Num ano decisivo para a Europa, o politólogo Bernardo Pires de Lima faz-se à estrada para percorrer as 28 capitais da União Europeia. Depois de muitas conversas, encontros improváveis e perceções surpreendentes, vai juntar os 28 ensaios num livro. Até lá, a Eurovisão será emitida aqui, na Volta ao Mundo.

La Valeta, Malta

Há império britânico, Essaouira e Nápoles. Barcelona, Mónaco e Palermo. La Valeta cruza ventos do norte de África com o solarengo sul da Europa, num arrumo de fortalezas circundadas por um mar azul turquesa que só nos piores pesadelos alguém diria ser hoje uma vala de gente incógnita perdida nas malditas travessias do Mediterrâneo. Quem tiver a sorte de olhar do alto das muralhas a beleza que envolve a capital do mais pequeno país da União Europeia, ainda por cima num dia de sol de inverno, tem aí uma metáfora destes nossos tempos: vivemos num paraíso a que muitos querem chegar, mas somos demasiado egoístas para ver o que o azul marinho esconde.

Não vi pobreza nas ruas de La Valeta, há até um cheiro a vidas fartas no ar, cruzeiros e iates a entrar e a sair, bom gosto na oferta cultural e gastronómica, a presença constante da cristandade a recordar como foi Malta uma fortaleza mediterrânica às investidas árabes e recorrentes reconquistas cristãs ao longo dos séculos. Não é à toa que as sondagens apontam os malteses como os mais católicos da União.

A catedral anglicana de São Paulo impõe-se ao longe e ao perto, tal como a barroca de São João ou tantas outras que se misturam como peças de um puzzle entre o casario da cidade, criando uma concentricidade urbanística um pouco claustrofóbica, embutida por esse manto religioso envolvido num oceano que o cerca. Parece até que o destino do passado a condena.

Até que um descabido parque de estacionamento que ocupava a nobre Praça da Liberdade, junto à porta principal da cidade, deu lugar ao parlamento mais arrojado entre todos os parlamentos da Europa. Inaugurado em 2015 e desenhado pelo arquiteto Renzo Piano – eu sei, um clássico nestas crónicas, mas não há como fugir –, enquadrou-se junto às ruínas da ópera nacional, destruídas por bombardeamentos nazis durante a Segunda Guerra Mundial.

O parque de estacionamento deu lugar a um jardim e os esquissos procuraram prolongar a rampa que nasce da porta principal da muralha de La Valeta com a visão de abertura ao céu. Assim ligou-se a austeridade das pedras à claridade luminosa da ilha, erguendo-se um edifício moderno que projecta as linhas rectas em redor, expondo o seu interior ao ambiente solar externo. A dignidade contemporânea da obra alberga o parlamento, escritórios dos deputados, o gabinete do primeiro-ministro e do líder da oposição. Os dois blocos são recortados por uma imensidão de pequenas janelas que filtram a intensidade da luz natural e adornam a pedra criando um efeito arquitectónico invulgar.

A geração de calor e a sustentabilidade energética tornam o edifício praticamente autossuficiente, enquanto que uma escadaria envolve um elevador panorâmico no exterior. Ao lado, as ruínas da antiga ópera foram aproveitadas para eventos culturais através de uma estrutura em ferro que mecaniza o interior e senta perto de mil pessoas ao ar livre. La Valeta dá assim vida à tragédia. Soubessem as águas mediterrânicas fazer o mesmo a quem lá tem ficado.

Texto e Fotografias de Bernardo Pires de Lima

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