José Luís Peixoto crónica: «Acredito que o meu pai valorizava esse tempo, esses quilómetros que partilhávamos no carro»

Quanto falta para chegarmos?
Falta pouco, respondo aos meus filhos. E fazemos um jogo em que, à vez, pensamos em qualquer coisa e, fazendo perguntas de sim ou não, os outros tentam adivinhar. Ou contamos anedotas. Começamos por não recordar nenhuma mas, logo a seguir, vamo-nos lembrando. Estava um português, um francês, um inglês, um papagaio e o menino Zezinho. Cada anedota faz que nos lembremos de mais uma ou duas e, pouco depois, chegamos a um ponto em que temos de marcar vez para falar. As paisagens sucedem-se nas janelas. Avançamos no sentido contrário das árvores que passam por nós sem pressa. Nas viagens longas de carro, podemos analisar a distância com detalhe. Muitas vezes, imaginamos como será viver ali, naquela casa que tem roupa pendurada a secar, naquela casa que tem um quintal de laranjeiras carregadas, naquela casa que fica no cimo de um monte. Quem seríamos se fôssemos outros?

Se passar na rádio uma música que todos conhecemos, levanto o volume e tento convencê-los a cantarmos em coro. Antes, o mais novo acompanhava-me durante algumas frases; agora, fico a cantar sozinho, a falhar nas partes mais exigentes e a desistir lentamente. Vou ter de esperar que passe a adolescência. Em movimento, avançando, é um bom lugar para conversarmos. Partilhamos impressões sobre o que deixámos para trás, comparamos as expectativas acerca do que temos diante de nós. Quanto falta para chegarmos?

Falta pouco, respondia o meu pai. E continuávamos a falar de algum assunto que, agora, gostava de poder retomar. Esse era um tempo muito bom, era um tempo perfeito. Sentado, com o peito atravessado pelo cinto de segurança, não sei se dava o valor devido a essas horas em que a paisagem me parecia demasiado monótona, sobretudo quando confrontada com tudo o que imaginava acerca do lugar para onde nos dirigíamos. Eu era pequeno ou distraído, não creio que tenhamos chegado a falar sobre isso, mas acredito que o meu pai valorizava esse tempo, esses quilómetros que partilhávamos no carro.

Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Por isso, sobreponho a minha memória com o que vejo em espelhos visíveis e invisíveis, e acredito que sou capaz de perceber melhor o significado do seu rosto durante essas viagens, a maneira como dizia certas palavras e como contava certas histórias. Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Essa é uma constatação profunda dentro de mim, como se o meu pai me olhasse ainda desde esse interior. Em breve, terei a idade que ele nunca chegou a ter. Quanto falta para chegarmos?

Hoje, tenho a idade que ele tinha nesse tempo. Essa é uma constatação profunda dentro de mim, como se o meu pai me olhasse ainda desde esse interior.

Falta pouco, respondo eu com a voz do meu pai. Percebo agora que também ele sabia exatamente quanto tempo faltava para chegarmos, mas também ele preferia que não nos fixássemos apenas no destino, apenas na hora e no lugar onde chegaríamos. A impaciência era desnecessária. Tarde ou cedo, haveríamos de chegar. Essa era uma certeza. Enquanto estávamos ali tínhamos a viagem, tínhamos tudo.

Crónica de José Luís Peixoto - Fotografia Direitos Reservados