Colados uns aos outros, avançam pelo corredor do avião o mais depressa que conseguem. Têm uma angústia gravada no rosto, parente do pânico, olham apenas na direção da porta. Aqueles que estavam nos bancos à janela, que não conseguiram sair antes, não podem sair agora, ninguém os deixa chegar ao corredor.

Antes, assim que o número do portão foi anunciado nos ecrãs do aeroporto, fizeram fila para entrar no avião. Numa pressa que não perdoava minutos de atraso, impacientaram-se, ferveram baixinho. Assim que se sentaram, desejaram que o avião levantasse voo.

Assim que o avião aterrou, as rodas a tocarem no chão, a aterragem brusca, os cintos começaram a estalar. As fivelas dos cintos de segurança abrem depressa, basta puxá-las. Então, quando o avião abrandou, saltaram imediatamente das cadeiras, como se tivessem molas, eles ou as cadeiras, como se houvesse algum sistema mecânico que os fizesse levantar-se ao mesmo tempo e, em corrida cronometrada, tivessem de abrir as bagageiras, tirar as mochilas, as malas, os sacos de plástico.

E ficaram no corredor, encaixados como peças de tetris, um com o cotovelo nas costelas do outro, um terceiro com a mochila no queixo de um quarto. E, claro, sempre em bicos de pés, interessados em algo que acontece lá ao fundo, a procurarem a porta com o olhar, preocupados, com medo que abra e feche tão depressa que não lhes dê tempo para sair.

É por isso que, quando a porta abre por fim, não podem parar por nada, têm de sair o mais depressa possível do avião. Não importa se há quem esteja a tentar passar. Salve-se quem puder, é cada um por si.

Há ocasiões em que essa pressa é justificada, escalas, voos de ligação, e há outras em que não é. Acredito que, na maior parte dos casos, não se trata de pressa, mas sim de ansiedade. Por um lado, há a claustrofobia, aquele lugar de janelinhas redondas, ar condicionado e lâmpadas brancas a milhares de metros de altitude. Por outro lado, há o facto de aquelas pessoas não estarem ali.

Por um lado, há a claustrofobia, aquele lugar de janelinhas redondas, ar condicionado e lâmpadas brancas a milhares de metros de altitude. Por outro lado, há o facto de aquelas pessoas não estarem ali.

Explico: quando chegam ao aeroporto, antes, durante e depois do voo, essas pessoas já estão a pensar no lugar para onde se dirigem. A viagem de avião é um constrangimento a que têm de se submeter para chegar lá. Querem acabar com esse aborrecimento o mais depressa possível, entrar com urgência, sair com urgência, e chegar ao seu destino. Lá, a sua vida será retomada. Até lá, a sua vida está suspensa. Segundo esta perspetiva, viajar de avião é uma espécie de purgatório.

No entanto, depois de entrar a correr, de sair a correr, chegam aos tapetes rolantes da bagagem e, como todos os outros, têm de esperar pela sua mala. Essa roleta é soberana e ditará a ordem a que realmente sairão do aeroporto e chegarão ao seu destino. Pode até acontecer, se estiverem num desses dias, que, depois da última mala, tenham de tirar uma senha nos perdidos e achados e acabem a descrever a forma e a cor da bagagem a um funcionário desinteressado. Nesse caso, como diz o povo, os primeiros são os últimos.


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