Num ano decisivo para a Europa, o politólogo Bernardo Pires de Lima faz-se à estrada para percorrer as 28 capitais da União Europeia. Depois de muitas conversas, encontros improváveis e perceções surpreendentes, vai juntar os 28 ensaios num livro. Até lá, a Eurovisão será emitida aqui, na Volta ao Mundo.

Amesterdão, Holanda

Se a água tem o condão de dividir países e interesses enquanto elemento precioso de salvação nacional, também é capaz de gerar uma identidade cultural e servir de matéria-prima duradoura. Com um quarto do território e 60% da população a viverem abaixo do nível da água, a Holanda soube fazer desse cerco líquido um desígnio interno de unidade, desafiando-a a prosseguir para fora numa ambição de engenho comercial que projectou um país doze vezes menor do que Espanha numa grande potência dos oceanos, aportando da Costa Leste dos EUA, às Caraíbas e ao Brasil, passando pela Costa Dourada do Gana à África do Sul, do Japão à Indonésia e aos estreitos estratégicos do Índico, ali nas redondezas do Sri Lanka.

É impressionante como um país tão pequeno e enclausurado entre os colossos alemão e britânico, conseguiu tanto e ir tão longe. De certa forma, é um traço parecido ao nosso, com a pequena diferença de ter enraizado de forma completamente diferente uma cultura política e social liberal que ainda hoje o caracteriza.

Foto de Bernardo Pires de Lima

Se dúvida houvesse de que a água é a matéria-prima da história holandesa, bastaria lembrar que dos nove monumentos da lista de património universal classificados pela UNESCO, sete estão directamente ligados à gestão corrente da água. Além disso, vejam como a arte foi projectando um auto-retrato de imaginação colectiva nos tempos áureos da pintura setecentista de Jan van Goyen, Jacob Ruysdael ou Simon de Vlieger, passando pelo apuro das técnicas de representação incontornáveis de Vermeer e Rembrandt, artesãos na grande vaga de inovação tecnológica que também acompanhou a engenharia e a modernização comercial à volta da água, e que levaria a Holanda à expansão imperial no mundo.

Sem percebermos esta fase não chegamos à fórmula duradoura da rede de canais que liga todas as peças de Amesterdão e que lhe confere um código de honra ao mesmo tempo urbano e rural, sofisticado e tradicional, acelerado e pacato.

O que mais admiro na Holanda é a capacidade que as suas gentes têm de terem as mais baixas taxas de horas de trabalho no Ocidente e serem ao mesmo tempo o sexto país mais rico no mundo. De conseguirem ser o segundo maior exportador agrícola universal, terem o maior porto da Europa (Roterdão), viverem em duas rodas como um prolongamento do corpo, e a vida familiar ser uma parte absolutamente fundamental na lógica diária de trabalho.

O que mais admiro na Holanda é a capacidade que as suas gentes têm de terem as mais baixas taxas de horas de trabalho no Ocidente e serem ao mesmo tempo o sexto país mais rico no mundo.

Não há espaço verde em Amesterdão que, a meio de um dia da semana, não tenha um ambiente de jardim-escola no Vondelpark, ou num Museumplein virado para uma fantástica mostra de Banksy no Moco (até final de Agosto), as ruas não estejam congestionadas de bakfiets, com as crianças a crescerem numa geringonça de mobilidade saudável, com hábitos de comunidade e harmonia entre trabalho e lazer.

Foto de Bernardo Pires de Lima

E como é imprescindível o lazer para nos desbloquear da teia de bugigangas, futilidades e angústias que diariamente nos consomem. Claro que uma geografia plana ajuda a moldar estas rotinas e que uma cultura liberal (mais ou menos genuína) tende a abrir de outra forma os braços de uma cidade ao mundo (178 nacionalidades vivem em Amesterdão, mais do que em Nova Iorque). Claro que elementos agregadores convergem numa identidade colectiva sólida, e que o espírito de conquista aguça o engenho, o talento, a criatividade e a obra. É por tudo isto que Amesterdão cativa tanto, que apetece lá viver, educar os nossos filhos e aproveitar a vida tão para lá das nove às cinco. Mesmo muito para lá das nove às cinco.

Texto e Fotografias de Bernardo Pires de Lima

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