“Os livros que viajam”, uma crónica de José Luís Peixoto

Uma crónica de José Luís Peixoto. Todos os meses, nas páginas da revista Volta ao Mundo.

Crónica de José Luís Peixoto - Fotografia Direitos Reservados 09 Oct 2016

Estamos a fazer a mala. Tentamos imaginar o que vamos encontrar quando chegarmos lá. Escolhemos a roupa que vamos vestir. Vamos buscar o livro que estamos a ler, iremos continuá-lo nas horas mais tranquilas da viagem, talvez até sejamos capazes de terminá-lo. Passamos pelas prateleiras cheias da sala, do escritório ou do corredor.

Já leu estes livros todos? Essa pergunta analfabeta irrita mais do que qualquer outra. Não merece resposta. Passamos pelas prateleiras e o olhar detém-se na lombada daquele livro que queremos ler há algum tempo. Então, como por magnetismo, o olhar salta para o título daquele outro livro que nos deixou tão curiosos quando o comprámos.

Nessa hora, imaginámos vagamente a circunstância em que o haveríamos de ler. Talvez esse momento aconteça nesta viagem que vamos fazer, é bastante provável. Não é preciso muito para acumularmos uma boa carga. Os livros são pesados. Sem hipérbole, há quem garanta que são feitos de chumbo.

Numa viagem, em férias ou não, há sempre assuntos a tratar. Tem de se prestar atenção a mil detalhes. Há o lazer contemplativo, o que tem de ser visto porque se foi até lá apenas para isso, e há as obrigações, tudo o que se tem de garantir, por questão de segurança ou, simplesmente, para não nos perdermos em lugares que desconhecemos.

Passamos pelas prateleiras cheias da sala, do escritório ou do corredor. Já leu estes livros todos? Essa pergunta analfabeta irrita mais do que qualquer outra. Não merece resposta.

No último dia, quando pensamos em tudo o que fizemos, em tantas experiências novas que tivemos, parece-nos que a viagem durou mais do que o calendário afirma. No entanto, quando olhamos para a pilha de livros não lidos que levámos, parece-nos que, afinal, passou demasiado depressa. Nesse momento, talvez nos incomodem aqueles livros que fizeram a viagem de ida e se preparam para fazer a viagem de volta, intocados pela leitura, maltratados apenas pelos sapatos e frascos de perfume com que partilharam arrumação. É possível que, nesse momento, aqueles livros nos incomodem porque são pesados, porque ocupam o espaço precioso dos objetos que comprámos entretanto.

Não é justo guardarmos ressentimento em relação a esses livros que não pediram para atravessar distâncias. Ao mesmo tempo, talvez seja importante considerar que os livros não servem apenas para ser lidos, têm muito mais utilidades. Às vezes, os livros servem para a importante função de imaginarmos aquilo que encerram, servem para querermos lê-los, para termos essa possibilidade guardada no futuro. Nesse caso, os livros são como horizontes, estão lá longe, podemos observá-los com prazer e acreditamos que, um dia, cedo ou tarde, havemos de desvendá-los.

Já se sabe que os livros são viagens. Com frequência, os livros são viagens dentro de viagens. E, pode afirmar-se com segurança, todas as viagens são vida, quer sejam vividas ou apenas prometidas. Além disso, se servir de consolo, esses livros que levamos e que regressam são sinal do nosso otimismo. Acreditámos, fomos capazes de acreditar. Essa constatação deveria ser suficiente para nos fazer sorrir: olhando para o futuro, olhando para o caminho que temos à nossa frente, escolhemos o seu lado mais brilhante.