Na entrada da cidade, as bermas da estrada estão cheias de grupos de pessoas sentadas em cadeiras de campismo. Tomam mate, seguram termos debaixo do braço ou entornam alguma dessa água quente sobre o chimarrão, falam uns com os outros e veem os carros que passam. O meu olhar, dentro do carro, cruza-se com o olhar deles em diversos momentos. É domingo, fim de tarde, primavera, a luz vem de longe, quase rente à terra.

Em Montevideo, quando as pessoas falam de Rivera, contorcem o rosto para exprimir a distância. Depois, se juntam palavras, falam de quilómetros sem fim e de um tempo remoto. A maioria das pessoas de Montevideo sabe pouco sobre Rivera.

Não é um tempo remoto, não são décadas passadas, é um tempo diferente, medido por outras ideias. Não são quilómetros sem fim, são cerca de quinhentos. É preciso atravessar o Uruguai inteiro. Montevideo fica no extremo sul, Rivera fica no extremo norte. São horas ao longo de grandes retas, planícies de horizontes amplos, vacas e ovelhas espalhadas na tranquilidade, a pastarem no verde.

No centro de Rivera, minutos antes do serão de domingo, os carros já têm as luzes acesas. Avançam muito devagar, seguem num engarrafamento em que entraram por gosto, contornam os quarteirões do centro, passeiam. Nessas mesmas ruas, as luzes das lojas já estão acesas também, os sistemas de sons anunciam produtos que podem ser comprados com descontos de duty free por quem tiver o passaporte certo.

A cidade uruguaia de Rivera faz fronteira com a cidade brasileira de Santana do Livramento. Como duas irmãs siamesas, estão coladas, são inseparáveis. No centro do mapa, há uma avenida sem riscos no chão, alfândegas, ou polícias a pedir passaportes: num lado é Uruguai, no outro lado é Brasil. Num lado, os preços estão em pesos; no outro, estão em reais. Num lado, fala-se espanhol; no outro, fala-se português.

Pela janela do hotel, vejo as ruas a povoarem-se. Há quem atravesse a rua, uns vão do Uruguai para o Brasil, outros do Brasil para o Uruguai. Cumprimentam-se em portunhol.

Mas, de facto, aceita-se reais e pesos nos dois lados, fala-se em espanhol ou português nos dois lados. Na realidade, como noutros pontos da fronteira entre o Uruguai e o Brasil, Rivera é terra de portunhol. Ao contrário do nosso país, onde o portunhol é uma língua mal falada, uma piada; na fronteira norte do Uruguai, o portunhol é um assunto sério, fruto da história e da convivência, expressão de uma realidade única. Nesta região existe uma literatura em portunhol, livros de poesia, romances, existe música cantada em portunhol. Essa linguagem é sistematizada, faz uso de vocabulário próprio, é preciso aprendê-la para saber utilizá-la.

E é manhã de segunda-feira, de novo a luz quente, o início de uma semana. Pela janela do hotel, vejo as ruas a povoarem-se. A caminho do trabalho, há quem atravesse a rua, uns vão do Uruguai para o Brasil, outros vão do Brasil para o Uruguai. Quando se cumprimentam, fazem-no em portunhol. Essa língua pertence a todos. Nas palavras que trocam, a fronteira não é sequer uma rua. Não existe fronteira. Não existem diferenças entre cá e lá, estão diluídas naquilo que há para dizer.