Dar a volta ao mundo em desenho

Luís Simões deixou tudo por um projeto a cinco anos: ir a todos os continentes e desenhar tudo que o inspirasse. Preencheu 40 cadernos, mas, cinco anos depois, a viagem ainda não acabou.

Texto de Bárbara Cruz
Fotografias de Orlando Almeida

Em 2012, Luís Simões sentou-se e escreveu um plano de viagem para cinco anos. Era claro como água: tinha dez mil euros para gastar por ano, 365 dias para cada continente. Num só dia, fez o mapa do percurso, ordenou o trajeto, criou um blogue, um logótipo. Estava pronto. «Até hoje, olho para aquilo com carinho», recorda o motion designer nascido em 1979, na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Acabou por sair de Portugal em março de 2012 com um objetivo: correr o mundo e desenhá-lo.

Anos antes, e apesar de satisfeito com a carreira no grafismo, fora fazer um mestrado e voltou a ter aulas de desenho, arte que sofrera «uma espécie de apagão» durante os anos em que trabalhou no digital. Percebeu que para afinar o traço e passar uma imagem para o papel tinha de se obrigar a parar, a contemplar. E as viagens eram a forma perfeita de ensaiar essa descoberta. Estava na Croácia quando percebeu as proporções que tomava o gosto pelo desenho: acordava às três da manhã e desenhava até às dez, hora a que os amigos acordavam. Juntava-se a eles e, no dia seguinte, fazia tudo outra vez.

No entanto, quando começou a World Sketching Tour – haveria de batizar assim a grande viagem – já estava a sair do plano que tinha idealizado. Queria ir sozinho, sem se comprometer com a paisagem turística e de braços abertos à inspiração, mas acabou por deixar Lisboa numa autocaravana na companhia dos pais, ambos na casa dos 60 e muito relutantes em relação à dimensão artística daquela viagem. Não era para menos: Luís tinha deixado um bom emprego, uma vida estável e preparava-se para derreter as poupanças. «O meu pai ficou desiludido, para ele a viagem era uma desistência, não era o abrir de nada novo. E a minha mãe ficou desiludida porque ia perder o filho durante cinco anos».

Apesar de descontentes, deram a volta por cima e propuseram acompanhar o artista no primeiro ano do percurso, pela Europa fora. E ele, contrariado, acabou por aceitar. «O início foi tramado», desabafa Luís. Quis mostrar aos pais que a viagem era uma descoberta introspetiva, mais do que o percurso de um ponto A a um ponto B, de máquina fotográfica ao peito para «bater chapa» nos pontos turísticos, mas encontrava resistência.

A meio do trajeto pela Europa, a mãe disse: «Viemos sempre a subir e agora vamos começar a descer. E eu vou começar a contar os dias até te ires embora.» Mudou tudo. Abrandaram o ritmo e desfrutaram até que se despediram em Itália, no aeroporto onde Luís apanhou o voo para a Turquia. «A minha mãe diz-me assim: “Só gostava de ser uma esferográfica para ir contigo.” Foi uma choradeira.»

Na Índia, fez 7000 km numa vespa. Em Hong Kong trabalhou como designer. Agora, é a América do Sul.

Aterrou na Turquia em 2013, no auge dos protestos antirregime na Praça Taksim, em Istambul. «A tristeza encontrou ali alguma energia positiva» e reuniu forças para continuar. Sempre com um caderninho em riste – ao todo, desenhou cerca de 40 – seguiu da Turquia para a Rússia, fez o Transiberiano, passou pela Mongólia e pela China, foi ao Japão, à Coreia do Sul e, em Hong Kong, surgiu-lhe uma oportunidade: trabalhou como ilustrador para uma empresa de design. Ficou praticamente um ano em Hong Kong antes de partir para a Índia. «Já tinha feito a China de comboio, à boleia, de autocarro, estava cansado. Então comprei uma moto. Gastei 150 euros numa vespa de 1989 e fiz 7000 quilómetros pela Índia.»

O grande plano de fazer um continente por ano ficara comprometido com a estada prolongada em Hong Kong, mas quando chegou ao Sudeste Asiático desmoronou. Depois de andar pelo Sri Lanka, pela Tailândia ou pelo Myanmar, na Indonésia encontrou um «amor de verão». Ou assim julgava. Seguiu para a Austrália e para a Nova Zelândia, mas o sentimento falou mais alto e acabou por regressar à Indonésia, onde ficou sete meses com a atual namorada. «Entre muito surf, sol na cara e algum trabalho», decidiu que estava na hora de voltar a Portugal, agora com a companheira. Foi em novembro de 2016 – tinham passado 38 países, quatro anos e oito meses desde que saíra de Lisboa.

Não ficou desencantado por não ter cumprido o desígnio inicial. «Entrei numa viagem muito mais pessoal, de descoberta. Percebi que não estava a fazer a viagem porque tinha escrito um projeto em 2012, estava a fazê-la para mim e não se ia repetir.» Foi apurando o olhar e a expressão artística: se antes desenhava «como um turista que tira fotografias a tudo», com o passar do empo mudou o foco e a frequência dos disparos. «O que faço hoje com o desenho era o que se fazia antigamente com a foto em película. Levo mais tempo a pegar na câmara», diz a rir-se.

Na Europa fazia três, quatro desenhos por dia, tinha a linha mais definida. «Antes tentava a perfeição, agora vou mais pela expressão», explica. «Detesto os primeiros cadernos, mas percebo que é como o primeiro ano da escola. Depois dás um salto gigantesco e ficas mais maduro. E dá vontade de voltar àqueles sítios e desenhá-los outra vez.» Desde que chegou a Lisboa já expôs os sketches da viagem, mas a digressão ainda não terminou. A próxima prova começa já neste ano, agora na companhia da namorada: vão para a América do Sul de bicicleta. Porquê complicar com as duas rodas? «Ao fim de cinco anos a viajar fica difícil deslumbrares-te. Se não fosse com ela, tinha pensado ir de cavalo. Quero criar exageros para a aventura.» Depois das Américas, a África ficará para o fim – é «a expressão máxima da cor» e o grau de doutoramento na formação intensiva. «Para entrar em África é preciso estar bem com tudo», sublinha.

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