Ao afastarmo-nos das praias sobrelotadas do sul, podemos ainda apreciar a alma de Bali. Terra de orações, coberta de oferendas, a ilha dos deuses revela-se então uma festa dos sentidos, das cores e da excelência.

Texto de Bernardette Gilbertas / Le Figaro Magazine / Atlântico Press
Fotografias de Le Figaro Magazine / Atlântico Press

A 25 quilómetros a norte de Denpasar a movimentada capital, um simples povoamento rural aninhado numa encosta vulcânica, converteu-se no epicentro da cultura balinesa. «Paraíso primordial», querido a toda uma diversidade de artistas internacionais em busca de um Oriente idílico, a popularidade de Ubud recrudesceu em 2010, com o sucesso do filme Comer, Amar e Rezar, no qual Julia Roberts interpreta o papel de uma escritora em busca de realização pessoal e de um sentido para a vida.

Nos últimos tempos, privilegiando o charme desta pequena cidade que se manteve muito ligada às suas tradições, onde galerias de arte, restaurantes famosos e lojas de artesanato de qualidade convivem, lado a lado, com escolas de música, salas de meditação, spas e workshops de ioga, os hotéis de luxo libertaram-se das praias lotadas do Sul para incrustarem neste exuberante cenário algumas das suas melhores joias.

É o caso do Ritz-Carlton, que abriu, em 2015, a dois passos desta pequena cidade, o terceiro de seus hotéis classificado como reserva: a marca de um novo conceito do grupo americano, direcionado para os ambientes naturais de exceção e onde se privilegia a experiência sensorial e a imersão cultural. Logo que entrou em funcionamento, o Ritz-Carlton Reserve Mandapa (o templo, em sânscrito) seduziu de imediato o nosso operador turístico, especializado em evasões de luxo, que exalta a sua arquitetura, respeitando o estilo tradicional de Bali, o requinte do seu interior, mas também, e especialmente, as vistas deslumbrantes que oferece sobre os campos de arroz, a partir da sua sumptuosa receção aberta para o exterior e das janelas envidraçadas das suítes e das casas de banho.

Grandiosidade, beleza e serenidade… O penhasco íngreme onde assentam as mais luxuosas villas do hotel domina os arrozais verdejantes, o templo centenário a quem deve o seu nome e as mais belas suites edificadas nas margens do rio Ayung. A partir deste refúgio paradisíaco, o nosso operador turístico delineia, para os seus clientes, viagens de luxo à descoberta da alma de Bali…

Acompanhado por Dana, um guia que se exprime num francês impecável e que mantém um sorriso radioso, atravessamos o centro de Ubud a passo lento, atraídos por uma cativante cerimónia, uma das muitas que diariamente ocorrem em Bali. Ao som do gamelão, a orquestra de percussão, homens vestidos com sarong xadrez e uma T-shirt negra carregam uma torre ricamente decorada que contém o corpo de um defunto a caminho da cremação.

Um membro da casta superior, a julgar pela altura da torre e pelo magnífico touro preto e dourado que precede o cortejo. Insinuamo-nos nas ruas da aldeia de artesãos de Mas, cujos habitantes, descendentes diretos dos brâmanes provenientes de Java no século XV, trabalham a madeira. Portas de madeira cinzeladas, móveis de teca, estátuas de diversos tamanhos, máscaras divinas… Uma imensidão de obras artesanais que convida a farejar. Numa outra altura, talvez, porque, por agora, Ida Pedanda, sumo-sacerdote e profeta, aguarda-nos na sua casa tradicional de Bali.

No exterior, as duas mãos abertas do pórtico acolhem simbolicamente o visitante e os muros circundantes protegem os habitantes dos espíritos malignos. No interior, um pátio com árvores, várias casas, uma para cada membro da família. Galos, galinhas e pombas debicam por entre edifícios e estátuas de calcário escuro, enquanto, das gaiolas suspensas nos galhos, pássaros tropicais de adornos sublimes vociferam energicamente.

Com o êxtio do filme «Comer, Orar e Amar», a região de Ubud tornou-se popular

A imagem do nosso sacerdote, todo vestido de branco, dissipa-se no meio das flores de montanhas, arroz, cravos brilhantes e sândalo. De pernas cruzadas, prepara, desde há várias horas, a água com que vai abençoar os visitantes. Enquanto recita mantras, lança, com os seus dedos finos, flores para a água. Ida Bagus, como se chamava originalmente, nem sempre foi um sacerdote nem sempre foi, na verdade, muito religioso, admite ele, sorrindo. Via-se mais como professor de Direito na universidade. A morte de um primeiro filho e, em seguida, de um segundo, augurou-lhe uma vida de infelicidade; decidiu, por isso, seguir o conselho de um astrólogo, tornando-se sacerdote e profeta.

Em seguida, mudou o nome para Ida Pedanda, passando a dedicar a sua vida aos outros, a oferecer o seu conhecimento do futuro, apoio moral, orações e bênçãos à corte de visitantes que afluem ao país para o ver. Ei-lo, em frente aos seus fiéis, distribuindo água de coco sagrada, que eles se apressam a beber, com as cabeças adornadas de flores e as testas com grãos de arroz. É ainda embriagados pelos fumos de incenso que atravessamos o limiar de um outro edifício na aldeia vizinha de Kemenuh, onde uma família nos aguarda para uma iniciação culinária. As três mulheres da casa movimentam-se em torno de uma mesa instalada no exterior e convidam-nos a ajudá-las.

Cortar as cenouras em fatias finas é um trabalho tão complicado como fechar as folhas de banana onde se vai cozinhar em lume brando o atum numa sábia mistura de especiarias. A mais jovem das nossas professoras ri-se da nossa falta de jeito. Esforçamo-nos para acompanhar toda esta aula de gestos, risos e sorrisos; o nosso almoço depende dele! Se a aptidão para preparar satay lilit – mistura de peixe marinada em açúcar de palma e folhas de limão kaffir (uma espécie de lima) enrolada em varas de erva-príncipe – se adquire pouco a pouco, é necessária mais destreza para servir ayam kare (caril de frango com legumes crocantes) num coco ou ter sucesso com a fritura do tofu. O mais difícil é memorizar os nomes balineses de todos estes pratos! A refeição termina com dadar gulung, uma deliciosa sobremesa de panquecas verdes com coco, que engolimos avidamente sob o olhar encantado das nossas anfitriãs.

No dia seguinte, ainda está uma temperatura amena sob as ramagens das figueiras banyan quando chegamos à aldeia de Tampaksiring, a cerca de vinte quilómetros ao norte de Ubud. Ao longe, o canto das águas sagradas do templo de Tirta Empul, fresco, irresistível e alegre, atrai os primeiros visitantes. O farfalhar dos sarongues coloridos dispostos em torno das ancas, os braços carregados de cestas habilmente confecionadas, cheias de flores, frutas, incenso e arroz, os peregrinos chegaram ao local ao amanhecer. No centro do templo, uma fileira de fontes que derramam em uníssono água fria e límpida para uma piscina retangular, toda de pedra negra.

Os fiéis circulam, depositam as suas oferendas numa primeira fonte (a da esquerda), rezam com as mãos juntas, inclinam-se, em seguida, passam a cabeça sob o jato de água poderoso antes de a beber, por três vezes. E de repetir o ritual, fonte após fonte… enfeitiçados por este bailado místico e pela mistura de fragrâncias de flores e incenso, os versos de Baudelaire não nos deixam mais: «Como ecos longos que à distância se matizam (…) Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.»… Homens e mulheres sucedem-se numa piscina com a superfície coberta de pétalas e oferendas. Muitos jovens casais, sobretudo, que vêm suplicar o amor eterno, com a pele mate a estremecer sob a espuma branca.

A ilha indonésia de Bali fica entre Java e Lombok: a sua capital é Dempasar.

Um pouco mais à frente, no meio de uma piscina quadrada, um ressurgimento agita a areia preta e o tapete de ervas aquáticas. Imerge-se aí por outras razões: «A água é curativa – explica Dana –, em Bali, tudo é possível. O médico dá fármacos aos seus pacientes; o curandeiro, mezinhas. Mas o último recurso para os doentes, ou para quem quer assegurar a longevidade e a fertilidade é Tirta Empul.» O templo Tampaksiring celebra Indra, o deus da água e da chuva. Uma divindade do panteão hindu que concede uma identidade particular a Bali, uma pequena ilha no coração do grande arquipélago indonésio que se tornou maioritariamente muçulmano.

Um mito fundador da identidade de Bali (atualmente controverso) conta que quando Sumatra e Java se converteram ao islamismo, os aristocratas, artistas e estudiosos recusaram essa nova religião e vieram instalar-se em Bali. E Dana especifica: «Nós não acolhemos tudo do hinduísmo, apenas os elementos que se coadunavam com a nossa cultura e as nossas antigas crenças. As nossas divindades são autóctones, como os nossos antepassados e os espíritos que povoam vulcões, montanhas e lagos. Outras são importadas, como os deuses oriundos da Índia e os heróis das lendas javanesas e chinesas. Há também divindades universais como o Sol, o fogo e, em particular, a água, o elemento primordial da nossa primeira religião, Agama Tirta.

Agama Tirta… Os caminhos da água. São estes justamente os que nós percorremos, ao subirmos para norte, ao longo das margens dos inúmeros rios que descem pelas encostas em direção às planícies costeiras do Sul e ao estreito de Lombok. Palmeiras delicadas ondulam sob um céu desanuviado pelas chuvas da noite. Moldados pelo homem, os terraços perfeitamente planos enfatizam de um modo harmonioso as curvas do relevo.

Aqui, a água é o alimento de um outro deus, do arroz, fonte de vida, base de todas as refeições, de todas as oferendas, de todos os ritos religiosos. Enquanto uma variedade mais resistente – sedenta de água, pesticidas e fertilizantes – começa a divulgar-se por toda a Indonésia, os arrozais de Jatiluwih, um magnífico anfiteatro natural, resistem à tentação da rentabilidade a todo o custo. Eles apresentam-se hoje como um exemplo admirável do funcionamento dos subaks de Bali, os engenhosos sistemas de irrigação e de gestão social da água. Estas milenárias cooperativas gerem a água, repartindo-a em função das necessidades dos habitantes e das terras, de modo a permitir a irrigação de montante a jusante. Em 2012, o subak de Jatiluwih foi elevado a Património Mundial pela UNESCO. Pequenos santuários dedicados à deusa do arroz, cobertos de oferendas, templos com telhados de colmo escondidos no meio de arvoredos, relembram de novo o lugar da espiritualidade no quotidiano balinês.

A água, omnipresente, sussurra entre os terraços, resvala pelas encostas, dança nos canais que confinam com as parcelas, sob o olhar risonho e os magníficos adornos dos espantalhos, enquanto, no silêncio das montanhas, ao longe, se encontra o nosso próximo destino… Arrozais, coqueirais e outros pomares dão gradualmente lugar a uma floresta exuberante. A estrada sobe, invadindo as encostas, e desemboca num enorme lago. Para os sacerdotes balineses, é neste oceano de água doce que nascem todos os rios da ilha. Para os geólogos, o lago Batur ocupa parte da enorme cratera surgida há mais de vinte mil anos. Em pirogas tradicionais, lutando contra o vento que agita a superfície da água, os pescadores puxam uma velha rede repleta de remendos. Há várias aldeias sediadas nas margens do lago. O nosso guia aponta para uma delas.

Um pouco afastada, aninhada na extremidade da baía, eis Bali Aga, a mais antiga povoação da ilha. Os seus habitantes, os descendentes dos primeiros habitantes de Bali, anteriores às migrações que se deram entre ilhas, vivem em autarcia, em parcelas de terreno fértil. Conservam o ancestral culto da natureza e praticam a religião da água.

Em resultado das erupções que moldaram a pequena ilha, um outro vulcão, Batur, surgiu no meio da caldeira. De um negro de azeviche ainda bem visível, a última erupção de 1963 sobrepõe-se ao caos dos campos de lava, ao longo dos quais avançamos. Com a ânsia de chegarmos ao cume antes do anoitecer, subimos, em menos de oitenta minutos, cerca de 700 metros.

Ao chegarmos, estamos sozinhos: os visitantes preferem partir antes do amanhecer para assistir ao nascer do Sol. As nuvens avolumadas pela humidade agregam-se e captam os últimos raios de luz, antes de ocultarem o monte Agung, o maior vulcão de Bali. Eixo do mundo das mitologias persa, budista e sobretudo hindu, esta montanha mãe ultrapassa os 3000 metros de altitude. Descemos deslizando pela cinza fundida, amolecida pela humidade da noite. Gritos roucos intercalam-se; o dos macacos, inquietos com estes visitantes noturnos. Repentinamente, paramos. Uma mesa posta, de um branco imaculado! A luz dos candelabros vacila, enquanto a das pequenas aldeias das margens do lago se acende uma a uma. Eis-nos, convidados para um último festim sobre o lago Batur, tão caro à religião balinesa, sob a proteção do poderoso vulcão. Comer, orar, amar…


Guia

Moeda: rupia indonésia (idr) 1 euro – 15 idr
Fuso horário: GMT+7 horas
Idioma: balinês
Quando ir: A época baixa e mais chuvosa é de janeiro a abril e entre outubro e novembro. Os meses de julho, agosto e dezembro são os mais procurados, logo aqueles em que os preços praticados são mais elevados.

Ir
A Cathay Pacific (cathaypacific.com) opera um voo diário de Paris a Denpasar via Hong Kong, e um voo adicional às quartas-feiras e aos sábados, às 12h35 (ideal para prolongar a escala em Hong Kong). Os passageiros que viajam em classe executiva desfrutam do conforto do salão The Pier em Hong Kong: organizado como um apartamento contemporâneo, com sala de jantar, biblioteca, chuveiros e 14 suites íntimas e espaçosas. Desde €715 ida e volta em classe económica, desde €1330 em económica premium e desde €2615 em executiva.

Organizar a viagem
Para descobrir a alma da ilha, a agência Voyages Confidentiels (voyagesconfidentiels.fr) propõe um programa de experiências exclusivas: passeios de bicicleta até aos arrozais classificados de Jatiluwih, almoço à sombra de um edifício de Bali; um jantar à luz de velas no cume do monte Batur, após uma escalada de 1h30m por estas paisagens mágicas; uma descoberta da cascata de Munduk e, no vale de Busung Biu, da mais famosa plantação de café da ilha, seguida de um almoço; uma tarde de bem-estar em Ubud, com massagem balinesa e chá das 5 sob as luxuosas tendas da aldeia Demana, nas margens dos rios de Ayung; uma matiné cultural em Ubud, com um ritual de bênção praticada por um sacerdote de Bali (Pedanda); um encontro com um astrólogo para perscrutar o futuro, de acordo com métodos ancestrais, e uma iniciação à culinária de Bali, numa casa de uma família. Viagem de dez dias/sete noites, das quais cinco numa suite em Mandapa, no Ritz-Carlton Reserve, em Ubud, com um programa de excursões acompanhadas por um guia de Bali francófono, e duas noites à beira-mar em Ungasan, no Banyan Tree, em quarto Pool Villa Seaview, com pequeno-almoço: a partir de €6290 por pessoa. Voos na Cathay Pacific em classe económica, transfers privados A/R de casa até ao aeroporto Roissy-CDG, assistência VIP e serviço de concierge incluído.

Ficar
Ubud, Mandapa Ritz-Carlton Reserve
Precioso refúgio nas redondezas da vila balinesa: 35 suites (de 100 a 145 metros quadrados) e 25 villas (de 1 a 3 quartos e de 430 a 2000 metros quadrados, com piscina, jardim e pavilhão de descanso). Nos quartos, cortinas, móveis e decoração são produção de artistas locais. Destaque para o Mandapa Spa, com piscina, centro de fitness e estúdio de ioga. No que respeita ao bem-estar, uma equipa de especialistas concebe programas personalizados, onde se combinam práticas orientais, tradições dos curandeiros locais e os produtos Espa. Desde €910 numa villa para duas pessoas, pequeno-almoço e acesso ao spa incluído. Em Ungasan, Banyan Tree Ungasan (00.62.361.300.7000; www.banyantree.com). Longe das praias lotadas e da agitação da cidade, as villas do Banyan Tree, construídas em madeira e vidro e com uma piscina privativa, proporcionam tranquilidade e privacidade à beira-mar.
Tel.: +62 3614792777
Quarto duplo a partir de €465
ritzcarlton.com

Comer
Restaurante Kubu
Um jantar em Kubu, um dos quatro restaurantes do hotel, é uma aventura culinária a não perder. Desde logo, sob um majestoso telhado de bambu e palmeiras nas margens do rio Ayung. Para os apaixonados há mesas aninhadas em casulos de madeira entrançada. A cozinha tem a assinatura de Maurizio Bombini, chef italiano, sendo obrigatório provar o ravioli de beringela e mascarpone, bacalhau, creme de cebola e ricotta fumada. Menu de desgustação de seis pratos: €128.

Mozaic
Chris Salans, chef do Mozaic, filho de um francês e de uma canadiana, gosta de levar os seus clientes a viajar de uma cultura para outra. A não perder um jantar sob as palmeiras do seu jardim tropical, deixando tentar-se pela diversidade de pratos e mistura de sabores, realçados com os perfumes da Indonésia. A não perder a buah pala: pasta de arroz, peito de codorniz fumado, foie gras glacé aromatizado com noz-moscada fresca, puré e geleia. Menus de seis pratos a partir de €5.


Veja também:
10 destinos para visitar na Indonésia para além de Bali
A Indonésia é o país com mais ilhas do mundo: uma viagem de sonho