Nada nos prepara para Santorini. Nem o que ouvimos nem o que lemos desta ilha que está há muitos anos nas preferências de milhões de turistas. Mas há mais, além do turismo. Os gregos que têm o privilégio de aqui viver não cruzaram os braços. Enfrentaram a crise, que também os atingiu.

Texto de Valentina Marcelino
Fotografias de Pedro Correia/Global Imagens

Tudo o que se leia, ouça contar, veja nos milhares de imagens que estão na internet, nada nos prepara para aquele primeiro vislumbre de Santorini quando sobrevoamos a ilha. Casinhas brancas e azuis literalmente penduradas em rochas escarpadas, num contraste perfeito entre a sua alvura, o azul do céu e o tom escuro da rocha vulcânica. Tudo mergulhado num mar cristalino e brilhante. É um lugar-comum dizer que Santorini é um postal vivo, não tivesse esta ilha sido eleita em várias plataformas turísticas como uma das ilhas mais bonitas do mundo, mas essa é uma expressão que se ajusta como uma luva de seda numa mão delicada.

Também nada nos prepara, nem palavras nem experiências passadas, para o que vem depois. É mesmo preciso estar lá para sentir. Quando conhecemos os cantos à ilha, quando visitamos aqueles locais que não podem falhar no roteiro, como ver o pôr do Sol em Oia. Ou, simplesmente, quando de manhã, com os raios de sol a entrarem pela janela do quarto de hotel e o murmúrio do mar a chamar-nos, saímos para o pequeno balcão de pedra fresca e quase perdemos o ar: estamos praticamente debruçados sobre as rochas com o mar lá em baixo e em frente… o vulcão. A presença deste fenómeno, ainda ativo, da natureza que há 3700 anos explodiu e deixou Santorini com a atual formação a fazer lembrar um croissant, influencia fortemente quem ali vive. «Há uma energia diferente em Santorini, o ar é mais puro, dorme-se profundamente e menos horas. Há mais tempo para a diversão», explica Katerina Vamvakousi, por trás do balcão do seu café-bar, onde cumpriu a promessa de nos servir o «melhor frappé do mundo».

Constatamos que, apesar de Santorini ser um destino que está há muitos anos no mapa de preferências de milhões de turistas e que a simples contemplação da sua beleza tão peculiar nos enche de satisfação, isso não fez que os gregos que têm o privilégio de aqui viver e trabalhar cruzem os braços. A crise que atravessa o país, tal como aconteceu em Portugal, fez puxar pela imaginação e encontrar outros motivos de atração, além do cenário de cortar a respiração. São perfecionistas e exigentes com o que têm para oferecer. Iguarias gastronómicas, produção de vinho, antiquários e as sempre surpreendentes escavações arqueológicas de Akrotiri são prova dessa determinação e de que há sempre algo de novo a experimentar em Santorini. Não é só aquele postal com casinhas inacreditavelmente verdadeiras. Ali vive e trabalha gente de muita garra.

É disso exemplo Joanna Vamvakouri, de 32 anos, que veio de Atenas para Santorini em 2004 e que abraçou e recuperou a produção vinícola da Adega Venetsanos, uma histórica casa da ilha que esteve fechada desde 1979 e reabriu no ano passado, em plena crise económica. A prova de vinhos é, como em quase tudo na ilha, quase à beira de um precipício, com o seu ao lado e o mar um pouco mais a fundo a refletir o brilho do sol. A fama do vinho de Santorini, principalmente o branco, traduz a realidade e apercebemo-nos mesmo do milagre que é a sua existência. Todo o terreno de Santorini é constituído por rocha vulcânica e as videiras desenvolvem-se aí. Como? Pois é aí que fica o espanto. As suas raízes serpenteiam pelo interior das rochas e encontram aí o seu sustento que depositam nos cachos de uvas que descansam, junto ao chão, debaixo da sombra das folhas frondosas. As antigas adegas e depósitos estão construídas dentro da rocha e antigamente as uvas eram apanhadas e atiradas diretamente, através de tubos, para baixo, escorrendo para dentro do terreno rochoso previamente moldado.

Joanna leva-nos numa verdadeira viagem pelo tempo através das imensas galerias, estreitos corredores, escadas e escadinhas, tudo dentro das rochas, onde os primeiros donos da Venetsanos, uma família de origem egípcia ali aportou e produziu o primeiro vinho no início do século XX. Os olhos desta enóloga brilham quando fala na história desta casa e quando nos entrega o cálice de vinho para provar e nos diz para fechar os olhos e sentir em cada gota toda a dedicação e talento de décadas.

Paixão idêntica encontramos em Georgia Tsara, a «mãe» do famoso Selene, um restaurante premiado nacional e internacionalmente, que agora, além da inigualável criatividade e sabor dos pratos servidos, aposta também na criação de novos produtos, como a surpreendente geleia de vinho branco. Tsara é nossa anfitriã numa aula de cozinha – uma das novas atrações do restaurante – e não esconde o entusiasmo quando descreve os produtos que vamos utilizar, todos da ilha. Desde os famosos tomates-cereja à beterraba, aos tradicionais zucchinis (as nossas curgetes) e as «favas», uma espécie de lentilhas muito utilizadas nas cozinhas de Santorini. A ajudar está Dimos Andreopoulos, um dos cozinheiros mais novos da casa. Georgia está em Santorini desde 1992 e não concebe mudar-se. «Viver ao lado de vulcão ativo», sublinha, «é estar sempre a sentir quão perto está o ciclo da vida e da morte.

A ilha tem uma vibração de energia que não conheço em parte alguma. Provavelmente tem que ver mesmo com o facto, de que não podemos fugir nem desviar o olhar – está mesmo na nossa frente todos os dias –, de que a morte está sempre a observar-nos». Sentado ao balcão do bar está Yiorgos Hatziyannakis, 70 anos, o dono do Selene, que chegou à ilha em 1975 de férias e nunca mais a deixou. «Apaixonei-me pela ilha. Na altura era mais selvagem, havia muitas praias desertas, não havia a construção que há agora. O vulcão era para mim um desafio e estou sempre à espera que entre em erupção», assinala. E medo? «Isso seria ter medo de viver. Quando se toma a decisão de viver em Santorini tem de se ter essa consciência, que aqui a vida é para ser vivida todos os dias. Santorini está viva, move-se, as cores mudam, tem um vulcão ativo. E é assim a vida também. É assim que se é feliz», diz. Fala apaixonadamente e encolhe os ombros quando remata: «Mas nada disto é possível absorver em poucos dias…»


Dicas de viagem

Moeda: Euro
Fuso horário: GMT +2 horas
Idioma: Grego
Quando ir: primavera e verão são as épocas mais concorridas, mas o clima grego permite viagens ao longo de todo o ano.

Ir

Desde 14 de julho que a Aegean Airlines têm três voos diários diretos de Lisboa para Atenas (terças, quintas e sábados). O preço mínimo é de 118,31 euros, variando de acordo com a data da viagem. A ligação aérea com Santorini custa cerca de 50 euros, mas também pode optar pelo barco, a partir do porto de Piréus, com preços entre os 40 e os 70 euros ida e volta.
aegeanair.com
seajets.gr

Dormir

Qualquer um dos hotéis do grupo Caldera Collection são uma boa opção. São todos de cinco estrelas e sabem bem aproveitar a localização em cima do mar. Panos Kyristis assume que «o mercado preferencial são os clientes de mais posses ou então, simplesmente alguém que queira o destino mais romântico do mundo e queira fazer essa «loucura». O hotel onde ficamos, o Volcano View, deixa-nos essa tentação. Mesmo em frente à caldeira do vulcão, as suites foram escavadas e estão praticamente «penduradas» nos rochedos. Quem experimentou diz que as massagens são absolutamente divinas. Não só pelas mãos do especialista Dimitri mas tmbém pelo local, no alto de uma das rochas, sob uma campânula branca por cima do mar e com o céu mesmo ali ao lado. Espreite o site e verá (volcano-view.com). Mas as suites do Petit Palace, com as suas piscinas privadas, também não ficam nada atrás (petitpalacesuites.gr) Tem toda a informação sobre os hotéis do grupo, localizados em diversos pontos da ilha, em
caldeiracollection.gr

Comer

Como já referimos no texto, em Santorini a qualidade dos produtos com que se confeciona os pratos é ponto de honra. Especialmente se forem produtos da terra, a terra que, segundo os santorinenses, tem a energia do vulcão e fornece aos alimentos um gosto muito especial. Entre os que mais cuidam de manter Santorini no top gastronómico grego está a casa Selene, em Pyrgos. São dois espaços, um restaurante, outra zona mais ao estilo de Taverna, onde se podem degustar petiscos típicos ou até participar num workshop de culinária. Aqui experimente a geleia de vinho branco com pedacinhos de queijo, ou os tomates-ww-cereja criados na horta da casa. No restaurante não perca o tártaro de perca ou a divina «paisagem do mar», assim é o nome de um prato de degustação de mariscos, tártaros de peixe, maionese de «fava», ou o soufflé de ovo. À sobremesa experimente o creme de manteiga de limão com sorvete de iogurte. Com menos projeção ainda, mas com idêntica ambição e muito potencial, está a jovem equipa do Mystique. Na localização – em Oía, com a esplanada num rochedo virado para o mar – vencem o Selene. A salada de tomate e polvo grelhado, o linguine com zucchini e tomate-cereja ou os brownies com creme praliné e molho de framboesa são imperdíveis.

Selene
Pyrgos, Santorini
selene.gr

Mystique Hotel-Restaurant
Oia, Santorini
mystique.gr

Fazer

Visitar as adegas e provar os saborosos vinhos, passear pelas ruas de Oía até chegar o pôr do Sol – e este é um dos eventos mais procurados em Santorini – e fazer uma excursão de barco e mergulhos nas águas tépidas que envolvem a caldeira do vulcão ou fazer uma viagem no tempo e visitar as escavações arqueológicas de Akrotiri – a Pompeia grega – com testemunhos impressionantes de uma cidade soterrada pela lava do vulcão Tera, cerca de 2000 anos antes da nossa era. Nas escavações foram encontradas casas, cerâmicas, materiais que demonstram uma organização da sociedade bastante avançada. Em Pyrgos não pode deixar de visitar a Crossroad Antiques, quase um museu com peças históricas de Santorini.

Eis alguns sites que pode consultar:

venestanoswinery.com
santowines.gr
crossroad-santorini.com
santorini.gr
santoriniwlkingtours.com
atlantisoia.com
santorinidrivecenter.gr
sunset-oia.com
santoriniseakayak.com