Duarte Barbosa
Intérprete, escritor, viajante (1480?-1545?)

De homens e mulheres que valem por dois ou três está a história cheia. Este, porém, poderá realmente ter sido três pessoas distintas. Na internet corre a teoria de que Duarte Barbosa foi, a um só tempo, viajante experimentado nas latitudes do Oriente português, capitão na armada de Magalhães e autor pioneiro na literatura de viagens em Portugal. No meio académico, porém, defende-se que esses três atributos correspondem a outros tantos homens, todos contemporâneos e de igual nome. Falemos do escritor.

Este Duarte Barbosa nasceu em Lisboa. Da sua juventude pouco se conhece. Sabe-se que terá «navegado grande parte da (…) mocidade pelas Índias descobertas em nome de el-Rei». Assim o escreveu, na «Prefação» da sua obra, Livro em que dá Relação do que Viu e Ouviu no Oriente Duarte Barbosa. Em 1500 acompanhou o seu tio Gonçalo Gil Barbosa na viagem à Índia que de caminho achou o Brasil. Por lá ficaram seis anos, tendo o tio chegado a feitor de Cochim e de Cananor. Duarte aprendeu a língua malaiala e trabalhou como intérprete. Em 1511, voltou a Cananor, com o posto de primeiroescrivão. Contudo, a relação com Afonso de Albuquerque azedou e este afastou-o do cargo.

Regressou ao reino. Com aquilo que viu em primeira mão, bem como algumas «informações dignas de fé» sobre locais onde não foi, decidiu pôr a pena ao papel e, em poucas centenas de páginas, resumir meio mundo. Do cabo de São Sebastião (Moçambique) ao mar da China, Barbosa narra com detalhe os costumes, as riquezas e a organização sociopolítica dos reinos que povoavam estes mais de 30 mil quilómetros de linha costeira. O livro foi concluído em 1516, mas o autor não chegou a vê-lo publicado: a primeira edição data de 1563. Ficou para a história, no entanto, mesmo que relativamente esquecido. É, segundo o pedagogo Augusto Reis Machado, «a primeira obra moderna que apresenta com maior veracidade e mais pormenores os costumes e as riquezas dessas longínquas regiões». E isso, bem vistas as coisas, fá-la valer por duas ou três.

Leia a cópia pública do livro aqui.

Por João Mestre - Fotografias Direitos Reservados