A religião e a cultura até nos podem separar, mas é cruzando este país de norte a sul que se percebe que não somos assim tão diferentes. À mesa, ao som da música ou perdidos na imensidão da paisagem do Norte de África, sentimo-nos em casa.

Texto de Ricardo Santos
Fotografias de Rafael Reigota/GMK

 

Tânger. Não podíamos começar noutro local. Foi aqui, como diria em tom épico o televisivo professor José Hermano Saraiva, que começou a epopeia mundial portuguesa. Em 1415, com a conquista de Ceuta, o planeta começou a ficar mais pequeno e menos desconhecido. Passaram seis séculos e muito mudou, mas a ligação entre Portugal e Marrocos não se tornou menos forte. Antes pelo contrário. As antigas feridas já sararam, agora une-nos o mar e a gastronomia, a música, o desporto e o saber receber quem nos visita. E é com esse espírito que regressamos a Marrocos para nos voltarmos a surpreender.

O mistério que sempre se cola a Tânger aumenta com a chegada à cidade depois de o Sol já se ter posto. As ruas parecem desertas, escuras, tranquilas, como se escondessem alguma coisa que sempre escapa ao olhar. Seguimos diretos ao hotel El Minzah, um histórico que já passou dos 85 anos de atividade. Jacques-Yves Cousteau, o mais famoso dos oceanógrafos, passou por aqui, a ver pela fotografia exposta na parede da escadaria que desce da entrada para o pátio do hotel. Estão lá as memórias de famosos que aqui dormiram: políticos, músicos, estilistas, atores. Como se se quisesse perpetuar o tempo de Tânger Cidade Internacional, refúgio de espiões e vanguardistas. Foi assim de 1923 a 1956, ano da independência de Marrocos. Foi para aqui que veio viver o escritor e viajante norte-americano Paul Bowles em 1947, criando uma rede social de encontros e desencontros para uma nova geração (a Beat) de pensadores onde se incluíam Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Truman Capote ou Gore Vidal.

Não é apenas pelos corredores do El Minzah que se procura esse passado glorioso. É também pelas ruas onde não falta poeira no ar. Nos próximos anos a cidade quer afirmar-se como o grande porto africano, quer rivalizar com as marinas europeias do Mediterrâneo e para isso está a transformar-se. A Corniche deixou de ser uma marginal para passear à beira-mar para se tornar num imenso estaleiro. As obras não param, nem o trânsito abranda. A solução é fugir para a medina e descobrir o Pequeno Socco. Tapetes, vestuário, começa a haver de tudo nas ruas. Há cafés com esplanadas, lojas de ouro, bancas com especiarias, camisolas de jogadores de futebol, paus de selfie, jornais, doces e chá, sempre o aroma do chá. Entre uma e outra rua há também o único monumento nacional dos EUA fora do seu território – o Museu da Legação Americana, com biblioteca especializada em assuntos do Norte de África, maquetes que representam batalhas históricas e uma área dedicada à passagem de Paul Bowles por Tânger. Continuamos até ao kasbah da cidade, as antigas fortificações que defendiam o território.

Hoje são hotéis, riads, pousadas, restaurantes ou galerias de arte. É fácil perdermo-nos por aqui. Sabe bem, a sensação de descoberta que depressa nos leva a outros bairros, a outras ruas, à Praça de Faro com os seus canhões apontados ao mar, ou ao Café de Paris, poiso histórico dos tangerinos. E ali bem perto está a Livraria des Colonnes, onde Simon-Pierre Hamelin, escritor, russo de nascimento, cidadão internacional por mérito, nos serve de cicerone pela literatura do Mediterrâneo e pelas muitas histórias desta cidade intrigante. Os caminhos levam-nos ao Café Hafa, uma das instituições de Tânger. Na encosta, com a Europa do outro lado do estreito, bebemos um chá de menta, provamos os doces de amêndoa e pistácio e deixamo-nos fazer parte da multidão.

No dia seguinte teremos 140 quilómetros até Chefchaouen, nas montanhas do Rif, mas naquele momento isso pouco importa.

As curvas da estrada já começam a incomodar. O ritmo de viagem é lento, de acordo com o itinerário e com o que encontramos pela frente: camiões, grandes e pequenos táxis, carroças, motorizadas, não falta nada. Junto à porta de entrada na cidade, uma mulher trajada tradicionalmente espera boleia ou umas moedas para se deixar fotografar. Seguimos em frente até às ruas onde o azul-claro das paredes e do chão chega a ofuscar. É assim Chefchaouen, no coração do Rif, rodeada pelas montanhas. A cidade foi fundada em 1471 com o objetivo de travar a invasão portuguesa no Norte do território. Resistiram e a arquitetura e a morfologia do terreno mostram quão difícil deve ter sido resistir. Ou atacar. As ruas e ruelas sobem e descem, transformam-se em bifurcações, becos, pátios, vão dar a praças, a lojas, a pequenos hotéis e restaurantes. Há vendedores de caracóis num dos cantos da praça principal. Cheira a haxixe de vez em quando, fumado em cachimbos de madeira por velhos marroquinos, sentados sobre as pernas fletidas. É uma das imagens de marca.

Descobrir Marrocos em duas ou quatro rodas é uma viagem inesquecível. A diversidade da paisagem conquista-nos.

Próxima paragem: Fez, a capital espiritual de Marrocos. Quatro horas em estrada nacional para fazer pouco menos de 200 quilómetros. E um almoço digno de sultões à nossa espera no Palais Faraj, considerado um dos templos da gastronomia Fassi, a cozinha de Fez, a principal cidade em termos de gastronomia e tradição. Os árabes que chegaram da Andaluzia trouxeram receitas que foram adaptadas à realidade local e às influências berberes e assim nasceu uma aliança de salgado e doce que se manteve até hoje. Pastilla de pombo ou carne seca com uma camada de açúcar e canela, cebolas caramelizadas, amêndoas ou laranja com cenoura estão sobre a mesa e é difícil resistir.

Saímos com o dever cumprido. E com a vontade de andar a pé, um desejo fácil de realizar na medina de Fez, casa da mais antiga universidade do mundo, fundada por uma mulher – Fatima al-Fihri – no ano 859.

Passa um burro carregado, um casal que empurra o carrinho de bebé, um cego que procura abrir caminho. Não cessa o movimento, baixamo-nos para entrar em determinadas ruas, caímos na escuridão em plena luz do dia para poder chegar às alcaçarias. O cheiro a excremento de pombo e pele de animal curtida não é fácil de suportar. Nem com as folhas de hortelã que nos dão para tapar o nariz. Temos de fazer uso de outro sentido – a visão – para apreciar a tarefa secular de tingir as peles. Dezenas de homens entram e saem dos tanques. O cheiro é quase insuportável e torna-se a desculpa ideal para sair da medina. Os altifalantes no topo dos minaretes também já dão o sinal. É tempo de oração, o dia está a terminar. Desfasadas por décimas de segundo, as vozes do chamamento de mais de 150 mesquitas criam uma melodia mágica. Do terraço do hotel Les Merinides, na encosta sobre a cidade, a visão e o som são místicos. Uma vida não chegaria para descobrir Fez. E ainda bem.

Não é normal, mas no caminho para o deserto passa-se por uma estância de neve. É assim Marrocos. Ifrane está 64 quilómetros depois de Fez, para sul. Parece uma cidade nos Alpes, com os telhados típicos, cafés onde se serve chocolate quente e indicações para os meios mecânicos de acesso às pistas. Estamos quase a dois mil metros de altitude e isso sente-se no vento gelado. Passamos a Floresta dos Cedros e os macacos que invadem a estrada.

O dia será longo, com mais de 550 quilómetros até Merzouga e ao deserto do Erg Chebbi. Vamos de cara encostada no vidro do carro. A paisagem está sempre a mudar: montanhas, encostas verdejantes, planaltos, barragens, desfiladeiros, ravinas, campos de agricultura, palmeirais a perder de vista. As horas passam, o sol baixa, a lua sobe e as pistas que nos levam ao albergue junto às grandes dunas de Merzouga tornam-se cada vez mais difíceis de seguir. Mais de 12 horas depois da partida, chegamos. Há uma fogueira à espera e uma tagine sobre a mesa. O guisado de carne acompanhado por legumes leva horas a cozinhar e pouco tempo a consumir. Quando a tampa do recipiente cónico de barro se levanta, todos os sentidos se apuram. Os olhos adaptam-se à escuridão. Vê-se um vulto na paisagem. A grande duna está mesmo ali, mas só de manhã a cumprimentaremos como deve ser. Para já, descanso.

No dia seguinte, o vento forte obriga a uma pausa. Não é possível caminhar até às dunas, tal a tempestade de areia que se levanta. Junto à piscina do Auberge Café du Sud, Youness Noughou oferece-nos um chá. Falamos em português, aprendeu a língua com clientes e amigos. Convida-nos para passar a noite no deserto em tendas. Partimos ao fim do dia, para assistir ao pôr do Sol desde as dunas de Erg Chebbi. A proposta é irrecusável.

No Erg Chebbi poderá passar a noite no deserto. Depois de jantar, os viajantes juntam-se à volta da fogueira.

Youness conduz pelas montanhas de areia como se as conhecesse a todas. Talvez as conheça, mesmo aquela que nos obriga a escavar para que o jipe continue a sua marcha. Um grupo de turistas europeus e sul-americanos faz o mesmo caminho no dorso de um dromedário. Passamos à frente para os reencontrar no acampamento. Há sopa, tagine, laranja com canela, água e refrigerantes. Depois há o crepitar de lenha, música tradicional e um céu onde parecem não querer caber mais estrelas. Canta-se, conversa-se, goza-se o tempo antes das cinco e meia da manhã, hora de alvorada e da subida à duna para ver o nascer do sol. Os grupos de viajantes estão em silêncio (quase todos…), recebem o novo dia e partem com a alma e a cabeça cheias de histórias para contar.

A próxima etapa é igualmente longa – 370 quilómetros até Ouarzazate, a cidade do cinema. Pelo caminho, o impressionante Vale do Draa, onde nos cruzamos com João Cajuda, blogger, ator, viajante que se apaixonou por Marrocos. Conversamos com vista para o vale e para os palmeirais, junto a uma antiga torre de vigia. O local é cinematográfico, à semelhança do que acontece em tantos outros em Marrocos. Debatemos como se explica a relação entre portugueses e marroquinos e que encanto é este que nos seduz. Deixamos todas as possibilidades em aberto e seguimos caminho. João para Merzouga. Nós para Ouarzazate.

Nos estúdios de cinema Atlas ficamos a saber que Lawrence da Arábia, Joia do Nilo, A Última Tentação de Cristo ou Gladiador foram aqui filmados. Percorremos os cenários, surpreendemo-nos com a capacidade de ilusão do esferovite e seguimos para outro ponto de filmagens, mas desta vez real: Ait Ben Haddou. É uma cidade fortificada, à saída de Ouarzazate, com seis castelos e cerca de 50 palácios construídos em adobe e barro.

A ponte sobre o rio transporta-nos na história. Podia ser Sodoma e Gomorra, podíamos ali encontrar Alexandre, o Grande ou o príncipe da Pérsia, mas essas são apenas recordações dos filmes aqui rodados. Faltam 260 quilómetros para Marraquexe. Só lá chegaremos com a noite. A estrada deixa marcas no corpo, mas na manhã seguinte ninguém nos afastará da Cidade Vermelha.

Contrastes deve ser a palavra mais utilizada quando se fala de Marraquexe. Vamos escolhê-la novamente. Não há outra hipótese. Tão depressa se pode estar à porta do Buddha Bar ou do Pacha como a beber um chá na medina com um vendedor de tapetes. Num minuto afasta-se um encantador de serpentes, no outro pede-se um mojito num terraço com vista para a Koutoubia, a mais alta torre de Marraquexe, a cidade que dá nome ao país. É a capital do turismo em Marrocos, com visitantes de todo o mundo.

Marraquexe é a mistura, o ruído, a capital turística de Marrocos.

Continua a ter o seu encanto, principalmente quando se tem por perto o Vale de Ourika, onde a portuguesa Beatriz Máximo está à frente de um hotel que é muito mais do que isso. O Kasbah Bab Ourika, com vista para o rio e para o vale, conquista-nos desde o primeiro minuto com o requinte e simplicidade, tranquilidade e prazer. Não nos conseguimos livrar dos contrastes. E é isso que torna cada viagem em Marrocos tão especial.

Bab Ourika é um refúgio, perto quanto baste da agitação de Marraquexe.

Queremos sempre mais, não nos damos por satisfeitos nem perante a sedução do Kasbah e de Beatriz. Partimos para o mar, para chegar ao oceano Atlântico e a Essaouira, a capital Gnaoua, sons e tradição da África ocidental. É tempo de festival de música quando lá chegamos. Acontece todos os anos, em maio, e junta milhares de pessoas na antiga Mogador. Essaouira é lá, mas poderia ser em Portugal. O porto de pesca é como os nossos, a sardinha assada é igual à nossa, a facilidade de meter conversa é a nossa.

Adversário há 600 anos, Portugal tem hoje uma relação de amizade com Marrocos. Separados à nascença pela religião e pela geografia, são dois irmãos nos gostos simples: comida, futebol, afetos, discussões acaloradas. Voltar a Marrocos é visitar um familiar distante que rapidamente se torna próximo.

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