Esqueça os preconceitos que possa ter sobre Tenerife. Sim, é árido, tem turistas aos magotes e parques de diversão aborrecidos. Só que estão todos concentrados na Costa Adeje. Todos os outros dois mil quilómetros quadrados, mais coisa menos coisa, são um paraíso genuíno de gentes afáveis e paisagens avassaladoras.

Texto Carla Macedo
Fotografias João Viegas Guerreiro

Maminhas ao léu por todo o lado. Esta é a primeira impressão que as praias de Tenerife nos causam: as jovens mergulhadoras acabadas de sair do mar, as mulheres gordas em banhos de sol, as mães de família com crianças de colo. Há um certo ar de anos 1980 nas praias da maior ilha das Canárias, para dizer a verdade em toda a ilha, meio parada num tempo ligeiramente atrás, quando as horas corriam mais devagar, havia menos dinheiro e as pessoas tinham paciência para falar umas com as outras, sem medos nem pudores.

Por exemplo, a senhora velha que desce as escadas em direção ao mar e nos diz que a água hoje está fria. «Fresquita» é expressão concreta, numa terra em que os habitantes locais usam os diminutivos constantemente e tratam qualquer pessoa com um carinho genuíno que parece estranho a quem está acostumado a uma Espanha mais bruta. Nós rimo-nos desta baixa temperatura da água, a rondar os 18 graus neste dia. Para os portugueses continentais é um luxo, para os tenerifenhos não. A temperatura média da água nesta costa é de 21 graus, por isso percebemos se a senhora não quiser dar umas braçadas hoje, mas a imagem que nos aparece é a de nadar todos os dias do ano, caso tivéssemos a sorte de viver nesta ilha. Há uns tempos a senhora deve ter tido a mesma epifania. Ostenta uns belos 70 anos e mergulha energicamente na baía azul que o molhe de pesca de Puertito de Güímar criou, para nadar até à praia e depois voltar. São uns trezentos metros de distância.

Esta plataforma que os aldeões e os turistas usam para se aquecer ao sol depois dos banhos de mar parece ao longe repleta de lagartos.

Praia de Puertito de Güímar

Daqui, vê-se a praia de areia negra em primeiro plano, o casario da pequena povoação piscatória e as suas belas tascas que servem ao jantar saladas de abacate e choquinhos fritos deliciosos e, ao lado, as urbanizações para turistas locais – gente que vive em Santa Cruz de Tenerife ou em La Laguna e que aqui tem a sua casa de praia. Atrás dos bairros novos, a montanha sobe a pique e a paisagem natural vai mudando de acordo com a posição do Sol.

Quase não há praias de areia branca em Tenerife. As de areia negra são as naturais e o chão desce a pique para as profundezas do oceano.

Sem ser na Costa Adeje, plenamente explorada (e gasta?) pelo turismo de massas, e em Las Teresitas, a oeste da capital da ilha, não há praias de areia branca em Tenerife. As de areia negra são as naturais e na sua maioria estão localizadas em fajãs cujo chão depois de uma estreita língua de areia desce a pique para as profundezas do oceano. É por isso que, com água pela cintura, é imediatamente possível ver cardumes de peixes cinzentos. Com água pelos ombros mergulha-se e veem-se cardumes coloridos. Por essa razão, o arsenal de praia dos tenerifenhos, de todas as idades, tem sempre óculos de mergulho e tubo de respiração e esta é uma das caraterísticas dos habitantes locais de imitação obrigatória. Falar de mansinho é a outra.

A natureza foi prodigiosa em Radazul, uma fajã urbanizada intensamente e na vertical na década de 1980. Na praia misturam-se famílias veraneantes, jovens a trabalhar para o bronzeado, com grupos de mergulho com garrafa e de apneia. No mar, ainda dentro da baía, cruzam-se barcos de mergulhadores que aproveitam a falha com 140 metros de profundidade e excelentes condições de visibilidade para apreciar as belezas naturais do fundo do mar.

O porto de pesca desta pequena localidade alberga vários centros de mergulho onde é possível alugar equipamento, reservar um barco e requisitar guia para nos levar diretamente aos melhores pontos submersos da ilha. Alguns destes centros incluem entre os seus serviços mergulhos noturnos, nos quais se pode observar espécies marinhas completamente diferentes das que aparecem durante o dia. E quando se volta do mar, nada como uma caña num dos restaurantes do porto, um prato de chipiriones (os tais choquinhos) ou uma piza.

A natureza foi prodigiosa em Radazul, uma baía com 140 metros de profundidade e excelentes condições de visibilidade.

Uma última referência a praias: Mesa de Mar. Situada na vertente norte da ilha, esta baía em forma de ferradura tem areia grossa e uma piscina natural coberta de seixos gigantes, bastante segura para as crianças. O mar vem batido pelo vento norte e por isso as ondas que aqui se formam entram muitas vezes com força e puxam para o fundo. Cuidado é preciso. Mas a praia vale mesmo a pena. Nos dias em que a bruma húmida do mar se levanta, o que dali se vê inteiro é o Teide, a montanha que comanda a ilha, a sair do oceano e a atingir o céu. É colossal nos seus 3718 metros de altitude.


Do Mar à Montanha

Teide. Não há ponto de Tenerife onde não se sinta a sua influência. A montanha mais alta do território espanhol (sim, mais alto que o monte Aneto, nos Pirenéus) é também o ponto mais alto de todas as ilhas do oceano Atlântico e o dramatismo de subidas e descidas na paisagem é acentuado por estar tudo tão próximo.

A montanha mais alta do território espanhol é também o ponto mais alto de todas as ilhas do oceano Atlântico.

O clima muda muito com a altitude, da costa ao pico pode haver variações de mais de 20 graus de temperatura. No inverno, o topo do vulcão pode estar coberto de neve enquanto nas marinas os termómetros marcam 23 graus ou mais. Os grandes promontórios junto ao mar impedem a subida da humidade que se concentra nas vertentes menos ensolaradas criando microclimas diferentes a cada duzentos metros. Crescem bananas e papaias por todo o lado, pequenas as primeiras, enormes e carnudas as segundas, todas verdadeiramente tropicais.

Tenerife é uma ilha, mas não é pequena. Não há estradas que a percorram na totalidade, há zonas servidas apenas por vias de terra batida, pelo que não vale a pena tentar dar a volta à ilha apenas num dia. Só para alcançar a estação inferior do teleférico que sobe ao Teide, de qualquer ponto da costa, conte com pelo menos uma hora de carro. As estradas estão em bom estado mas são sinuosas o suficiente para recomendarmos cuidados redobrados.

Acima dos três mil metros já se sentem os efeitos da altitude. Para alcançar o pico do Teide é preciso estar numa razoável forma física.

A paisagem muda com a altitude, há bosques de meia montanha com parques de merendas excelentes para fazer um piquenique na natureza, mas é quando se chega aos dois mil metros que a paisagem se torna cada vez mais vulcânica, mais inóspita e mais emocionante. Emocionante sim, porque percebemos estar numa zona nova da Terra, acabada de criar – a última erupção deste vulcão ocorreu em 1909 e ainda são poucas as plantas que se aventuram a nascer nesta zona inóspita. Estamos perante um deserto de detritos das explosões, areias douradas, formações de lava que ainda se conseguem imaginar incandescentes.

O pico do vulcão é acessível apenas a pé. Por toda a zona vulcânica há percursos assinalados e de livre acesso para grupos de caminheiros, mas para subir ao cume é preciso, além de coragem, pedir autorização junto da instituição que gere os parques naturais em Espanha (reservasparquesnacionales.es) e é preciso fazê-lo com bastante antecedência porque as vagas diárias para a ascensão são poucas, de forma a não desgastar em demasia o caminho e a envolvente.

São muitas as opções de atividades ao ar livre em Tenerife. As caminhadas são bastante procuradas por turistas de todas as idades.

Quem não conseguir vaga não fica mal servido com os trilhos 11 e 12 que partem da estação superior do Teleférico Volcano Teide, a uma cota de montanha de 3550 metros. Estes dois caminhos levam ao Mirador da Fortaleza e ao Pico Viejo. No primeiro, se a visibilidade permitir, é possível ver toda a costa norte com os seus promontórios a cair a pique no mar e o vale fértil de Orotava. No caminho do Pico Viejo é possível observar a Caldera Las Cañadas, uma grande cratera, a mais antiga de todas, que terá abatido quando a erupção mais potente do pico velho a esvaziou – a NASA explica todo o processo no seu site. Além da visão do sistema vulcânico, há uma recompensa maior: o horizonte que se vê daqui não é uma linha reta. É redondo. A esta altitude vemos que a Terra é claramente redonda.

A esta altitude também sentimos no corpo que o ar é rarefeito, caminhamos muito mais devagar e sentimo-nos cansados logo à saída da estação superior do teleférico. É que a ascensão em sete minutos da estação inferior à superior é demasiado rápida para o corpo se habituar às condições da altitude extrema. É boa ideia ir com tempo para fazer pausa pelo caminho. A paisagem, como se viu, convida à contemplação.

 

Dicas

Documentos: cartão de cidadão
Moeda: Euro
Fuso horário: GMT
Idioma: Castelhano

Ir
A Iberia (iberia.com) tem voos diários de Lisboa ou do Porto para Tenerife com escala em Madrid. O tempo total ronda as cinco horas e o preço fica por 450 euros. Há dois aeroportos em Tenerife. Quando fizer a reserva dos voos verifique se chega e parte do mesmo local, porque a corrida de táxi entre os dois demora 40 minutos e ascende ao cem euros. Para fazer passeios, aceder às praias e aproveitar ao máximo a natureza, alugue um carro. Há também autocarros que servem os maiores pontos de interesse da ilha, mas com menos liberdade. Há companhias de rent-a-car nos dois aeroportos.

Dormir
Para uma viagem à Tenerife Natural faz mais sentido reservar um alojamento local. Há vários apartamentos disponíveis em condomínios com piscina, em lugares sem hotel como Puertito de Güímar e Poris Abona a partir de 20 euros por noite, e casas de campo de meia montanha, acima de Radazul, no site airbnb.com

Parador Cañadas del Teide
O Parador de Cañadas del Teide, com vista para o vulcão, tem quartos standard para duas
pessoas por 173 euros. O hotel é ideal para quem quiser explorar intensamente os caminhos de montanha. É preciso reservar com antecedência.
paradores.es

Ritz Carlton Abama
A meio caminho entre a Tenerife Natural e as praias mais animadas está este resort de cinco estrelas com vista para a ilha La Gomera. Aqui, há dez hotéis, oito piscinas e tanta coisa para fazer que nem é preciso sair do resort para se divertir.
Quartos duplos a partir de 372 euros.
ritzcarlton.com

Comer
Em Tenerife, longe dos centros turísticos, é possível afirmar que se come bem em qualquer
tasca. Sardinhas fritas, choco frito, choquinhos, batatas bravas, saladas de abacate, são
pratos simples e habituais nos restaurantes frequentados pelos populares. Dez euros por pessoa chega e sobra.

Lucas Maes
Alta cozinha com sabores de Tenerife. Este restaurante chique na costa norte da ilha, junto à cidade de Orotava , já serviu os reis espanhóis.
restaurantelucasmaes.com.

Visitar
La Orotava
A cidade parece parada no século xix, não fossem os carros. Há várias igrejas e museus que merecem a visita pelo interior. Os passeios a pé são obrigatórios para descobrir o conjunto urbano-arquitetónico que está protegido desde 2005.

Teleférico de Teide
O Teleférico de Teide abre às 9h00 e a última descida começa às 16h45. A ascensão entre as duas estações dura cerca de sete minutos. A cabina tem capacidade para cerca de 40 pessoas. A subida é tão rápida que uma vez lá em cima é melhor parar um pouco, sentar-se e deixar o corpo aclimatizar-se antes de se pôr a caminhar. O ar é rarefeito. Por causa da diferença da pressão atmosférica a empresa que explora este teleférico recomenda que
pessoas com problemas cardíacos, grávidas e crianças com menos de 2 anos não façam esta ascensão. O preço para os turistas é de 27 eurose inclui ida e volta. Para as crianças é metade.
volcanoteide.com

Candelária
Foi capital de Tenerife no início da ocupação espanhola. A catedral é um importante monumento e tem exposto um Cristo maneirista dos mais belos de Espanha. Na grande praça que ladeia o templo foi levantado um monumento aos reis guanches, o povo que habitava a ilha antes de 1402. Surgem como figuras míticas de costas para o mar. Os guanches parecem ter tido uma origem comum aos povos berberes, mas no século xv não tinham qualquer meio de transporte marítimo. Foram grandes guerreiros e grandes nadadores.


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