Torbjørn C. Pedersen, dinarmarquês, está há 3 anos em viagem. Quer visitar todos os países do mundo de uma só vez, à boleia de navios de carga, sem recorrer a aviões, utilizando comboios e autocarros quando necessário. Já riscou 122 países da lista e permanece sempre pelo menos 24 horas em cada um. No bolso tem um orçamento estipulado para gastar cerca de 20 euros por dia.

Pedersen, 37 anos, começou a aventura em outubro de 2013, na Europa. Depois percorreu a América do Norte, Centro e do Sul, cruzou o mar das Caraíbas e atravessou o Atlântico novamente rumo à costa africana. De Marrocos a viagem seguiu para sul, «picando» todos os países até dobrar o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, e entrar no Oceano Índico. Seguiram-se países no interior, outros que gozam da costa, ou ilhas como Madagáscar, Seychelles ou Maurícia. O último texto publicado no seu blogue “Once Upon a Saga“, a 23 de dezembro, relata a sua mais recente paragem: no Quénia e Etiópia – descreve como o país mais extraordinário do mundo.

Mapa da viagem de Torbjørn C. Pedersen. A rota que pretende tomar segue-se pelo Médio Oriente e Ásia, com destino ao Pacífico.

Mas como é que uma viagem destas é possível? Começou com um orçamento financiado (até março de 2016 e agora autossustentado) por uma empresa de gestão e consultoria para a indústria norueguesa de petróleo e gás, Ross Offshore Engineering, como um projeto para «provar que viajar pode ser feito de forma muito económica e que não é preciso ser milionário para atravessar fronteiras, conhecer novas pessoas e fazer amigos». Garante que os cerca de 20 euros por dia são suficientes para o seu transporte diário, refeições, alojamento. Depois há sempre custos adicionais, como vacinas, internet, seguros, exames médicos, parques naturais, museus e uma noiva que visita de tempos em tempos… Torbjørn C. Pedersen diz mesmo que nalguns países é possível gastar menos do que tem disponível no seu orçamento diário. Um dos maiores custos adicionais são os vistos, que «podem custar até cerca 150 dólares», diz o viajante.

«Um estranho é um amigo que nunca conheceste antes»

Direitos Reservados

Foi também nomeado como «Embaixador da Boa Vontade» pela Cruz Vermelha dinamarquesa. Está a representar e a promover a Cruz Vermelha em 190 países do mundo. Pedersen admite que, tal como a maioria das pessoas, sabia pouco sobre o Movimento Internacional da Cruz Vermelha. Hoje reconhece o mérito do trabalho que é feito por milhões de voluntários, que fazem a diferença em mais tantos milhões todos os dias. «É uma honra promover esta organização.»

Subir a bordo de um navio. Não é tão simples como se pode pensar, diz Pederson. Envolve uma «grande quantidade de trabalho». Passa por pesquisar os itinerários dos navios, as rotas, de onde vêm e para onde vão, tentar entrar em contacto com os operadores dos navios, escrever email-s para ‘vender’ a ideia de tê-lo a bordo.

Pederson explica como os navios não têm nenhum incentivo para transportar um passageiro (a mais). É uma inconveniência para a navegação e representa uma responsabilidade que não é, de todo, desejada. É necessário conseguir passar a mensagem de como consegue estar a bordo sem interferir nas operações e manobras. Quase como conseguir ser invisível.

A vida a bordo. «O luxo é geralmente uma ideia errada», diz Pedersen, mas admite que ainda assim tem sido surpreendido com a qualidade do alojamento. «Já dormi no chão de uma cozinha, num barco muito sujo, mas as piores cabinas podem ser comparadas com um hotel de média qualidade». Mas também não esquece a sorte de dormir em cabinas com quartos grandes, com cama de casal, casa-de-banho e uma pequena sala de estar. «Alguns até têm wi-fi!»


Números da viagem

225 – o número de autocarros em que viajou
98 – o número de comboios e táxis em que viajou
81 – o número de países que faltam visitar
40 – a idade que prevê ter quando conseguir completar a sua aventura
9.3 – o número médio de dias que tem permanecido em cada país
9 – o número de navios de carga em que já viajou
2.3 – o número de anos previstos até completar a viagem


Com mais 81 países para visitar, aqueles que mais quer visitar neste momento são o Japão, a Argélia, a Turquia, Malta, o Turquemenistão, o Afeganistão, a Mongólia, a China e as Maldivas, que vão ser o seu destino final antes de regressar à Dinarmarca – não é uma má forma de terminar a viagem…

Direitos Reservados

Pedersen não será o primeiro a visitar todos os países do mundo sem recorrer a aviões. Em 2012, Graham Hughes completou uma viagem semelhante, à volta do mundo, com um orçamento reduzido e que levou cerca de quatro anos.

Dicas para quem quer subir a bordo e viajar:

– Nunca se dirija ao comandante do navio para tentar uma viagem. Vai sempre dizer que não e até pode chegar a ficar ofendido;
– Entre em contacto com a empresa que gere o navio, com os proprietários ou os operadores;
– Deixe bem claro que consegue estar a bordo sem “atrapalhar” a rotina da tripulação;
– Por vezes, pode comunicar com as autoridades portuárias ou encontrar quem precisa via Linkedin;
– Oferecer ao navio algo em troca: escrever sobre a experiência a bordo e compartilhá-lo com a empresa;
– Procurar realçar a importância das redes sociais, através das quais é possível promover as empresas de navegação que apoiam a viagem.


Texto de Nuno Mota Gomes
Fotografias Direitos Reservados