O escritor José Luís Peixoto regressou a Macau para mergulhar num novo mundo e para resgatar o que resta da história comum deste território, agora chinês, com Portugal. Aproveitou para dar um salto difícil de igualar.

Texto de José Luís Peixoto
Fotografias de Rafael Reigota

A Torre de Macau tem 338 metros, eu tenho 1 metro e 70 centímetros

A paisagem era enorme; de um lado, estava Macau, do outro, estava a Taipa. Sei que a base da torre está firme no lado de Macau, mas ali, no céu, àquela altura, aceitando a ilusão de ótica, quase parecia estar a meio, a igual distância entre essas duas margens, longe de uma e de outra. Era como quando olhamos pela janela de um avião que se prepara para aterrar ou que acabou de levantar voo, e sentimos uma certa melancolia existencialista, achando que sabemos um pouco mais do que aqueles que estão lá em baixo, tão pequeninos e tantos, hipnotizados pelas suas vidas, pelas questões que os fazem ir do ponto A ao ponto B, ignorando o nosso olhar gigante. As pontes eram atravessadas por pequenos carros, alguns táxis parecidos com aqueles onde eu próprio tinha seguido, a escutar rádio em cantonês. No interior desses táxis, na ponte velha, já a pensar na chegada à Taipa, talvez tenha olhado para a Torre de Macau, mas não fui capaz de imaginar os que estavam lá em cima. Essa era a grande diferença, no topo da torre, eu era capaz de imaginar quem estava lá em baixo, ou achava que imaginava, o que permitia a mesma sensação.

Ali, à altura aproximada de 338 metros, eu sabia com muita clareza que essa dita ponte velha, por exemplo, se chama Ponte Governador Nobre de Carvalho e que foi construída entre 1970 e 1974. Lá em cima, esses dados enciclopédicos assentavam com simplicidade e justiça naquilo a que se referiam. Os próprios hotéis e casinos pareciam pequenos e exemplares, podia falar-se deles com distância analítica. Era fácil conceber quinhentas mil pessoas a habitarem a solidez daqueles prédios, divididas por aqueles andares, a avançarem por aquelas ruas.

 

As ruas que se estendem a partir da Praça do Senado são preenchidas por multidões compactas

«Não há outra mais leal», foram as palavras de D. João IV, no século XVII, referindo-se à cidade de Macau e ao facto de, ao longo dos sessenta anos da dinastia dos Filipes, este ter sido o único ponto de todos os territórios portugueses da época que nunca içou a bandeira espanhola. Desde então, esse adjetivo, leal, tem sido muito usado em Macau, nomeadamente na referência ao Senado, ao Leal Senado. A entrada desse edifício tem uma escadaria com paredes forradas a azulejos portugueses e, diante de quem sobe, a frase de D. João IV. Essa foi a sede da administração portuguesa até à transferência de soberania para a China, em 1999. Não é por isso de estranhar que a Praça do Senado sempre tenha sido o centro urbano da cidade. Noutros tempos, era aí que aconteciam diversas cerimónias oficiais; hoje, é sobretudo palco de espetáculos e comemorações. Isto, claro, além de ser um dos lugares onde se sente com muita nitidez a presença dos portugueses, não só através de edifícios imponentes como a Santa Casa da Misericórdia ou o próprio Leal Senado, mas por todo o entorno, com arcadas cheias de vida, atravessadas por gente que entra e sai de pequenas lojas; através da calçada portuguesa, com um padrão de ondas, calcário negro sobre calcário branco.

Quem são essas pessoas e aonde se dirigem? Não há apenas uma resposta para essa pergunta. No lado oposto ao Senado, com as ondas da calçada a chegarem aos degraus da sua entrada, está a Igreja de São Domingos. Seguindo essa correnteza, este será um dos destinos prováveis dessas multidões, sobretudo tratando-se de turistas asiáticos, entusiastas da arte sacra. Na Ásia, não é comum encontrar altares barrocos, com imagens da Virgem Maria. Esta igreja foi levantada no século XVI, então em madeira, chegando à atual construção de tijolo um século depois. Vale a pena entrar e receber um pouco da sua tranquilidade. Ainda assim, cedo se percebe que, nas ruas, sobram muitos para além daqueles que fazem esta visita.

A vida nos jardins faz parte do dia-a-dia de Macau. É por eles que se chega ao trabalho. É nos jardins que se escapa ao caos.

Seguindo caminho, chega-se às Ruínas de São Paulo. Com probabilidade, esse é o destino mais comum a todos os que caminham pelas ruas que partem da Praça do Senado, mas é também muito claro que uma grande porção dessas multidões se dirigia a lugares que, por serem tantos, não podem ser exaustivamente enumerados: artérias, becos, lojas, restaurantes pequenos onde entram mais pessoas do que as que parecem caber no seu interior. Para lá dos monumentos, a exuberância dessa variedade também é o centro histórico de Macau e, com alguma certeza, uma das razão pelas quais a UNESCO o considerou Património Mundial da Humanidade.

As Ruínas de São Paulo, no entanto, são o ícone mais recorrente, fabricado em objetos de diversos materiais, formas e preços. A sua importância histórica justifica essa atenção. Exemplo único da arquitetura barroca na China, a sua monumental fachada é o maior vestígio da cultura cristã em todo o território e, de certa forma, a demonstração física da especificidade histórica de Macau. Após um destruidor incêndio no século XIX, restou a fachada de granito da Igreja da Madre de Deus. Hoje, a pouca distância, existe também o Museu de Arte Sacra, merece ser visto. Noutro género, de costas para a fachada, impressiona a longa escadaria, sempre repleta de gente em poses, milhares e milhares de fotografias todos os dias.

 

Da Torre de Macau não se vê as Ruínas de São Paulo. Tentei distinguir o seu contorno no intricado…

…da paisagem, mas apenas achei prédios sobrepostos e casinos imensos, também sobrepostos. O topo da torre é circular, pode dar-se a volta e, através da vitrina que ocupa toda a parede exterior, assistir a uma perspetiva completa da paisagem, 360 graus. No entanto, a maioria da multidão estava concentrada num dos lados e, de repente, todas essas pessoas suspiraram ao mesmo tempo, como um grito discreto. Alguém tinha saltado de bungee jumping.

Na Torre de Macau, é possível dar-se o salto de bungee jumping mais alto do mundo: 233 metros. Para quem está a ver, depois de acompanhar todos os procedimentos de segurança, o momento do salto é um pequeno choque, sente-se no coração. Eu assistia a esse trabalho e senti esse baque, enfatizado pela eletricidade de saber que, daí a poucos minutos, seria a minha vez.

 

No Jardim da Flora, apanha-se o teleférico para o Farol da Guia. Este é um jardim de conceção europeia, …

…que foi construído como parte do Palácio Flora, casa aristocrática portuguesa. Os bilhetes até lá acima custam poucas patacas. A viagem é agradável, planando sobre a vegetação. Aqui e ali, distinguem-se grupos ou indivíduos que praticam tai-chi entre manchas de verde. O farol recebe o nome da colina onde se encontra. Saindo do teleférico, é ainda preciso seguir por algumas veredas ajardinadas até à entrada do farol. Nesse caminho, cruzei-me com pessoas que sorriam, talvez por causa do ar limpo ou do silêncio vegetal.

Ao lado da Capela da Guia, este farol foi o primeiro com caraterísticas ocidentais a ser erguido nesta parte do mundo, data do século XVII. De novo, o Ocidente e o Oriente a cruzarem-se aqui.

Vê-se muito do Farol da Guia, a distância abre-se à sua frente. Esse é um dos principais argumentos para subir lá acima, dependendo dos gostos e dos interesses. Pela minha parte, essas alturas deixam-me sempre pensativo. Como no exemplo dos aviões, que já referi, a visão global das alturas favorece-me pensamentos globais, amplos.

Macau é uma aventura de sabores. Aos sabores chineses juntaram-se os portugueses para criar pratos únicos.

Disse-me quem conheceu outros tempos de Macau que, antes, a vista do Farol da Guia era muito diferente. O território mudou bastante. Essa é uma das afirmações que mais se ouve. De facto, olhando para a maioria das direções, Macau é um lugar surpreendentemente novo, considerando a longa história que tem.

No que diz respeito à história de séculos, os monumentos estão assinalados, preservados e garantidos. Não há dúvidas. É assim, por exemplo, com a Casa do Mandarim, enorme, aberta a visitas, com horário definido, que sendo uma residência com arquitetura tradicional cantonesa apresenta também diversas influências estéticas de outras culturas, nomeadamente ocidentais. É também assim com parques como o Lou Lin Leoc, paradigma dos valores plásticos orientais, ou com o Jardim Luís de Camões, considerado o mais notável representante do paisagismo ocidental em Macau.

No entanto, no que diz respeito à história de alguns anos ou mesmo de algumas décadas, esses contornos ainda não foram desenhados com tanta definição. Os casinos existem, são imensos e acolhem milhares e milhares de pessoas, muito movimento; mas também existe o Bairro de São Lázaro, primeiro bairro planeado, no início do século XX, vestígio magnífico de uma ideia urbanística que chegou de longe; mas também existe o Mercado Vermelho, as cores dos vegetais, o brilho das vísceras, os aromas asiáticos, chineses, num edifício de traça ocidental.


Macau na RTP 3
Em dezembro, o escritor José Luís Peixoto foi o cicerone do programa da Volta ao Mundo, todos os fins de semana na RTP 3, à descoberta de uma diferente faceta deste antigo território português, agora parte da China. A ligação Oriente-Ocidente, a gastronomia, a presença portuguesa e o que fazer em redor de Macau são algumas das nossas sugestões. Veja todos os episódios da Volta ao Mundo AQUI.


 

Assim, do topo do Farol da Guia ou do topo da Torre de Macau, aquilo que se vê depende também dos …

… olhos que veem. Essa caraterística está sempre presente, não se pode ignorá-la e andar pelo mundo. No entanto, em Macau, considerando o envolvimento que muitos têm com o território e, por ser um espaço de tanta passagem, com um período específico, essa é uma marca clara, fonte de frequentes equívocos. Sim, tenho 1 metro e 78 centímetros e, sim, a Torre de Macau tem 338 metros.

As correias estavam todas apertadas no meu peito e nas minhas pernas. O peso e a pressão desse material dava-me uma consciência do meu próprio corpo, do meu tamanho. Hoje, ainda há quem olhe para o lado da Taipa e não veja a área de Cotai, onde fica situada a «Torre Eiffel» do casino Parisian, ou os canais do casino Venitian, atravessados por gôndolas. É verdade que ainda se pode visitar as Casas-Museu da Taipa, residências coloniais portuguesas do início do século xx, onde se expõem imagens de outros tempos. Também é verdade que seguindo até Coloane pode passar-se o serão inteiro a comer excelentes pratos portugueses e cantoneses, como antes. Mas fingir que não existe Cotai (Cotai=Coloane+Taipa), fechar os olhos à superfície que se construiu e que ligou artificialmente as ex-ilhas de Coloane e da Taipa, é uma distorção comparável a entrar em Macau e não sair dos casinos.

Luxo asiático? É aqui. O interior dos casinos de Macau impressiona. Faz parte do estilo desde o início.

Macau não é uma só coisa. Pelo contrário, Macau é uma profusão enorme, imensa, que sempre nos escapa. Esse é o seu apelo magnético e irresistível.

Já com os pés presos pelo cabo, testado várias vezes, caminhei em pequenos passos até à beira do peitoril. Diante de mim, Macau.

E saltei.

 


Agradecimentos

dst2

airfrance-colour-web


Dicas de viagem

Moeda: Pataca MOP – 1 euro equivale a 8,5 MOP
Fuso horário: GMT +8 horas
Idioma: Cantonês e Português
Quando ir: Os meses de outono são os mais agradáveis. Na primavera e no verão a chuva pode ser um problema.

Ir

A Air France (airfrance.pt) voa de Lisboa para Hong Kong a partir de 500 euros por pessoa (ida e volta). Depois é só apanhar o jetfoil para Macau (turbojet.com.hk), a partir de 12 euros por trajeto. A viagem tem menos de uma hora de duração. Para se deslocar em Macau aconselha-se o táxi. É o meio de transporte mais simples, mas fica um conselho: ande sempre com algum documento que tenha o logótipo do local para onde pretende ir ou o nome traduzido para chinês. Muitos taxistas não falam outra língua nem sabem ler o alfabeto ocidental.

Dormir

Sofitel Macau at Ponte 16
Resort e casino no centro histórico, a quinhentos metros do Largo do Senado. O casino de 25 mil metros quadrados tem a única galeria de objetos de Michael Jackson em toda a Ásia, três restaurantes, cinco bares e 389 quartos.
Rua Visconde de Paço de Arcos
Tel.: +853 88610016
Quarto duplo a partir de 96 euros
sofitel.com

Hard Rock Hotel
Hotel com atitude rock para um público apaixonado por música. Faz parte do complexo City of Dreams, tem o seu próprio Rock Spa com tratamentos exclusivos, cinco bares (incluindo pool bar no terraço), 3300 metros quadrados de casino e 300 quartos de cores vibrantes.
Estrada do Istmo – Cotai
Tel.: +853 88683338
Quarto duplo a partir de 100 euros
cityofdreamsmacau.com

Comer

Horizons
Restaurante de fine dining do Crown Towers (City of Dreams), com cozinha internacional inventiva, ambiente requintado sem exageros e serviço atencioso.
Estrada do Istmo – Cotai
Tel.: +853 88686681
Preço médio: 50 euros
cityofdreamsmacau.com

360 – Café
Há muitos restaurantes em Macau, mas nenhum com esta vista panorâmica. Fica no último piso da icónica Torre de Macau, sobre uma plataforma giratória a duzentos metros do chão. O buffet é variado e inclui especialidades indianas, chinesas, italianas portuguesas e, claro, macaenses.
Largo da Torre de Macau
Tel.: +853 89888622
Preço médio: 20 euros
macautower.com

Nga Tim
Em Coloane, onde melhor se sente o lado campestre de Macau. Serve especialidades portuguesas, chinesas e macaenses com um toque pessoal. O prato forte é o marisco – e os macaenses vêm de longe (sendo certo que «longe» fica a vinte minutos) de propósito.
Rua Caetano, 8 – Coloane
Tel.: +853 28882086
Preço médio: 15 euros

Visitar

Largo do Senado
É a área mais portuguesa de Macau. Não falta a calçada e a tradicional fonte. É um dos locais nomeados como Património da Humanidade pela UNESCO. Quando Macau era uma colónia portuguesa, este era o local onde as autoridades se reuniam. Hoje é uma das atrações turísticas do território. Não faltam restaurantes e os sempre presentes pastéis de nata. Ruínas de São Paulo É o que resta da antiga Igreja da Madre de Deus e do Colégio de São Paulo, complexo do século xvi destruído por um incêndio em 1835. A não perder.

Ruínas de São Paulo
É o que resta da antiga Igreja da Madre de Deus e do Colégio de São Paulo, complexo do século XVI destruído por um incêndio em 1835. A não perder.

Consultar

turismodemacau.com.pt
macaotourism.gov.mo

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.