Irão de A a Z

Após três décadas de sanções internacionais, a primeira república islâmica abre as portas ao mundo. O que tem para mostrar é muito mais do que bazares, mesquitas e palácios. Este é um lugar incomparável no Médio Oriente. De A a Z, aqui está um roteiro para decifrar.

Texto de Margarida Santos Lopes
Fotografias de Marisol González

Ashura: a paixão xiita
Quem chega ao Irão depois de Muharram, o primeiro mês do calendário islâmico, e da cerimónia de Ashura poderá pensar que Jesus andou por ali. A imagem de um homem de barbas, sobrancelhas bem delineadas, rosto perfeito e olhar melancólico evoca a figura central do cristianismo. Mas quem vemos é Hussein ibn Ali, neto de Maomé que foi orto pelas tropas omíadas de Yazd I numa batalha em Kerbala, atual Iraque, em 680. Depois do martírio de Hussein, os muçulmanos xiitas passaram a considerar os califas sunitas como «usurpadores». Reconhecem apenas os seus imãs, a quem atribuem qualidades divinas. O Ashura contribui para a singularidade do Irão, que tem 19 locais classificados pela UNESCO como Património da Humanidade.

Uma das componentes do culto de Hussein, comparado à Via-Sacra na tradição católica, são as «procissões da paixão xiita» ou taziehs, teatro de rua com atores amadores e profissionais. Estas peças são geralmente acompanhadas de música e narração de versos. Faixas verdes (em honra da linhagem de Maomé), com inscrições religiosas a negro (expressão de dor pela morte de Ali, o primeiro imã) e vermelho (para assinalar o sacrifício de Hussein), decoram ruas e bazares, mesquitas e mausoléus. Um dos espaços onde se realizam as taziehs são as hussainiya, pátios com duas colossais edificações: o tekye e o nakhl. A primeira é uma estrutura de três andares com múltiplas arcadas. A segunda é um andor funerário.

Os mais famosos encontram-se no Complexo de Amir Chakhmagh na cidade de Yazd, «museu das almas que choram». Ao pôr do Sol, o principal nakhl de Yazd, dos mais antigos (450 anos), 8,5 metros de altura e forma de cipreste, ilumina-se de vermelho alaranjado. Nos desfiles de Ashura chega a pesar várias toneladas, devido aos adereços que o cobrem. É erguido em ombros por centenas de homens.

Bazares: centros de poder
Cidades dentro de cidades, os bazares são mais do que comércio. São instituições com papel fundamental na história política e económica. Apoiaram a Revolução Constitucional de 1905-1911 e a nacionalização do petróleo em 1951. Em 1977, antes das mesquitas, revoltaram-se contra o xá Reza Pahlavi, quando este lhes retirou o monopólio das importações e exportações. Hoje, os bazaaris continuam poderosos, mas tiveram de se adaptar à globalização. Quem vai ao Grande Bazar Teerão deixe maravilhar-se com a beleza dos tetos. Preste atenção não só às carpetes persas ou especiarias, fruta e frutos secos, às miniaturas pintadas à mão ou tinturarias. Delicie-se com bancas onde sutiãs coloridos disputam espaço com vestidos de lantejoulas; camisas e gravatas ganham lugar depois de banidas como símbolo do «Ocidente depravado». Usar uma gravata não é afirmação de moda: é assumir uma posição política. Na capital com mais de oito milhões de habitantes, há outros mercados, como o Jomeh Bazar, só às sextas-feiras, como o nome indica. Funciona num silo de estacionamento na Rua Jomhuri. Em vários andares, mercadoria variada: máquinas de filmar e bobinas antiquíssimas; câmaras fotográficas e saxofones; pins com as caras de Albert Camus ou de Marilyn Monroe… Em Shiraz, ao fim de tarde, deslumbre-se com a arquitetura do Bazar-e Vakil (Bazar do Regente), do século XI. Nas suas mais de 200 lojas há «o melhor do Irão», diz-se. O bazar, supostamente, mais antigo do Médio Oriente é o de Isfahan, herança das dinastias Seljúcida (turcos e sunitas) – quando começou a ser construído – e Safávida (a que instaurou o xiismo). Dois quilómetros de área comercial, coberta de cúpulas e abóbodas, é o coração da antiga capital do xá Abbas I. A sua importância mede-se pelo número de madrassas, mesquitas e hammans.

Na República Islâmica do Irão vivem perto de oitenta milhões de pessoas. A antiga Pérsia tem costa no mar Cáspio e no oceano Índico, ocupando uma posição estratégica na geopolítica na Ásia Ocidental.

Cinemas e teatros
Ao passear em Teerão e noutras cidades, observe as salas de cinema e teatro. São prova da capacidade de resistência dos iranianos. A 19 de agosto de 1978, meses antes da Revolução Islâmica, um fogo de origem criminosa destruiu o Cinema Rex, em Abadan. Morreram mais de 500 dos 700 espetadores. O antrior regime monárquico culpou a oposição, e esta responsabilizou a SAVAK, ex-polícia secreta. Certo é que 180 cinemas e teatros foram posteriormente queimados, sem vítimas. Hoje, apesar das muitas e rígidas linhas vermelhas da censura, já são exibidos filmes estrangeiros e o cinema iraniano, com realizadores como Abbas Kiarostami, Hana Makhmalbaf ou Asghar Farhadi (que ganhou um Óscar, em 2012, com A Separação), é dos melhores do mundo.

Dario e Persépolis
Os iranianos dão dois nomes a Parsa, capital do Império Aqueménida que o rei Dario I mandou construir, em 518 e 516 a.C., e que é paragem obrigatória de qualquer circuito turístico. O primeiro, Takht-e Jamshid (Trono de Jamshid), está relacionado com o Livro dos Reis (Shahnameh), poema épico de Ferdowsi. O segundo – Persépolis – deve-se à identificação feita, em 1620, por D. Garcia de Silva y Figueroa, espanhol embaixador de Portugal na corte de Abbas I.

A identificação de Figuero foi bem aceite pelos iranianos, diz Ali Ansari, professor na Universidade deSt. A drews (Escócia).

«Jamshid era visto como rei do mundo. Não foi difícil substituí-lo pelo rei aqueménida Ciro, quase um rei do mundo, embora eja anterior a Persépolis.» Soterrada nas suas ruínas – em 330 a.C., o general macedónio Alexandre, o Grande, incendiou os majestosos salões de audiência e os palácios residenciais – o restauro só começou em 1931, quando o Instituto

Oriental da Universidade de Chicago iniciou escavações. Hoje, ficamos extasiados na visita que começa no Portão das Nações e termina ,a 12 quilómetros de distância, nas necrópoles de Naqsh-e Rustan, sarcófagos dos reis aqueménidas e sassânidas esculpidos em rochas. Inesquecível, o Palácio de Apadana. reze das suas 72 colunas ainda resistem sobre uma enorme plataforma com duas escadarias monumentais de acesso. Estão decoradas mostrando o desfile de representantes e 23 países súbditos, notáveis da corte, persas e medos, soldados e guardas, cavalos e carruagens reais, com presentes para o rei. À saída, a «cidade de tendas», mandada erguer pelo último xá Pahlavi para assinalar 2500 anos da fundação do império, tornou-se cemitério da monarquia. Um juiz revolucionário tentou destruir Persépolis em 1979. Os iranianos travaram as escavadoras.

Enqelab: os nomes das ruas
Na cidade de Teerão, onde nos acolhem com um «Welcome to Iran», repare na toponímia. A Rua Enqelab-e Islami (Revolução Islâmica), por exemplo, homenageava antes Reza Shah, fundador da dinastia Pahlavi. A Vali Asr, foi Pahlavi até 1979, mudou para Mossadegh (o chefe de governo derrubado pela CIA, em 1953) e agora glorifica o 12º imã xiita. A Praça Azadi (Liberdade) já foi de Eisenhower e o Boulevard Winston Churchill – onde está a Embaixada Britânica – mudou para Bobby Sands, grevista da fome do IRA que Margaret Thatcher deixou morrer na cadeia.

Futebol: Ronaldo e Queiroz
Os iranianos são «fanáticos» por futebol, e entre os seus ídolos estão dois portugueses: Cristiano Ronaldo e Carlos Queiroz. Repare nas capas de revistas e nos posters à venda em quiosques. A popularidade do jogador do Real Madrid, comparado a um rei (The King), só é contrariada pela do argentino Messi, do Barcelona. Queiroz treina a seleção nacional de futebol masculina desde 2011. Pediu recentemente a demissão, mas não foi aceite. Prometeu apurar a equipa para o Mundial de 2018. Famoso é também Toni, treinador de Tractor entre 2012 e 2015, ano em que perdeu o campeonato. Os vídeos delirantes das suas conferências de imprensa tornaram-se virais na internet

Gertrude Bell
A história do Irão estará incompleta se não falarmos de Gertrude Bell (1868-1926), escritora e arqueóloga britânica que, depois da I Guerra Mundial, criou o moderno Iraque – hoje governado pela maioria xiita. O “país de Bell” durou 37 anos, mais do que os 35 do Partido Baas, de Saddam Hussein. Gertrude Bell, que aprendeu a falar a escrever persa sem professores, foi para Teerão, pela primeiravez em 1892, quando o tio era embaixador. Safar-Nameh: Persian Pictures foi seu primeiro livro de viagens. The Hafez Poems of Gertrue Bell (Classicals) e of Persian Literature) é considerada a melhor tradução em inglês dos versos de um dos maiores poetas iranianos.

Hafez: poeta nacional
Se há um lugar que une os iranianos de todas as origens é o mausoléu de Hafez em Shiraz, cintilante sob uma cúpula de mosaicos multicoloridos suportada por oito pilares num amplo jardim de ciprestes e pinheiros, laranjeiras e arranjos florais. Aqui, de preferência à noite, juntam-se homens e mulheres de todas as idades. Chegam como peregrinos. Aproximam-se do túmulo, acariciam a pedra e mármore e as suas inscrições. Muitos trazem o Diwan, a antologia dos poemas de Hafez. Abrem o livro numa página ao acaso, procurando bênçãos. O poema que os olhos encontrarem será a resposta à inquietação. Shemsuddin ohammad nasceu em 1320 em Shiraz, a cidade onde também está sepultado outro grandepoeta, Sa’adi. Ficou conhecido como Hafez por ter decorado o Corão quando era criança, o que era sinal de educação. Os seus poemas centram-se na efémera condição humana. “Todos se sentem representados”, observou o escritor Afshin Molavi. “É um sufi, pensador livre, liberal, agnóstico. (…) Hafez revelou claramente a ambiguidade das suas palavras quando disse: «Num dia recito o Corão e noutro bebo vinho.’ Ele não exige aos seus leitores uma única visão do mundo».

Iran Fashion: nem tudo é chador
Numa tarde de Março de 1928, quando trocava o pesado chador que usava na rua por outro mais leve para rezar na Mesquita de Fatima, em Qom, a mulher de Reza Khan Pahlavi deixou o rosto a descoberto. Um mullah viu-a e insultou-a. No dia seguinte, o imperador chegou à mesquita com dois carros blindados e 400 soldados. Entrou no santuário sem descalçar as botas militares, arrancou o turbante ao mullah, puxou-lhe os cabelos e deitou-o ao chão com uma vara. Em 7 de Janeiro de 1936, o chador seria proibido por decreto real. Nas ruas, a Polícia tinha ordens para arrancar os véus à força ou cortá-los com tesouras. Muitas mulheres devotas optaram por não trabalhar ou estudar.

A interdição foi levantada em 1941, quando Reza ahlavi ascendeu ao trono. Os homens do púlpito não esqueceram a afronta. Em 7 de Março de 1979, véspera do Dia Internacional da Mulher, Khomeini impôs a obrigatoriedade do chador. Nenhuma manifestação de protesto o demoveu. Nas ruas, os seus milicianos puniam quem mostrasse um fio de cabelo. A partir dos anos 1990, com a proliferação das antenas «paradiabólicas» e das redes sociais, face à pressão dos jovens – 60% dos 80 milhões de habitantes, muitos sem emprego terminada a universidade –, as autoridades abriram válvulas de escape. Hoje, sobretudo nas áreas urbanas, já não é o negro que predomina. Os lenços descobrem mais do que cobrem. E resplandecem em cores vibrantes: amarelo, laranja, turquesa. Podem ser Chanel ou Hermès (originais ou de contrafacção). As formas do corpo já não se ocultam com gabardinas largas. Exibem-se com túnicas cintadas e curtas. Jeans e leggings deixam à mostra o que tinha de ser escondido. Os rostos carregam-se de maquilhagem. Sobrancelhas com tatuagens permanentes depois de totalmente depiladas. Unhas que se prolongam em gel vermelho ou azul petróleo.

Neste caleidoscópio de mudanças, surgiu uma nova indústria: a moda. Uma das passarelas para os novos criadores é o Fórum dos Artistas, em Teerão. Aqui, raparigas e rapazes, alguns com rastas e piercings, desafiam as convenções desfilando peças das marcas Poosh, de Farazi Abdoli, ou Radaa, de Maryam Vahidzadeh. Misturam tradição e modernidade. São alternativa aos modelos estrangeiros, embora se inspirem em figuras como Alexander McQueen ou Balmain.

Joias e outros tesouros
Durante muito tempo escondidas numa cave, para evitar a «ocidentoxicação», algumas das maiores obras de pintura e escultura do século xx viram finalmente a luz do dia e estão expostas no Museu de Arte Contemporânea de Teerão: Kandinsky, Pollock, Warhol, Bacon, Rothko, Ernst, Giacometti, Magritte, Moore… De um total de 1500 obras, uma das mais admiradas é Mural on Indian Red Ground, de Jason Pollock, avaliado pela leiloeira Christie’s em 235 milhões de euros em 2010. Este tesouro nacional foi adquirido pela antiga imperatriz Farah Diba quando o Irão nadava em receitas do petróleo. Os cofres estão agora mais vazios, e isso explica, em parte, os investimentos no Museu de Arte Contemporânea e no Banco Central do Irão, onde se admiram as colecções de joias das dinastias Safávida, Qajar, Pahlavi. Uma das peças mais extraordinárias é o Trono do Pavão. Feito de madeira coberta de ouro, tem incrustadas 26 733 pedras preciosas.

Khomeini e os shahid
Entrar no mausoléu de Khomeini, na autoestrada entre Teerão e Qom, é uma experiência única. O ayatollah de vida espartana ficaria surpreendido com a arquitetura extravagante e kitsch do desmesurado complexo que abriga o seu jazigo. Vale a pena entrar e ver quem são os «deserdados» em cujo nome foi feita a revolução. Nos arredores, menos faustoso, mais antigo e concorrido, fica o Cemitério de Behest-e Zahra, ou Paraíso de Zahra. O que mais impressiona neste espaço, que começou a ser construído na década de 1950, não são as campas dos cidadãos comuns. Nem as dos opositores de Mohammad Reza Pahlavi que aqui se reuniam para fugir à SAVAK. O que é realmente excecional é a área reservada aos milhares de mártires (shahid) da guerra com o Iraque (1980-1988).

A beleza de Yazd, centro do zoroastrismo, situado na antiga Rota da Seda, está implícita nos seus vários nomes: Pérola do Deserto ou Cidade dos badgirs, torres de vento.

Livros de referência
Para o viajante entender o Irão não é suficiente o Lonely Planet. Ficam aqui sugestões de leitura: A Estrada para Oxiana, obra-prima de Robert Byron; Shah of Shahs, de Ryszard Kapuscinski; Persepolis, de Marjane Satrapi; Persian Mirrors – The Elusive Face of Iran, de Elaine Sciolino; The Soul of Iran, de Afshin Molavi; O Despertar do Irão, de Shirin Ebadi; Ler Lolita em Teerão, de Azar Nafisi, Memórias, de Farah Diba Pahlavi; e, claro, a poesia de Hafez, Rumi, Omar Khayyam.

Mullahs disfarçados
As palavras persas mullah ou akhoond são usadas para caraterizar os religiosos que, em 1979, assumiram o poder temporal. Não são, porém, termos lisonjeiros. Os mullahs (de hojatoleslam a ayatollah) preferem ser chamados de rouhani ou «clérigos». Akhoond deriva do verbo «cantar» e do facto de muitos religiosos entoarem elogios fúnebres a pedido – tarefa que empobreceu a classe. Caso se cruze com um mullah, atente na cor (branca ou negra) do turbante. Se for preta, significa descendência de Maomé, e isso confere o direito de ser tratado como sayyid (senhor).

Nike e narizes estilizados
A aparência física e o vestuário ainda se mantêm códigos de identificação política. As barbas, por exemplo, ainda exprimem zelo revolucionário, mas muitos jovens adotam agora a de estilo hipster (espessa e bem aparada) em vez da hezbollahi (de três dias). Os hezbollahi ou «partidários de Deus» não usam jeans. A camisa, de preferência branca e sem colarinhos, está sempre por fora das calças. Calçam sapatos básicos ou sandálias. Resistem à moda da Nike, mesmo que as suas mulheres de chador negro sucumbam à tentação. O branco dos ténis combina com o branco dos pensos no nariz.

O número de rinoplastias que se fazem neste país ascenderá a 200 mil por ano. Como é que começou esta obsessão?Perguntámos a Farhad Hafezi, dos mais procurados cirurgiões plásticos em Teerão, que respondeu, por e-mail: «Os narizes no Médio Oriente têm um dorso acentuado e são dos maiores do mundo. A cirurgia plástica foi introduzida no Irão, nos anos 1960, pelo médico francês Syros Osanlou, que formou muitos discípulos. Nenhum outro país da região teve esta experiência, e foi assim que Teerão se tornou a “capital da rinoplastia”.» Hafezi faz uma média de uma a duas cirurgias por dia, seis vezes por semana. «Creio que já operei uns 17 mil pacientes em 25 anos de prática», disse. «Uma operação para casos simples demora, em média, uma hora e três minutos. Ao fim de uma semana, o/a paciente regressa à vida normal, mas o resultado final só pode ser avaliado ao fim de um ano ou dois.»

Persas e os outros
Não se confunda o rão com um país árabe, mas não se cometa também o erro de o descrever como sendo apenas dos persas. Sim, os persas são o maior grupo étnico, mas não o único. Outros são azeris (12-20 milhões), curdos (quase 8 milhões), baluchis (1,5 – 2
milhões), árabes (2% ou mais de 1,5 milhões), lors (mais de 4,5 milhões, mistura de persas e árabes), turcomanos, qashqais, mazandarani, os talysh, gilaki.

Romãs e rosas
A romã (anar, em persa), conhecida como «fruta do paraíso», é parte da identidade nacional. Com mais de 700 variedades, está presente em quase tudo. Não resista a um sumo, confecionado à frente dos fregueses, nas muitas bancas de rua que vai encontrar.
Os bagos da romã são também usados para aromatizar arroz e sopas. A casca serve para tingir carpetes ou pintar cabelos. Em forma de pasta, é o ingrediente principal do célebre fesenjan: galinha estufada com cebolas e especiarias, prato que define a aptidão de um/a cozinheiro/a. Tão famosas como as romãs são as pétalas e a água de rosas (golab), em especial as da cidade de Kashan, usadas em doces, chás, cosméticos e rituais religiosos.

A romã é conhecida como «fruta do paraíso». E é parte da identidade nacional iraniana. Não resista a um sumo de romã, numa banca de rua.

Salome MC: rap-e parsi
Ao visitar a antiga Pérsia (o nome Irão foi oficialmente instituído em 1935), tente conhecer a música e alguns dos instrumentos que a compõem: o dotar e o kamanche, o santur e o setar, o tar e o tombak, o barbat e o ghanon. Encontrará à venda os maiores compositores e intérpretes de música clássica, como o maestro Mohammad-Reza Shahjarian, o Chemirani Ensemble, uma família (pai e filhos) de virtuosos do Zarb ou Alireza Ghorbani. Mais difícil será comprar álbuns e vídeos de Salome MC, uma das vozes do rap-e parsi, corrente criada pelo muito popular Soroush Lashkari, ou Hichkas. Salome, que é também famosa pelos seus graffiti, ataca o regime teocrático (Drunk Shah, Drunk Elder é dos maiores libelos) e mudou-se para a China.

Ta’rof: ritual da hospitalidade
No Irão, habitue-se ao ta’rof, ou «ritual da hospitalidade», a arte de o cliente insistir em pagar enquanto o vendedor recusa obstinadamente o dinheiro oferecido, dizendo que é um prazer servir quem compra. Tente pelo menos três vezes. Se à terceira o pagamento não for aceite, desista.

Usa: down with the…
Os slogans de «Morte à América» (Death to America) e «Abaixo os EUA» (Down with the USA) na antiga Embaixada dos EUA em Teerão começaram a ser apagados em 2015, depois do acordo nuclear. O fervor revolucionário permanece, contudo, nos muros do que Khomeini chamou «Ninho de Espiões». Painéis gigantes no exterior do que é hoje um museu e o quartel-general da milícia Sepah mostram a Estátua da Liberdade com rosto de caveira. A bandeira do «Grande Satã» tem uma arma apontada às suas cinquenta estrelas, num contraste com as flores que acompanham o manto de Khomeini. Se for de metro, que não é segregado mas tem as três primeiras e as três últimas carruagens reservadas a mulheres, deixe-se cativar pelo comércio ambulante. Calcula-se que «a cada vinte segundos» se ouve um pregão: aparelhos de mp3 e pens USB, headphones e baterias de telemóvel, mochilas e óculos de sol, pastilha elástica, pilhas e mapas de estrada, collants e calçado, rímel, sombra para os olhos e bâton… É ilegal, mas é neste tipo de mercado paralelo – quase tudo produtos made in China – que muitos iranianos sobrevivem.

Vank: a catedral cristã
No bairro Nova Jolfa, em Isfahan, a Catedral de Vank é a prova da generosidade de Abbas I – o xá que pôs fim à presença portuguesa no golfo Pérsico em 1622. Após a Guerra Otomana de 1603-1605, dezenas de milhares de arménios provenientes da atual República
do Azerbaijão chegaram ao Irão em busca de nova vida. Foram recebidos de braços abertos na capital do Império Safávida e, desde logo, começaram a construir igrejas e mosteiros: haverá em todo o país mais de duzentos. Do primeiro desses mosteiros, erguido em 1606, nasceu a Catedral de Vank, que ficaria concluída em 1664. É dos maiores e mais lindos templos cristãos do Irão, o interior coberto de frescos, talha dourada, azulejos, murais. A magnificente cúpula central retrata a história bíblica da criação do mundo e a expulsão do homem do Paraíso. Os arménios são uma minoria protegida, com direito a dois deputados no Parlamento em Teerão.

Xiitas e sunitas
A representação de Maomé é considerada sacrilégio por muitos muçulmanos, mas não no Irão. O «Mensageiro de Alá», face coberta por um pano branco, ornamenta as paredes de uma pequena mesquita em Isfahan, num recanto do Grande Bazar. Há quem tenha encontrado também postais, miniaturas e até carpetes com o rosto do profeta do islão. O amor pelas artes visuais distingue os xiitas, a maioria no Irão, dos sunitas, a maioria ortodoxa do islão, que condenam imagens de ídolos.

Yazd: zoroastras e não só
Quem elogiou Yazd como «a cidade desértica mais bela do mundo» tinha razão. Na antiga Rota da Seda, é como se tivesse parado no tempo. Na parte velha, casas moldadas a barro, lama e palha serpenteiam kuches (vielas) labirínticas com abóbadas que as protegem do sol inclemente. Aqui, sem darmos conta, entramos num banho público ou numa padaria. Somos convidados a ouvir um concerto de setar numa galeria de arte ou ficamos estupefactos ao olhar para as fotos de poetas proibidos afixadas nas paredes de um café. A Mesquita Jameh (de sexta-feira), um dos edifícios mais esplendorosos do século xvi, está coroada pelo maior par de minaretes da Pérsia. Profundamente religiosa, a avaliar pelas caixas de esmolas espalhadas pelas ruas, Yazd não é, porém, uma cidade conservadora. Isso explica o facto de Mohammad Khatami, o ex-presidente que quer reformar o regime, ter aqui uma das suas principais bases de apoio. Esta é também a cidade onde vivem duas minorias. Os judeus – a maior comunidade no Médio Oriente depois de Israel – têm duas sinagogas. Os zoroastras, a primeira religião, orgulham-se da suas Torres do Silêncio, onde punham os ossos dos mortos, e do seu Templo do Fogo, com uma «chama eterna». Uns e outros, tal como os arménios, estão no Parlamento.

No deserto misturam-se religiões e etnias. Em Yazd está a maior comunidade judaica da região – depois de Israel.

Zurkaneh: a Casa da Força
Outro lugar especial em Yazd é o Saheb A Zaman Club Zurkaneh, ginásio onde se pratica o varzesh bastani, desporto nacional classificado pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. Só os homens entram no ringue (gowd). Mas as mulheres, incluindo estrangeiras, já podem assistir. Os sapatos descalçam-se, porque o zurkaneh é como um templo sagrado onde se misturam zoroastrismo, xiismo e sufismo. O objetivo é encorajar o patriotismo e a solidariedade, promover a cultura e a identidade iranianas. Os exercícios são uma combinação de yoga, artes marciais e danças rodopiantes. O equipamento é diverso: bastões, pranchas de madeira, correntes… O ritmo é marcado pelo morshed (mestre) que toca zarb, assinala com uma campainha os vários rounds e vai entoando versos de Ferdowsi, Rumi, Hafez e Sa’id.

Khodâ hâfez. Mamnun
(Adeus. Obrigado.)


Guia do Irão

Moeda: Rial (rr) a maioria das transações faz-se em tomans (10 riais = 1 toman). Ainda não se aceitam cartões de crédito nem funciona o sistema de multibanco, devido às sanções. Leve dólares e euros, que pode trocar em casas de cãmbio, e são as divisas exigidas pelos hotéis.
Fuso horário: GMT + 3,5 horas
Idioma: persa/farsi (língua oficial)
Quando ir: preferencialmente, de março a maio e de setembro a novembro. O verão, com mais de 40 graus, e o inverno, com chuva, gelo e neve, são rigorosos.
Documentos: passaporte com validade mínima de seis meses – e sem carimbos de Israel. Recomenda-se que o visto, obrigatório e geralmente de 30 dias, seja pedido à embaixada do Irão. Terá de preencher um formulário detalhado e apresentar uma fotografia

Ir

A Emirates, a Turkish Airlines e a alemã Lufthansa são algumas das opções para voar para Teerão. A British Airways retomará os voos em julho. A Iran Air obriga todas as mulheres a cobrir o cabelo antes de entrarem nos aviões.

Comer

Os iranianos têm orgulho na sua gastronomia. Dizem, e com razão, que têm«o melhor arroz (berenj) do mundo». O mais famoso, com sabor a açafrão, é o tadigh. Significa «fundo do tacho», porque a parte de baixo é uma crosta estaladiça, que pode incluir batatas às rodelas.
Irresistível é também o pão (nân), circular e achatado. Como entrada, o mirza ghasemi é quase viciante: beringela assada com ovos, tomates, alho, curcuma, nozes e amêndoas.
Frango ou cordeiro são deliciosos como kebab (espetada) ou koftas (almôndegas). A carne
é igualmente usada em sopas (âsh), uma delas muito típica é o abgoosht, ensopado de borrego e lentilhas. Prove o dugh: iogurte líquido com água com gás, menta, pimenta e sal. Perca-se nos doces: halva e baklava, folhados de frutos secos embebidos em mel e água de rosas. O chá (chây) – bebido segundo a tradição: um cubo de açúcar caramelizado na língua
antes de sorver o líquido quente – suplantou o café (ghahvé).

Dormir

Nem todos os hotéis no Irão, num total de 1500, seguem os padrões internacionais. Cinco
estrelas podem representar três. O panorama deverá mudar com o fim das sanções. Foi anunciada a construção de 125 empreendimentos de luxo, a partir de 2016, para acomodar
20 milhões de visitantes até 2025. Um novo nicho de mercado – só para estrangeiros – é o das casas certificadas, estilo Airbnb, serviço da empresa suíça OrientStay. Os preços variam entre 20 e 300 euros (um-cinco quartos) por noite. Juntámos as nossas recomendações de hotéis em Teerão, Isfahan, Shiraz e Yazd às de dois guias iranianos, Mohammad Hossein Memarzia e Mansooreh Sani.

Teerão:
– Azadi Hotel
Com vista magnifica sobre as montanhas Alborz.
Norte de Teerão, 5 estrelas

– Hotel Espinas
Perto do Museu das Joias, do Bazar Central e do Palácio Golestão. Excelente serviço.

– Outras sugestões: Atlas Hotel e Esteghlal Hotel.
Baixa de Teerão, 5 estrelas

Isfahan:
– Dibai House
Mansão que remonta a 1670, totalmente restaurada. Não é fácil de encontrar, num labirinto
de ruelas, mas fica perto de tudo: Mesquita Jameh, Grande Bazar, Praça Nakhshe Jahan (Imam). Serviço de grande qualidade: nove quartos para 19 hóspedes. Preços entre 65 euros por noite para duas pessoas em quarto duplo e o aluguer de toda a casa, num total de pessoas, por 750 euros cada.

Hotel Abassi
Construído há três séculos como caravançarai, na zona histórica, começou a ser renovado nos anos 1950. Com uma preciosa e opulenta arquitetura do tempo dos safávidas, rodeado por um jardim magnífico, era um dos preferidos do xá.

Yazd:
– Parsian Safayeh Hotel
Mistura de estilos tradicional e moderno, no centro da cidade, apostou no ecoturismo; o serviço é excelente.

-Silk Road Hotel
Na zona histórica, antigo caravançarai transformado em hotel e restaurante. Os quartos, em redor de um pátio, são modestos; as refeições são ótimas.

Shiraz:
– Niayesh Boutique Hotel
Foi construído preservando a arquitetura original. Situa-se próximo da cidadela de Karim Khan, do Bazar Vakil, do Museu Pars e do Mausoléu de Shah-e Cheragh. Os quartos, com janelas de vitrais, ficam à volta de um belíssimo pátio central ou num anexo à entrada
do edifício.

A não perder

Teerão
– Grande Bazar
– Museu de Arte Contemporânea
– Museu das Joias
– Fórum dos Artistas Iranianos

Isfahan
– Masjed-e Jameh
– Bazar-e Borzog
– Catedral de Vank
– Pontes de Si-o-Seh (33 arcos) e de Chubi
– Mesquita do Xeque Lotfollah

Shiraz
– Túmulos de Hafez e Sa’id
– Mausoléu de Shah-e Cheragh
– Mesquita e o Bazar Vakil
– Mesquita de Nasir al-Molk
– Persépolis e Naqsh-e Rustan

Yazd
– Torres do Silêncio
– Templo do Fogo


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