Sim, é possível ver a Capela Sistina e Rafael quase sem ninguém e conhecer todos os segredos dos Museus do Vaticano sem flashes e multidões. Um guia para conhecedores.

Trinta pessoas – e não 300 – a maravilhar-se com a abóbada da Sistina e Miguel Ângelo, as salas de Rafael sem visitantes, corredores e galerias sem fim repletos de arte e sem gente… Sim, é possível ver os Museus do Vaticano (quase) sem ninguém. Sim, é possível contemplar o tecto da Capela Sistina durante largos minutos, sem um guarda a mandar circular ou a dizer «silenzio» de dois em dois minutos. É possível estar nas salas de Rafael e olhar cada pormenor ou ver demoradamente, as colecções de arte egípcia, greco-etrusca ou romana. E, pelo meio, admirar Giotto, Fra Angelico, Leonardo, Caravaggio, Dalí, Roault, Chagall, Bacon, Botero ou Matisse…

Como? Durante cinco meses, todos os anos entre Maio e Outubro (excepto Agosto), os Museus do Vaticano podem ser vistos às sextas à noite, entre as 19h e as 23h. Com o bónus de podermos escutar concertos no Cortile della Pigna (ao ar livre), no Salão de Rafael ou no Museu Gregoriano-Profano. Em todos os estilos: música antiga, contemporânea, jazz… O primeiro concerto deste ano, a 6 de Maio, foi dedicado ao tango de Piazzola e Martin Palmeri.

Ao decidir abrir neste horário, a instituição pensou sobretudo nos habitantes de Roma, impossibilitados de ver os museus durante o dia por causa do trabalho, ou que desistem da ideia perante as enormes filas e a invasão diária dos turistas. Mas um turista prevenido, e que tenha essa noite disponível – mesmo sacrificando algumas colecções e espaços dos museus – só fica a ganhar se puder usufruir desta possibilidade. Basta marcar a reserva no sítio dos museus na internet: www.museivaticani.va.

Habitualmente cheias de ruído, linguajares, máquinas fotográficas, telemóveis e tablets, as salas e corredores dos museus tornam-se, com a tranquilidade da noite, mais luminosas, deixando brilhar tectos, pinturas, esculturas e espaços em todo o seu esplendor. As cores quentes do Salão Sistino arrebatam-nos. Na Galeria dos Mapas, hesita‑se entre a beleza da cartografia antiga, nos seus azuis e verdes, e o túnel de luz desenhado no tecto pelos dourados, castanhos e vermelhos dominantes. E várias janelas, abertas sobre São Pedro, permitem olhar de forma mais demorada a noite sobre a cúpula.

Um deleite na Capela Sistina

Numa visita nocturna, as surpresas maiores no Museu do Vaticano estão guardadas para a Capela Sistina e as salas de Rafael. Na Sistina, a multidão que, na véspera, enxameava a capela onde são eleitos os papas, dá agora lugar a um grupo de trinta, quarenta pessoas, que se deleita a olhar para a abóbada, o Juízo Final ou as pinturas das laterais. É assim, com a Sistina quase vazia, que se pode apreciar todo o dinamismo que se joga na abóbada – ainda mais impressionante do que o Juízo Final, se é possível estabelecer uma comparação entre duas peças geniais. Os profetas (Isaías, Daniel, Jeremias, Ezequiel…) ou as figuras mitológicas como a Sibila Délfica lançam-se sobre nós, querem tocar os visitantes, interpelam ou desconfiam.

No centro da abóbada, o dedo de Deustoca o dedo de Adão e possibilita o sopro de vida inicial – mas remete também para a ideia de redenção, da mão que se estende em favor de quem precisa de ajuda. No Juízo Final, é de novo a mão – a mão de Jesus, no centro da pintura – que fala: neste caso, é ela que estabelece a fronteira entre a bondade e o mal, entre os benditos e os condenados.

O restauro da Sistina feito no final do século XX permitiu devolver-nos o assombro da cor, mas igualmente a glorificação docorpo do Renascimento. Não só na abóbada e no Juízo Final, pintados por Miguel Ângelo, mas também nas obras das paredes laterais, da autoria de Boticelli, Perugino, Signorelli ou Pinturicchio. Aqui, contam-se, num diálogo paralelo, histórias do Antigo e do Novo Testamento.

Nas salas de Rafael, o restauro d’A Escola de Atenas ou do Triunfo da Eucaristia, dá a possibilidade ainda de remeter para algumas das grandes ideias do Renascimento italiano, enaltecendo a fé, a razão, a arte, a moral e o direito. Na obra mais conhecida do conjunto, A Escola de Atenas afirma o valor da razão, com Platão a indicar a superioridade das ideias como fonte de sabedoria e Aristóteles a recordar a importância do contacto com a realidade.

No silêncio da Sistina pode observar melhor o dinamismo da abóbada – que, visto com atenção, é ainda mais impressionante do que o Juízo Final, se é que é possível comparar ambos.

O que (não) se pode ver no Palácio Apostólico

Os Museus do Vaticano são, na realidade, um vasto conjunto de dezena e meia de colecções – ou duas dezenas, se incluirmos a Biblioteca, a Sistina, os apartamentos de Rafael ou os apartamentos Bórgia, por exemplo. Galerias, corredores, escadarias, fontes e jardins completam o espaço que se divide pelas colecções dos Museus sacro e profano, da Biblioteca, do Museu Etrusco, do Museu Egípcio ou do Museu Etnológico, as colecções de medalhística ou filatelia, a colecção de carroças e automóveis ou a Pinacoteca contemporânea.

Na realidade, os museus estão instalados em edifícios que foram já aposentos pontifícios, capelas, gabinetes de trabalho ou salas de recepção. Situados à direita da Basílica de São Pedro, junto do Palácio Apostólico, os museus tiveram o seu início quando o Papa Júlio II (1503-1513), Giuliano della Rovere,transferiu a sua colecção privada de arte para o palácio papal. Com o tempo, sucessivos papas foram ampliando os espaços e as colecções.

É precisamente o actual Palácio Apostólico e os seus corredores que hoje são mais inacessíveis a um visitante normal. Até 2013, era aqui que o Papa vivia e é aqui, ainda hoje, que funciona a Secretaria de Estado do Vaticano. O Papa Francisco não quis ficar no apartamento pontifício, preferindo residir na Casa de Santa Marta com o argumento de que precisava de pessoas à sua volta. Mas vai ali todos os domingos, para a alocução do meio‑dia, e em outras ocasiões, para determinados actos concretos.

Também aqui a arte está ao serviço da afirmação da história e da verdade cristãs. Na primeira loggia, representa-se a natureza: aves a voar, macacos ou animais fantásticos, árvores e arbustos, flores e uvas são representados com cores mediterrânicas, entre os vermelhos e os castanhos. É também no primeiro piso que se encontram a Sala Ducal e a Sala Régia. É nesta última que, ainda hoje, o Papa profere, em Janeiro, o seu discurso anual perante o Corpo Diplomático.

A segunda loggia mostra o «tempo de Deus» e terá sido pintada por Rafael e por alguns dos seus discípulos, com cenas que representam desde a criação do mundo até à vida de Jesus Cristo (com alguns episódiosa serem depois pintados por outros artistas). Rafael teria pretendido rivalizar com as obras de Miguel Ângelo na Capela Sistina. E mesmo se estamos perante grandes obras do Renascimento, o autor d’A Escola de Atenas não atinge aqui a genialidade que se vê na Capela Sistina.

Os aposentos papais, o Palácio Apostólico, permanecem fechados aos olhos do público. E têm verdadeiras relíquias.

É neste segundo piso que se pode ver uma jóia da arte contemporânea: a Capela Redemptoris Mater, inaugurada em 1999, depois de encomendada pelo Papa João Paulo II a Marko Ivan Rupnik (que também criou o painel central do altar da nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima). Um extraordinário mosaico que conjuga referências bizantinas e orientais com um jogo de luz suave, linhas, elegância e cor.

A terceira loggia pretende levar quem por ali passa até aos confins do espaço e do tempo. Um conjunto de alegorias aos vícios e às virtudes aponta para um caminho moral que se deve concretizar em espaços identificados – mostrados por 13 mapas de países e regiões europeias, acompanhados de informações sobre a realidade económica ou religiosa de cada um.

Um segredo na Basílica, outro na colunata

Conseguir chegar o mais perto possível do baldaquino (a cobertura do altar central da Basílica de São Pedro) de Bernini permite ver um pormenor: em cada uma das faces das quatro colunas, representa-se, sensivelmente à altura dos olhos, as diferentes expressões do rosto de uma mulher em trabalho de parto – desde as dores e contracções iniciais até à alegria após o nascimento da criança.

Claro, a Basílica merece um olhar demorado, mas aí não há como evitar grandes grupos de visitantes (a não ser que se vá cedo ou mais ao final do dia); os túmulos dos papas João XXIII e João Paulo II são muito procurados, a Pietá de Miguel Ângelo espera-nos logo à entrada e a cripta alberga dezenas de túmulos de papas e várias capelas com obras de arte.

Também a colunata exterior, igualmente da autoria de Bernini, guarda um pequenosegredo: como os dois braços não estão em círculo, é preciso procurar no chão da praça as duas marcas que indicam o centro de cada um dos lados da colunata: ali é possível ver cada grupo de quatro colunas alinhado, dando a impressão de que apenas existe uma coluna.

Nas colunas do baldaquino de Bernini, quando vistas mais de perto, percebem-se as diferentes expressões do rosto de uma mulher num parto.

Por causa de um túmulo

É por causa de um túmulo que o Vaticano é o que é. Segundo a tradição, Pedro, o apóstolo que Jesus teria indicado como líder do seugrupo de seguidores, teria sido crucificado e sepultado na colina vaticana. Mas aquele que será o verdadeiro túmulo de São Pedro esteve escondido 16 séculos, enterrado primeiro pela basílica constantiniana medieval e, depois, pela actual basílica renascentista. Em 1940, umas obras na cripta da basílica para colocar o jazigo do Papa Pio XI revelaram uma cavidade que albergava um monumento funerário. Para vários especialistas, e para o Vaticano, aquele é de facto o túmulo de Pedro. Hoje, é possível visitar a galeria de escavações, bastando aceder ao endereço www.scavi.va e pagar o bilhete de 13 euros. No piso superior da basílica, sob o baldaquino de Bernini, há uma escada que conduz a um altar em forma de vitrina. Dentro, uma arca é identificada como «túmulo de São Pedro».

De facto, o verdadeiro túmulo estará uns metros mais abaixo, e não visível dali, mas naquela direcção exacta e sob o centrodo altar central da basílica. Margherita Guarducci, uma epigrafista que estudou as inscrições da galeria, escreve, no Guida ai Sotterranei della Basilica Vaticana: «A impressionante sobreposição dos monumentos, no mesmíssimo lugar, sobre o antigo túmulo de Pedro, demonstra, portanto, a ininterrupta continuidade de um culto que desde a idade apostólica se foi afirmando até aos nossos dias.» Quando foi construído o túmulo, a colina vaticana, perto do Tibre – onde se situava o circo de Caio Calígula (37-41), local da morte de muitos cristãos – estava a ser também usada como necrópole.

À volta do túmulo, nasceu um «triunfo », pequeno monumento funerário depois suportado por um muro de protecção. Em volta, outros 22 túmulos (ou o que resta deles) revelam que haveria vários cristãos ali sepultados: «Dorme em paz», diz uma das legendas, tipicamente cristãs, da época. Pinturas a fresco representam um pescador, a eucaristia e Jesus Cristo como Sol. E uma outra legenda pede a Pedro que interceda «pelos santos homens cristãos, enterrados junto do [teu] corpo».

Os jardins que são metade do Vaticano

Uma estação de comboio desactivada com marcas de bombas, fontes, um apartamentoque se diz ter sido construído como um bunker, pequenos oratórios, a residência de um Papa emérito. E, claro, muitas flores, canteiros, plantas e árvores, originárias de todas as partes do mundo. Os jardins do Vaticano incluem tudo isso, se pensarmos que são pouco mais de metade do espaço (23 dos 44 hectares) ocupado pelo território da pequena cidade-estado.

A visita aos jardins custa, ao preço normal, 32 euros e o bilhete inclui a visita aos Museus. É guiada e feita em grupo. No percurso, de cerca de duas horas, os visitantes circulam por entre uma paisagem muito marcada pelo Renascimento dos séculos XVI e XVII, período em que ali trabalharam arquitectos como Donato Bramante e Pirro Ligorio. O início da história, no entanto, está mais atrás e pode conhecer-se em livros como Gli Horti dei Papi. I Giardini Vaticani dal Medioevo al Novecento, de CampitelliAlberta, e I Giardini Vaticani, de Barlo Jr. Nik e Scaccioni Vincenzo. Em meados do século IX, o Papa Leão IV mandou edificar a agora chamada muralha leonina. Nessa altura, o Papa residia ainda na Basílica de São João de Latrão e os muros pretendiam proteger a basílica constantiniana que, no século XVI, seria destruída e substituída pela actual.

Em 1279, Nicolau III muda a residência papal para o Vaticano, mandando ampliar a muralha. Pela primeira vez, fala-se do uso agrícola dos terrenos que virão a ser os jardins, mas que ocupavam uma área muito maior e incluíam pomerium (pomar), pratellum (prado ou campo) viridarium (jardim) e horto botânico – que, em 1659, sairia de dentro das muralhas.

Nos jardins, podem ver-se as torres do que foi o primeiro Observatório Astronómico do Vaticano e da primeira antena da Rádio Vaticana. Ao cimo, a torre joanina, mandada construir por João XXIII(1958-1963) para servir de apartamento estival, é vista como um bunker destinado à protecção do Papa numa época em que a guerra nuclear era uma ameaça. E que, quase em ruína, foi recentemente objecto de reconstrução, Mas esta é apenas uma história contada e nunca confirmada…


Nota: O autor António Marujo ( Jornalista do religionline.blogspot. pt) escreve segundo a anterior norma ortográfica.
Agradecimentos a D. Carlos Azevedo, mons. José Bettencourt e padre João Campanhã pela colaboração prestada para este trabalho.

Texto de António Marujo - Fotografias ShutterStock