É uma cruz copta, feita de osso de camelo. Comprei-a no Cairo, numa pequena loja do mercado Khan el-Khalili. Fiz um caminho direto até essa loja. Atravessei um labirinto de ruas e ruelas, serpenteando entre lojas de candeeiros de cobre, panos tingidos, cores ou chamas, lojas de perfumes, especiarias, folhas secas, loiças com desenhos profusos, geometria infinita, entre olhares de homens sentados em cadeiras a bebericar copinhos de chá, olhares breves de mulheres com o rosto coberto, eu numa direção, elas noutra, entre lojas de garrafas e jarros de vidro soprado, pontos de cinza no interior desse vidro, entre outras lojas de objetos esculpidos em osso de camelo, não eram as lojas certas, tabuleiros de xadrez em osso de camelo, entre sombras, pisando grãos de areia, esmagando-os com as solas sobre pedras antigas, amaciadas pela passagem de vidas inteiras, gerações inteiras.

Avancei sem hesitações até essa loja porque seguia os vultos de uma portuguesa e de uma italiana que vivem há anos no Egito. Sozinho, nunca conseguiria chegar lá. Sozinho, se me tivessem abandonado, nunca conseguiria sair de lá. Aquela era a loja certa.

Durante anos, após um grande cansaço de tentativas, após comparações persistentes, as minhas conhecidas concluíram que aquela era a loja certa. Enquanto procuravam o presente que as tinha levado ali, eu passava o olhar por prateleiras e vitrinas, pó. O dono da loja, bigode sério, sobrancelhas graves, seguia as conversas delas em italiano, todos os nossos movimentos. Assim que vi a cruz copta, perdi o interesse nos outros objetos. Discuti o preço, mas não demasiado.

Sozinho, nunca conseguiria chegar lá. Sozinho, se me tivessem abandonado, nunca conseguiria sair de lá.

O cristianismo copta, hoje dividido em ortodoxo e católico, teve a sua origem logo após a vida de Jesus, quando o Egito era uma província do império romano. A forma da sua cruz deriva do hieróglifo «ankh», que significa vida, vida eterna, imortalidade da alma. Como sinal de compromisso, os cristãos coptas tatuam essa cruz no pulso. Mesmo sabendo que, perante uma maioria muçulmana, por vezes radicalizada, essa tatuagem lhes poderá trazer dissabores, os cristãos coptas querem marcá-la na pele definitivamente. Por um lado, a discriminação e o desprezo que essa tatuagem atrair serão paralelos aos tormentos que Jesus viveu e, dessa forma, constituirão um reconhecimento e um louvor; por outro lado, se a vida trouxer dúvidas, a tatuagem será uma certeza.

A cruz copta tatuada no pulso é uma afirmação de identidade desde o fundo da história, através de séculos, desde o fundo da fé e do sangue, desde que, no século VII, os muçulmanos invadiram o Egito e os cristãos coptas, contra tudo, se recusaram a abdicar da sua religião, não permitiram que os invadissem por dentro.

Depois, claro, há os camelos que contribuíram com os seus próprios ossos para esta cruz: quatro camadas de osso sobrepostas, como lâminas. Um dia, estes ossos estiveram no interior dos corpos de camelos, pertenceram-lhes, podiam doer-lhes. Como terão sido as suas vidas? Por onde terão andado esses camelos? Agora, estão aqui, diante de mim. Quando passo por esta cruz, nem sempre me lembro de tudo isto. No entanto, tudo isto faz parte desta cruz. Essa é a forma que está realmente esculpida nas suas linhas.

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