Do sagrado ao profano

De Sófia ao mar Negro em automóvel. Foi esta a viagem de férias de verão de uma família portuguesa – pai, mãe e duas filhas. Entre a história e a praia, descobriram um país surpreendente, barato e seguro

Texto e fotografia de Rui Leitão

A ideia, de início, não foi consensual, o que seria mais ou menos de esperar numa família de quatro pessoas que, embora partilhem o gosto por viajar, vagueiam numa faixa etária entre os 11 e os 46 anos. Não foi de estranhar que, antes da partida, surgissem propostas como a da Rita, a mais nova – «Paris, Disney, sim?» – ou da Inês, «vítima» do dia‑a‑dia da adolescência em que vive – «Já sei: Toronto! Gostava de encontrar o Shawn Mendes na rua, fixe?». «Disney outra vez? Mendes quê? E que tal algo novo, mais cultural e com praia? Já ouviram falar da história daquele escravo que derrotou os romanos?», perguntávamos nós, os pais, apelando ao gosto que tinham pela matérias de História. «Que tal um país que fica no outro lado da Europa, muito perto da terra da Valentina?», inquirimos. Valentina é uma ucraniana, amiga de alguns anos, que cuidou da Inês e da Rita quando eram pequenas e os laços tornaram‑se fortes. Já várias vezes nos tinha convidado para umas férias no mar Negro, mas as circunstâncias recentes naquele país tornaram isso impossível. Ficou a curiosidade.

Mas porquê a Bulgária? Três razões: é daqueles países relativamente próximos que fazem parte do imaginário de país de Leste longínquo e desconhecido; porque se apresentava suficientemente seguro para viajar de carro; e porque o custo de vida nos parecia acessível.

Decisão tomada, passámos ao planeamento, distribuir os dias que tínhamos previsto e tentando um equilíbrio entre cultura e lazer. Foi assim que resolvemos começar em Sófia e seguir em direção ao mar Negro, atravessando o centro do país por estradas nacionais e percursos secundários de forma a desfrutar o melhor possível das paisagens e dos monumentos que esperávamos encontrar. O regresso a Sófia seria mais rápido e sem paragens, feito pela autoestrada.

Porquê a Bulgária? É relativamente próxima, segura para viajar de automóvel e o custo de vida compensa para as carteiras portuguesas.

O passo seguinte foi marcar voo, tendo sido a dificuldade encontrar um com uma escala que nos permitisse conhecer outro destino, já que não existem voos diretos desde Portugal. Optámos por fazer escala de um dia em Praga, na República Checa, e deu para conhecer descontraidamente o centro, dormir por lá e partir na manhã seguinte. Faltava ainda o hotel em Sófia e, entre ficar no centro da cidade ou um pouco afastados, pareceu‑nos boa solução o Novotel da capital búlgara (quarto duplo a partir de 50 euros por noite com pequeno‑almoço). É um hotel moderno com staff muito simpático e, embora um pouco longe do centro, com acessos fáceis tanto de carro como de metro e autocarro. O centro comercial ao lado também pode ser uma ajuda para quem tem crianças ou adolescentes a precisar de descontrair das visitas aos monumentos.

No essencial, a Bulgária, demonstra a sua raiz europeia. A rede de autoestradas liga os principais pontos do país, no entanto quando se opta por algo mais descentralizado e na periferia, a condução nas estradas nacionais pode complicar‑se. Deve ter‑se em atenção a circulação de carroças e os buracos no pavimento. Ao alugar um automóvel, certifique‑se de que tem a cobertura para danos em pneus, regra geral os seguros embora tenham danos próprios deixam esta cobertura de lado.

Outro aspeto a considerar ao alugar um veículo é o GPS. Caso não seja versado no alfabeto cirílico, saiba que, na sua maioria, as placas de informação estão em alfabeto cirílico e latino, mas algumas ruas – e fora dos centros urbanos – apenas são apresentadas no alfabeto local. Quanto ao sistema bancário, existem multibancos em todos os pontos principais, e coexiste também uma espécie de sistema cambial em que se pode trocar euros por lev (a moeda local), sujeito a uma comissão. Deverá perguntar antecipadamente o valor da taxa porque por vezes isso não é claro.

O país é acolhedor e muito barato. O custo de vida é mais ou menos metade do português e pareceu‑nos seguro, mesmo nas zonas de maior afluência de turistas. Na hotelaria e na restauração é usual deixar uma gorjeta simpática, já que os salários são baixos. Uma das curiosidades a assinalar (e talvez muitos portugueses possam pensar o mesmo) é que, por muito que possa parecer estranho, à entrada de algumas praias podemos deparar‑nos com o cartaz «The entry to the beach is free», a entrada na praia é gratuita. Como? Na costa búlgara, excetuando praias mais remotas, a zona junto ao mar está inundada de espreguiçadeiras e chapéus‑de‑sol, alguns pertencem a hotéis e restaurantes, mas todos são pagos. A zona gratuita costuma ser no lado oposto à beira‑mar e no verão isso faz toda a diferença porque as temperaturas são elevadas. E futebol, esse assunto que desbloqueia tantas conversas? «Chutamos» nomes como Hristo Stoichkov, Krasimir Balakov ou Emil Kostadinov mas nada, só ouvimos falar de futebol nas praias de Sunny Beach, e do campeonato inglês.

Aqui ganha o culto do corpo, comprovado pelos vários ginásios de rua que fomos encontrando pelo caminho. Talvez se deva à terceira posição que a Bulgária ocupa no ranking mundial de halterofilismo, mas tivemos pena porque íamos com a lição bem estudada acerca daqueles três astros. Tirando isso, a Bulgária é sem dúvida um destino familiar a ter em conta.

Dia 1: Sófia km 0

Um bom pequeno‑almoço é essencial para quem se prepara para caminhar durante todo o dia, e no buffet do hotel havia quase tudo: das sementes de abóbora ao salmão fumado, passando por uma variedade de queijos que eram uma tentação àquela hora da manhã. Também a máquina de bom café expresso fazia parte da sala moderna mas acolhedora. Com as energias repostas, estava na hora de visitar o centro histórico. O hotel fica na zona nova da cidade, ao lado de um moderno centro comercial e empresarial. Dizem‑nos na receção que os acessos são muito bons pela Tsarigradsko Shosse, uma grande avenida com cerca de doze quilómetros: «Tanto o metro como os autocarros estão muito perto e são a melhor opção para fugir ao trânsito da cidade. » Viemos a perceber depois que em nada se compara ao de Lisboa ou do Porto em hora de ponta, mas de facto o autocarro acabou por ser uma boa opção. Deixou‑nos no sítio por onde queríamos começar a conhecer Sófia, o Parque Rezidentsia «Boyana», onde fica o Museu Nacional de História.

Sófia é a terceira capital europeia mais antiga. Tem sete mil anos de história. Alexandre, O Grande, foi uma das figuras que passaram por aqui.

Recebe‑nos uma simpática senhora que, num bom inglês, nos convida a entrar, admirando‑se ao perceber de onde vínhamos. Sabia exatamente que Portugal ficava depois de Espanha e antes do Atlântico e a sua admiração prendia‑se mais com o facto de serem muito raros os portugueses que procuram a Bulgária. Sendo nós de «tão longe» sentiu‑se na obrigação de ser nossa cicerone.

Sófia desde 1376 (começou por ser Sérdica, cidade trácia), deve o seu nome atual a «uma mãe cristã, mais tarde tornada santa, que foi obrigada a assistir ao assassinato das suas três filhas por ordem de Adriano, imperador romano», contudo «há quem defenda que simplesmente se deva à expressão grega hagia sophia, sagrada sabedoria». Quem o diz é a nossa guia improvisada.

É a terceira capital europeia mais antiga, com uma história de sete mil anos. Foi de Alexandre, o Grande, acabou destruída pelos hunos e fez parte dos impérios romano, bizantino, otomano e russo. É esse cruzamento de povos que lhe confere o exotismo que a torna única. Foi berço da civilização trácia e terra do escravo Spartacus, tornado herói com a sua revolução. A nossa viagem pelo museu está concluída e é sem dúvida um local a visitar.

Esta é uma cidade de grandes dimensões, que se estende pelo sopé do maciço Vitosha, mas uma vez no centro os pontos turísticos mais importantes são acessíveis a pé. Recomeçamos o nosso percurso na Praça Nezavisimost, enquadrada por imponentes edifícios governamentais, ao estilo soviético. Perto encontramos o Museu de Arqueologia, o mais antigo da Bulgária. Não tendo a grandeza do anterior vale a pena a visita. No lado oposto da praça, visitamos a Rotunda, ou Igreja de São Jorge, o mais velho monumento de Sófia e também um dos templos cristãos mais antigos da Península Balcânica. Por perto está também a única mesquita em funcionamento na cidade – a Banya Bashi.

Atravessamos a avenida e seguimos até ao Mercado Central, excelente local para descobrir produtos e restauração típica. Foi aqui que atenuámos o calor dos trinta graus que se faziam sentir em agosto e recuperámos energias para o resto do percurso. A cerca de quinze minutos a pé está o imponente edifício da Galeria Nacional de Belas-Artes e, um pouco mais à frente, outro dos pontos altos da cidade – um dos maiores templos ortodoxos do mundo: a Catedral Aleksander Nevsky, que não pode passar sem ser visitada, bem como as suas criptas com uma excelente exposição permanente de arte religiosa.

No mesmo quarteirão estão as igrejas de Santa Sofia e de São Nicolau, conhecida localmente como igreja russa. Ambas fazem deste local uma autêntica passerelle para casais de noivos e é assistindo ao sorriso de quem teve o privilégio de se unir em tão magnifico local que, sentados na agradável esplanada do restaurante Victoria (victoria.bg; preço médio: 15 euros por pessoa), e saboreando um delicioso prato de polvo, damos por terminado o nosso roteiro do dia. O regresso foi de metro, com estações amplas e seguras. Outra boa opção.

Dia 2: Rila km 85

O objetivo para este segundo dia era chegar a Plovdiv, fazendo um desvio para sul ao encontro do maior e mais famoso mosteiro búlgaro. Pelo caminho, as quentes planícies trácias vão dando lugar a frescas montanhas. O Mosteiro de Rila, património classificado pela UNESCO, está inserido no maior parque nacional (que partilha o mesmo nome) e é aí que também ficam as montanhas mais altas e os maiores rios do país. Este mosteiro do século X esconde‑se num vale silencioso de um imenso verde. A entrada é gratuita mas obriga a regras rigorosas de vestuário – não são permitidos calções, ombros descobertos, decotes nem saias curtas, mesmo que sejam crianças. A pensar nisso, perto da entrada, dois ou três quiosques fazem negócio com uma colorida coleção de véus para quem não tenha resistido ao calor e se apresente menos vestido. Foi o que fizemos. Com dez lev (cerca de cinco euros) o problema ficou resolvido. Rita e Inês tapadas dos pés à cabeça e lá entramos.

A atividade religiosa está presente, com os muitos monges de trajes e acessórios andando pelo meio dos turistas. Complementam a beleza deste complexo que é indescritível e, tal como uma grande parte dos mosteiros búlgaros que visitamos, o cuidado com o restauro é impressionante. Vale a pena terminar a visita com a subida a Torre de Hrelja.

De volta à estrada, o caminho para Plovdiv pela Estrada Nacional 84 foi feito com paciência. Algumas carroças e muitos buracos sem sinalização obrigaram a isso. No entanto, as autoestradas e vias de construção recente estão em muito bom estado. Nas rotas menos turísticas é aconselhável ter bastante cuidado.

Dia 3: Plovdiv km 310

Acordamos já em Plovdiv. Passamos a noite num acessível hotel de quatro estrelas, mas cuidado, ficamos a perceber que aqui o número de estrelas não corresponde bem à qualidade esperada dos quartos. Aliás, todo o edifício dava a sensação de ter parado umas belas dezenas de anos atrás, mas nem tudo foi menos bom: a localização e a simpatia do pessoal fizeram esquecer a rigidez dos colchões. É uma cidade de colinas, ao contrário da plana Sófia, e isso sente‑se quando se opta pela visita a pé. Os pontos mais interessantes concentram‑se na cidade velha, que vale a visita pelas ruas empedradas e pelos jardins pitorescos de casas seculares. É num destes edifícios de fachada de madeira trabalhada que está alojado o museu etnográfico – vale bem a visita.

Numa colina próxima subimos até ao ex‑líbris da cidade, um dos teatros romanos mais bem preservados do mundo, o Teatro Romano de Plovdiv, cujo anfiteatro permite uma vista deslumbrante sobre a cidade, sendo mais interessante ao entardecer. Se tiver tempo e sorte, procure conseguir bilhetes para um dos muitos espetáculos que vão acontecendo naquele espaço. Descendo a colina e chegando ao centro histórico, deparamo‑nos com outro legado romano, o Estádio de Filipolis, um dos maiores edifícios dos Balcãs, construído pelo imperador Adriano. Tinha capacidade para 30 mil espetadores. Plovdiv mostra uma história com mais de seis mil anos, muito antes de Roma ou de Atenas, o que faz dela uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da Europa.

Esta história encontra‑se, em parte e literalmente, por baixo das ruas que dão vida ao centro e mostra‑se agora através de modernas infraestruturas que tornam estas relíquias visíveis ao público. Ao nível da rua, lojas das melhores marcas, restaurantes e cafés modernos complementam esse lado histórico e confirmam‑nos que esta cidade tem muita vida, colocando‑a sem dúvida entre as mais bonitas, charmosas e agradáveis cidades que já conhecemos. Não é de estranhar que em 2019 vá ser uma das Capitais Europeias da Cultura.

Plovdiv é habitada há mais de seis mil anos. Muito antes de Roma e Atenas, já esta cidade dava cartas ao panorama europeu.

Terminamos da melhor forma, a jantar uma deliciosa carne grelhada em espeto no restaurante típico Complexo Diana (plovdiv‑restaurants. com; Preço médio: 8 euros), seguido de um pequeno passeio junto ao Maritza, rio imortalizando numa canção da francesa Silvie Vartan. O rio é o maior do sul do país e poderia ter servido como fio condutor para a viagem pela cidade, mas já o descobrimos demasiado tarde.

Dia 4: Buzludzha e Shipka km 435

A viagem para Veliko é calma e descontraída, culpa da paisagem agradável da zona. A ideia era, a meio do caminho, fazer um desvio por estradas secundárias à procura de um «ovni pousado no cimo de uma montanha». É essa a descrição que a Rita faz da nossa próxima paragem – Buzludzha, considerado o maior monumento ideológico da Bulgária, associado ao seu passado recente sob domínio soviético. E é aqui no meio de estradas quase desertas que temos a primeira sensação de arrependimento por não termos optado pelo GPS no carro. De mapa em papel na mão vamos procurando informações junto das poucas pessoas que encontramos pelo caminho. Percebemos que não será fácil, nesta terra não há muito interesse em recordar este período da história, além de que a língua inglesa, por aqui, é difícil de compreender e o cirílico das placas de informação torna‑se cada vez mais chinês.

Embora o legado soviético deste país pareça, à primeira vista, escondido, de vez em quando surgem no horizonte estátuas, enormes, para o relembrar. É, para nossa sorte, o caso do caminho para Buzludzha, que, não sendo fácil de identificar, possui uma gigantesca estátua de Dimitar Blagoev (fundador do socialismo búlgaro) a assinalar o desvio que nos conduz ao monte com o mesmo nome do tal ovni, Buzludzha. A subida pela estrada sinuosa é agradável e, ao longe, a visão é imponente. Este edifício, inaugurado em 1981, está hoje encerrado e quase em ruínas. A nós, simples turistas estrangeiros, causa‑nos espanto e alguma tristeza ver algo tão exuberante e sofisticado entregue à degradação.

A chegada ao Buzludzha é impressionante. A ideia é estarmos de frente para algo que pousou ali, um «ovni» de cimento. Esta pode ser, de facto, a melhor descrição.

Descendo de volta, partimos em direção ao Vale das Rosas, local da produção dos famosos sabonetes e óleos que se vendem um pouco por toda a parte. O nosso próximo objetivo não eram as famosas rosas, mas a visita a um dos vários túmulos trácios existentes, o de Kanzalak, que foi designado Património da Humanidade pela UNESCO em 1979. O vale que atravessamos é polvilhado por imensas elevações de terra do tamanho e da forma de um carro, são outros túmulos mas de menor dimensão. Kanzalak é surpreendente.

A grandiosidade da sua fama não acompanha a grandiosidade do monumento. O túmulo original está encerrado ao público, pelo que a visita é feita a uma réplica do mesmo, pequena sala circular com um sarcófago ao centro e cuja abóbada tem pinturas murais com representações da vida deste trácio.

De volta à estrada, entramos em Shipka. Vale a pena a paragem para ver de perto esta lindíssima igreja russa. Continuamos pelas montanhas, sente‑se a descida da temperatura que foi de cinco a oito graus, com direito a chuva em pleno verão. Vamos agora em direção ao memorial no Pico Stoletov, monumento imponente que representa a liberdade e é dedicado aos combatentes búlgaros que lutaram ao lado do império russo contra o invasor otomano em 1877, uma espécie de Aljubarrota local. À entrada espera‑nos uma estátua de um leão gigante, junto a uma imensa torre de pedra com mais de 30 metros de altura que domina a montanha. O piso térreo tem um interessante museu, mas a ideia era subir ao topo e, após oito vãos de escadas, espera‑nos uma impressionante vista para o imenso vale com Buzludzha no horizonte.

Dia 5 e 6: Veliko e Tornovo km 515

Chegamos já com o Sol a pôr‑se, procuramos um sítio para ficar e aconselham‑nos uma aldeia perto, Arbanassi, que fica numa colina sobranceira a Veliko. Aqui as casas são todas muradas, existindo uma espécie de pátio interior alargado. Ficamos alojados numa destas construções típicas, transformada em hotel. No pátio desfrutamos das duas belas piscinas, para refrescar dos 30 graus que ainda se faziam sentir.

Já noite dentro, e ainda com muito calor, percorremos as ruas empedradas, parando numa esplanada com vista para a Fortaleza Tsarevets, iluminada por diversas cores. Serviram joelho de porco assado com batata, como especialidade da região. Para beber, as miúdas teimavam em pedir Coca‑Cola, com um sorriso malandro de quem diz um palavrão. E de facto é, pelo menos pela forma como o nome da marca está escrito nas latas… Para nós, adultos, Kamenitza – aqui as imperiais são de meio litro, de boa cerveja, mas são mais comuns as canecas de litro. O sítio revelou‑se tão agradável que acabámos por ficar mais um dia para delícia das mais pequenas. E nossa também.

Veliko Tarnovo, cidade de czares, fica situada no centro da Bulgária e foi em tempos a capital do império. A cidade é dominada pela fortaleza medieval Tsarevets, cercada em três dos seus lados pelo rio Yantra. O acesso ao interior da fortaleza apenas é possível a pé. Lá dentro, nas ruínas do palácio, celebram‑se concertos e ópera ao livre, durante o verão, num anfiteatro improvisado. A residência do Patriarca, no topo desta colina, merece também uma visita, à parte da igreja onde uma magnífica pintura da Ascensão de Cristo domina o interior. No entanto, a cidade não vive só dentro destas magníficas muralhas e convida a um passeio pelas suas ruas estreitas.

Já de saída, fomos ao encontro de Preobrazhenski, e mais uma vez sentimos como seria bom termos GPS. Este pequeno mosteiro encontrava‑se em processo de restauro, a ideia no futuro «será ter também alojamento», dizem‑nos. A visita a este local, que também é chamado Mosteiro da Transfiguração de Cristo, vale a pena pela sua beleza.

Dia 7: Ivanovo e Basarbovo km 635

Uma das maiores atrações búlgaras, e também património classificado pela UNESCO, são as suas igrejas rupestres, uma delas fica para norte, em direção ao Danúbio, a caminho de Ruse, o acesso não está muito bem sinalizado, percorremos alguns quilómetros dentro do Parque Natural Rusenski Lom, no final dessa estrada, encontramos o Mosteiro de Ivanovo, uma imensa rocha, cortada a direito, com uma varanda e uma janela a sobressair. O acesso é feito a pé e dura cerca de meia hora, chegados ao cimo da rocha, com uma passagem muito estreita, vemos o vale de ambos os lados. A entrada desta igreja é muito pequena. A riqueza das pinturas é inferior aos mosteiros que visitámos antes, mas o seu valor e a classificação pela UNESCO residem no facto de este ser um exemplar único das chamadas igrejas rupestres e ser daqui o início da pintura iconográfica bizantina.

Embora seja um sítio remoto, há um simpático guia que nos explica em pormenor a simbologia das pinturas, diz‑nos também que na Idade Média a entrada do mosteiro de fazia pela parede rochosa, por uma escada de madeira de algumas dezenas de metros de altura.

As igrejas rupestres foram a resposta das populações locais ao domínio otomano.

A dez quilómetros entramos na aldeia de Basarbovo e em mais um mosteiro construído na rocha. Somos recebidos por um monge ortodoxo poliglota, que nos pergunta a nacionalidade. A visita a esta pequena igreja é feita por uns degraus muito estreitos, escavados na rocha. A esta altura as mais novas já reclamavam que tudo o que fazíamos era visitar mosteiros. Resta dizer que visitámos cerca de uma dezena dos mais de 160 que existem por toda a Bulgária. Descemos e fomos até Ruse que, como cidade, pouco tem a oferecer mas é impossível ficar indiferente ao rio Danúbio que delimita a fronteira com a Roménia. A nossa ideia era ficar por aqui a dormir e no dia seguinte seguir para o mar. O hotel Luliaka (quarto duplo a partir de 30 euros por noite com pequeno‑almoço) fica colado às margens calmas e deu‑nos a oportunidade única de jantarmos à luz das velas com o Danúbio como horizonte. A comida? Salada shopska, uma especialidade búlgara muito agradável no verão, composta por tomate, pepino, pimento assado ou cru, cortados em pedaços com queijo sirene, semelhante ao queijo feta grego mas pouco salgado.

Dia 8, 9 e 10: Mar Negro km 880

Despertar com o Sol a nascer por detrás das margens do Danúbio deixa saudades, mas estava na hora de partir rumo às águas quentes de Sunny Beach. As miúdas mereciam. Deixámos as estradas nacionais e fomos pela autoestrada para encurtar o percurso, com a paisagem a mudar para planícies douradas e vinha.

Finalmente praia. A Riviera Búlgara é como muitas zonas balneares europeias, cheia de hotéis, resorts até à linha de praia e muitas atrações e atividades para os turistas. Restaurantes, bares e inúmeras bancas e lojas de produtos contrafeitos estão abertos de dia e de noite. A temperatura da água ronda os 25 graus e aqui quase não há ondulação. Mesmo assim, em toda a praia existem nadadores‑salvadores sempre alerta quando alguém passa das cordas que delimitam a zona de banho. O cirílico dá lugar ao inglês, a começar pelo nome nas placas das praias, mas pode ter uma explicação simples: Sunny Beach, por exemplo, é bem mais fácil de pronunciar para um anglo-saxónico que Slanchev Bryag, o nome original. E são muitos os ingleses e alemães que vamos encontrando.

Mas o mar Negro não é só feito desta agitação. Saindo alguns quilómetros é possível encontrar praias semidesertas, onde é possível ouvir o barulho do mar e desfrutar à vontade destas águas quentes. Um pouco a sul, vale a pena a visita a outro local património, Nesssebar, cidade fortificada, com ruas estreitas e casas de pedras cheias de flores penduradas nas varandas.

A oferta de restauração e de lembranças é imensa. Foi aqui que jantámos num dos dias, numa esplanada que ficava literalmente sobre o mar, a do restaurante Zornitza (zornitza.info). A oferta de peixe é grande. Optamos por uma dourada grelhada e uma travessa de saborosas pérolas, peixes minúsculos semelhantes às petingas, mas ainda mais pequenos, acompanhados por cerveja, desta vez em garrafa, e pelas malandras das coca‑colas.


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