendem-nos sempre e dou um exemplo. Em Tóquio alugámos um apartamento muito barato na periferia. Era mesmo muito barato e entrava-se por um beco escuro, o prédio cheirava a bafio e o vizinho do lado não parava de tossir cavernosamente. O meu desânimo era completo mas foi interrompido pelo espírito positivo da minha filha que exclamou: «Uau, mas que linda casinha! Adoro esta casinha nova.»

Esta frase tem sido um clássico da viagem e seja numa tenda, num apartamento cinco estrelas ou num quarto esconso, a reação é sempre a mesma e desarmante. O que me leva a pensar que somos nós, adultos, que colocámos as principais barreiras e foi preciso a minha filha, inadvertidamente, chamar-me à razão como se me dissesse: «Ei, estás a dar a volta ao mundo, estás a cumprir o teu sonho, estás numa das capitais mais vibrantes do mundo… Não te queixes, são só algumas noites num quarto barato!». Ver um metro de gente caminhar durante vários quilómetros debaixo do sol ao longo de um desfiladeiro em pleno deserto australiano foi também uma supresa e uma alegria que trouxe uma certeza: com a motivação certa, e os cuidados de segurança necessários, os mais pequenos são capazes de tudo.

Crianças aprendem a viver com menos

Um outro fator muito positivo desta coisa das viagens é que as crianças aprendem a viver com muito menos. Em casa a minha filha, a Mia, tem dezenas de brinquedos, uma parafernália infinita de bonecos variados e jogos de todo o género. Tudo isso ficou longe e, na verdade, ela nem se lembra. Está entretida com asoutras crianças que vai conhecendo na viagem e, quando está sozinha, aprende a brincar apenas com pedras, pauzinhos, conchas e a criar amigos imaginários. Bom, verdade seja dita, o cenário nem sempre é assim tão idílico: o tablet faz milagres especialmente durante longas horas de viagem no avião, automóvel, barco ou comboio. Mas para aquela pergunta fatídica que enerva qualquer educador: «Pai! Mãe! E agora o que é que eu faço?», a Mia tem encontrado a sua própria resposta e com as viagens tem aprendido a lidar – e a usufruir – do seu próprio tédio.

A escola é a principal fonte de aprendizagem das crianças, mas em viagem também se aprendem muitas lições. E a viver com menos.

Viajar é uma aprendizagem por si só, confere um maior espírito prático, fá-los crescer mais rapidamente (para o bem e para o mal), desenvolve competências sociais, faz falar novos idiomas. Diariamente a Mia vem ter comigo como uma lista de palavras que quer saber como se diz em inglês e já é capaz de entender o básico quando falam com ela. Por isso acredito que, dependendo da idade da criança ou jovem, as viagens são um manancial inesgotável dessa matéria chamada conhecimento do mundo. É possível aprender sobre arte e história em museus ou lugares antigos, aprender matemática numa ida ao mercado, estudar mapas para aprender geografia, aprender idiomas com amigos que se encontram num parque de campismo. Viajar é aprender. E é com isto em mente que se torna mais comum, especialmente no estrangeiro, haver famílias que optam por tirar os filhos da escola e chamam para si a responsabilidade de os ensinar durante um ano a viajar.

«Quanto a fazer o chamado gap year em família para idades mais precoces – não tendo dúvidas da experiência muito significativa que será para as crianças, considero que acaba por privar, ainda que temporariamente, as crianças de estar em dois dos mais importantes contextos de desenvolvimento na infância e adolescência, a escola e o seu grupo de pares», defende Carla Martins sobre este tópico em particular.

… e os adultos aprendem a viver mais devagar

Quanta excitação existia em todos aqueles que, quando adolescentes ou no início da idade adulta, partiam num InterRail pela Europa ou numas férias de verão com os amigos. Mas à medida que crescemos parece que desligamos. Viajar com crianças significa reaprender a viajar. E essa aprendizagem traduz-se em viajar mais devagar.

Antes de ter uma filha o meu ritmo viajante era frenético: dias preenchidos com atividades, atrações para ver em catadupa, listas com lugares que iam sendo riscados – Check, check, check. Atualmente viajamos pausadamente, demoramo-nos nos lugares. Foi algo que aprendemos com a Mia e é um luxo, este o de aproveitar a viagem em pleno. Passamos tardes em parques infantis, em jardins, a observar o quotidiano de quem passa, a interagir com desconhecidos. Além disso, as crianças, com a sua curiosidade insaciável e as suas observações certeiras, obrigam-nos a ter um olhar fresco, a observar mais e melhor, a procurar respostas, a aprender.

Uma boa preparação é essencial para uma aventura destas. Uma vez na estrada é importante relaxar e aceitar os imprevistos.

Por outro lado, as crianças fazem as outras pessoas ficar mais empáticas e generosas. Por estarmos na companhia de uma palmo e meio de gente muitos são aqueles que metem conversa connosco e nos fazem sentir inseridos. Na periferia de Sydney, por exemplo, ficámos instalados num quarto em casa de uma família com quatro filhos pequenos e acabámos a frequentar as aulas de natação infantil na piscina local e a almoçar no restaurante mais frequentado do bairro. Como verdadeiros locais. Resumindo: conhecer o mundo pela perspetiva de uma criança é um privilégio.

Fortalecer laços, testar limites

Viajar fortalece as relações familiares mas, sirene de alerta, também testa os limites. Partilhar todo o tempo e o mesmo espaço durante 24 horas por dia, sete dias por semana pode ser bastante extenuante. Para contrariar isso mesmo, é aconselhável, se possível, tirar momentos para os adultos estarem sozinhos ou fazendo turnos a cuidar dos filhos. Enquanto um vai ao cinema ou ao parque com a prole, o outro pode ir a um museu, fazer uma caminhada mais prolongada ou ficar só num café. A determinado ponto desta nossa longa viagem consideramos, por exemplo, contratar uma babysitter ou aproveitar as comodidades de um resort com Kids Club para ter um tempo só para crescidos. Todos precisamos de um intervalo uns dos outros.

Por outro lado, os laços entre pessoas intensificam-se com o ganhar de memórias comuns. Sentimos que ao mostrar o mundo à Mia estamos a viver aventuras, emoções, a desfrutar em pleno da natureza, a ver o nascer e o pôr do Sol, as estrelas no céu, a chuva a cair sobre nós numa praia tropical deserta. Para quem hesita entre viajar ou não para o seu destino de sonho com os filhos porque tem dúvidas sobre a forma como vai correr, seja por uma semana, um mês ou um ano, pode ter a certeza de que nunca vai haver uma «altura ideal» para fazer algo desse género.

Por mais difícil que possa parecer passar por aviões, bagagens, hotéis, mais transportes, horários trocados, sestas que não se cumprem, refeições que deixam a desejar, dificilmente haverá lugar para o arrependimento no regresso. Como conclui a psicóloga Carla Martins: «Só posso encorajar os pais a proporcionar aos seus filhos a possibilidade de viajarem juntos, em Portugal ou fora, experiência que, pela sua riqueza, cria valiosas memórias colectivas.» Dito isto, se tem mesmo essa vontade o melhor é fazer contas à vida, marcar uma data e começar a planear. Boas viagens!

Poderá saber mais sobre a viagem de volta ao mundo da jornalista em www.hotelglobo.net

Texto e Fotografias de Joana Simões Piedade