Ricardo Gomes viaja enquanto trabalha: viveu em 11 países e visitou mais de 40

Já viveu em 11 países, quase sempre a trabalhar em hotelaria de luxo. Mas quando viaja, procura o oposto: o autêntico, natural e intocado. Encontrou-o no Sara, onde já foi duas vezes e jura voltar.

Texto de Bárbara Cruz - Fotografias Direitos Reservados 14 Oct 2016

«Vai estudar um ano para o estrangeiro», dizia o poster colocado no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Ricardo Gomes, na altura com 16 anos e a morar em Carnaxide com a família, já tinha pedido para estudar na capital e «alargar horizontes»; encontrar na escola a possibilidade de um intercâmbio durante um ano letivo foi música para os seus ouvidos. Inscreveu-se e, no ano seguinte, foi para os EUA, onde viveu com uma família de acolhimento no Texas. Hoje, aos 40 anos, admite que foi esta a experiência que o moldou: no regresso, indeciso sobre o que fazer na faculdade, acabou por entrar para a Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril. Aposta certíssima, já que passou grande parte das últimas décadas a trabalhar para algumas das mais reconhecidas cadeias internacionais de hotelaria.

O gosto pelas viagens, que o fizera embarcar para o outro lado do Atlântico, não mais esmoreceu: fez Erasmus na Holanda e, na hora de voltar a Portugal, comprou uma Renault 4 em segunda mão e fez-se à estrada. Conduziu durante nove dias, parando pela Europa fora e, à chegada, mal desfez a mala, já a caminho de um estágio internacional na Itália, ao abrigo do programa Leonardo da Vinci. O mestrado fê-lo entre França e Holanda. Agarrou todas as oportunidades de estudar e se formar no estrangeiro, uma espécie de preparação para o que estava para vir: até hoje, já viveu em 11 países, fala seis línguas e só no início de 2016 se instalou em Portugal de forma «menos provisória», para ficar algum tempo.

Logo no início da carreira, depois de já estar a trabalhar num reputado hotel em Lisboa e ter sido transferido para o Algarve, quis ir para a Austrália. Conseguiu emprego e esteve lá um ano: trabalhou nove meses e tirou três para pôr a mochila às costas e dar a volta ao país com a namorada de então: em 90 noites, 80 foram passadas a acampar. Voltou para Portugal e começou a trabalhar em agências de turismo, abriu a sua própria empresa de eventos e, durante esse período, foi obrigado a acalmar em termos de deslocações. «A empresa durou três anos, até eu decidir que estava na altura de fechar, voltar à hotelaria e, claro, voltar às viagens.»

Foi em 2010. Desde esse ano, e até 2016, esteve dois anos na Argélia, três meses no Gabão, um ano e meio na Malásia, seis meses em Bali, três meses em Londres, um ano e três meses no Qatar. Enquanto trabalhava, ia viajando. Conseguiu visitar cerca de quarenta países. Mas admite que nenhum o marcou como a Argélia, onde viveu na cidade de Orã, e teve oportunidade de viajar até ao deserto do Sara.

Já esteve em alguns dos mais luxuosos hotéis de todo o mundo ‑ em alguns até viveu durante meses, fruto das obrigações laborais -, mas quando sai em missão de exploração procura «exatamente o oposto». E o Sara foi, confessa, uma agradável surpresa: «não sabia que o deserto era tão fascinante».

Foi um amigo argelino que o desafiou a lá ir. Foram com um guia, conhecido: meteram-se no autocarro e andaram mil quilómetros desde Orã até ao deserto. Ainda às portas do Sara, ficaram numa casa que estava a ser reconstruída, porque o responsável pelas obras era autorizado a ficar no local e deu-lhes abrigo. No total, a viagem foi de quatro dias, «mas parece que foram quarenta», recorda. «Já viajei tanto, mas se tivesse de escolher uma viagem perfeita era esta. Tudo se encaixou e estivemos sempre no sítio certo na altura certa.» Chegaram ainda de noite a uma pequena vila, Béni Abbès, «uma espécie de oásis» na província argelina de Béchar, às portas do Grande Erg Ocidental. Desafiaram-no a subir a uma duna e a assistir ao nascer do Sol no deserto. «É difícil descrever. O Sol vai subindo, as cores vão mudando, o silêncio.»

«Já viajei tanto, mas se tivesse de escolher uma viagem perfeita era esta» – Ricardo não esquece a Argélia.

Exploraram o ksour, a parte fortificada da povoação, e no dia seguinte partiram para outra vila, Taghit. Aí foram pelo deserto adentro, sentados em camelos. «O guia fez um pão ali», conta, recorrendo ao tradicional método de enterrar brasas na areia e depois usar a areia aquecida para cozer a massa. «As pessoas no deserto são de uma hospitalidade que eu não sabia que existia, abrem as portas de casa a estranhos», acrescenta. Nesse mesmo dia, foram convidados para o casamento de um familiar do guia e a festa foi «barulhenta, super animada, com muita música». Por coincidência, assistiram também a um festival que recriava um casamento tradicional no deserto.

«A Argélia é um país de extremos, tem coisas que adoro e coisas que detesto, uma delas a hipocrisia relativamente à posição das mulheres na sociedade. Mas o Sara não é a Argélia», garante Ricardo. Não esquece a noite que passou no deserto, sob um céu estrelado e temperaturas baixas, com escorpiões por companhia, e as horas que passou no terraço de uma pequena pousada com a vila às escuras, devido a uma falha de eletricidade: «Parecia que o céu tinha acendido, estava extraordinário».

O fascínio foi tal que voltou ao deserto passados poucos meses da primeira viagem, dessa vez já a conduzir e com outros amigos, apenas com o contacto de um guia que os poderia levar novamente para lá das portas do Sara. Como levavam carro, não passaram despercebidos e, por motivos de segurança, tiveram de registar-se na esquadra da polícia. No regresso a Orã, e para grande espanto, foram escoltados por várias patrulhas policiais, incumbidas de acompanhar sempre os estrangeiros na viagem de volta. A cada duzentos quilómetros percorridos, tinham de parar numa esquadra para que os batedores se revezassem: levavam carros da polícia à frente e atrás. Em vez das dez horas que levaram a chegar, foram precisas 14 para voltar a casa. Mas Ricardo jura que faria tudo outra vez. E não tem dúvidas de que há de regressar ao Sara.

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