Ao redor da Giralda

Capital da Andaluzia e do flamenco, laranjal urbano, repositório de algumas das mais importantes obras de artistas como Velásquez, Murillo, Cano ou El Greco, Sevilha é imperdível e fica apenas a 150 quilómetros do Algarve e a 450 de Lisboa.

Texto de João Tomaz

Não fosse a Torre de Sevilha, um arranha-céus inaugurado em 2015, e a Torre Giralda (cuja altura intimida quem a pretende subir, porém as rampas de acesso ao topo facilitam surpreendentemente a empreitada) continuaria a monopolizar a atenção de quem se acerca, pela primeira vez, da cidade. No centro histórico, a mescla e a beleza arquitetónicas impressionam, assim como o emaranhado de ruas e ruelas, as imensas pracetas peculiares, onde não faltam esplanadas, e a proliferação de laranjeiras, emprestando-lhe um odor levemente adocicado, não havendo, a nível mundial, cidade com mais espécimes desta árvore – cerca de 40 mil.

Também as grades nas janelas, mesmo em pisos elevados, são presença constante, transmitindo um sentimento latente de insegurança. Em vários roteiros turísticos, é revelada uma suposta tradição que remete a proteção das casas para o mais encantador romantismo. Desta forma, as donzelas estariam a salvo do ímpeto dos galãs. No entanto, trata-se antes de resquícios das elevadas taxas de criminalidade verificadas nas três últimas décadas do século passado. A boa notícia é que este flagelo tem diminuído significativamente, podendo-se afirmar que, sem desprimor do devido acautelamento, Sevilha é hoje uma cidade convidativa e segura para quem a calcorreia. Rapidamente, o impacto inicial é diluído pela presença de hordas de turistas (e de policiamento), valendo-se Sevilha, enquanto destino turístico, dos seus monumentos para superar o desconforto provocado amiúde pelo excesso de visitantes.

Reconquistada pelos cristãos em meados do século XII, Sevilha nunca deixou de manter traços da cultura árabe, nomeadamente ao nível arquitetónico. Aliás, esse parece ser um denominador comum nos vários períodos de transição cultural ao longo da história da capital andaluza, em que a cultura vigente assimilava a anterior, resultando num estilo único. Talvez os seus maiores exemplos sejam os ex-líbris da cidade: a catedral, que inclui a famosa e imponente Torre Giralda, e o majestoso palácio Alcázar.

Estes são, de facto, as estrelas de Sevilla. O Alcázar, edificado, numa primeira fase e sobre ruínas romanas, no século X, e ampliado e remodelado até meados do século XIX, é um dos melhores exemplos do estilo mudéjar, caracterizado pela fusão entre tipos de construção e decoração mais comuns entre muçulmanos e cristãos. Os jardins que o servem são igualmente esplendorosos.

A uma praça de distância fica a Catedral de Santa Maria da Sede, a maior igreja gótica no mundo. Concluída em 1506, passado pouco mais de um século do início da sua construção, foi concebida com o propósito de não encontrar rival na glória a Cristo e de, «na posteridade, julgarem que éramos loucos». É provável que, para nosso deleite, o tenham mesmo sido.

Já no século XX, após a independência de Cuba, foi colocado, na nave principal da catedral, o impressionante túmulo de Cristóvão Colombo, cujos restos mortais foram trasladados da antiga colónia espanhola. Numa das suas extremidades encontra-se a Giralda, sobrevivente da presença moura na cidade, apesar de ampliada na época renascentista. Do seu topo é possível ver a cidade em todas as direções, em que o branco predomina devido aos topos dos prédios caiados para combater o imenso calor que se faz sentir no verão.

1. Bairro Santa Cruz
O traçado sinuoso das suas ruas estreitas dá-lhe a fama e a beleza que lhe são comummente atribuídas. Também conhecido por Judiaria, foi deixado ao abandono após a expulsão dos judeus em 1483. Renovado no início do século XIX, é hoje uma das principais atrações de Sevilha, sendo a azáfama constante. Vale a pena espreitar os pátios dos prédios.
visitasevilla.es

2. Museu de Belas Artes
Qualquer filisteu ficará impressionado com o acervo deste museu. Considerado o segundo melhor de Espanha em arte antiga, só superado pelo Prado, em Madrid, situa-se num antigo convento fora do centro histórico, mas a uma distância a pé suportável. Zurbarán, Murillo, Ribera, Goya e Cano são alguns dos artistas cujas obras estão presentes em quantidade e qualidade assinaláveis.
museosdeandalucia.es

3. Rio Guadalquivir
A torre do ouro, construída em 1220 numa das suas margens, começou por servir a defesa da cidade, passou a cofre do ouro chegado da América e é hoje protagonista de milhentas selfies. Há também diversos restaurantes e bares. E é possível desfrutar do rio a bordo de caiques e contemplar a cidade de uma perspetiva invulgar.
visitasevilla.es

Rio Guadalquivir

4. Parque de Maria Luísa
A referência a este jardim é obrigatória. Doado pela infanta Maria Luísa em 1893, cedo se transformou no local de eleição dos sevilhanos para relaxarem e escaparem ao calor intenso de um verão mais prolongado do que o que emana do calendário. A extensão e a diversidade só encontram paralelo na estatuária e nas praças recheadas de monumentos, incluindo a Praça de Espanha e o sumptuoso edifício aí existente.
spain.info

5. Hospital dos Veneráveis Sacerdotes
Em pleno bairro de Santa Cruz, onde, em tempos, houve um hospital, é agora albergado um museu que inclui obras de Velázquez, Zurbarán e Valdés Leal. O valor artístico não se extingue nos quadros de artistas famosos, antes se patenteia na arquitetura exuberante do edifício.
focus.abengoa.es

6. Mosteiro de São Isidoro do Campo e Itálica
A cerca de nove quilómetros a norte de Sevilha, junto a Santiponce, situa-se um extraordinário mosteiro e as ruínas romanas de Itálica, local de nascimento de dois imperadores romanos, Trajano e Adriano. Apesar de destruído ao longo de séculos para construir Sevilha, o enorme anfiteatro (com capacidade para 25 mil pessoas) resistiu ao tempo.
spain.info

7. Gelados
É expectável que, numa cidade tão quente, os gelados façam parte do seu dia-a-dia. Mas, em Sevilha, foram elevados à condição de parte integrante dos panfletos turísticos, tão variada e requintada que é a sua oferta. Uma boa recomendação será a Bolas, na Rua Cuesta del Rosario, do bairro de Santa Cruz, relativamente perto da catedral. É escolher o sabor e deixar-se conquistar.
bolasheladosartesanos.com

8. Flamenco
Assim como o fado em Lisboa, sugere-se aos viajantes mais aventureiros que recusem os locais turísticos e explorem as casas prediletas dos habitantes locais. É aí que se encontra a verdadeira alma deste estilo. Entre estas casas, uma das mais frequentadas é a Peña Cultural Flamenca Torres Macarena que promete «olhar pelo Flamenco, livrá-lo de impurezas e devolvê-lo à sua autenticidade».
torresmacarena.com


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