Viajante de causas

Pedro Rego era professor de Educação Física, mas fez-se fotógrafo de vida selvagem e tem andando pelo mundo a fotografar os animais em perigo: das planícies do Serengeti ao gelo do Polo Norte.

Texto de Bárbara Cruz

Foi numa autocaravana, a «caranguejola» do tio, que Pedro Rego começou a viajar. Sempre em família, correu a Península Ibérica, passou os Pirenéus e foi conhecer as praias da Riviera Francesa. Para uma viagem a Andorra, comprou a primeira máquina fotográfica digital. Estávamos em 2000, teria na altura 20 anos. «Coisa de turista», recorda. «Mas nasceu um bichinho».

Em 2005, o fotógrafo turista participou num concurso de fotografia e ficou com o terceiro prémio; um ano depois, comprou a primeira máquina reflex. Autodidata, começou a cultivar a arte da fotografia, mas deixava-a sempre para segundo ou terceiro plano.

Entretanto, licenciou-se em Educação Física e, durante o curso, fez Erasmus na Hungria, «um choque tremendo» na área da docência: «notavam-se muito os resquícios do período ditatorial, entrávamos na sala e os alunos caladinhos, levantavam-se e agradeciam a aula que o professor ia dar. Num pavilhão de educação física não se ouvia uma mosca, só as bolas a bater no chão!». Aproveitou para conhecer boa parte da Europa de Leste mas, quando começou a trabalhar, a atividade profissional deixava-lhe pouco tempo livre.

Deu aulas, abriu um ginásio em Bragança, de onde é natural, e as viagens e a fotografia foram ficando para trás. Até que, em 2012 – era já proprietário de uma câmara semiprofissional – se viu numa encruzilhada: como professor, só conseguia colocação longe de Trás-os-Montes e com horários tão reduzidos que o salário não chegava sequer para pagar as viagens. «Isto não é digno», pensou na altura. E decidiu fazer do hobby a profissão. Nascia assim a Go Wild (gowild.pt), um projeto de «produção e conceção» de fotografia, formação e venda de material fotográfico.

Por viver no Nordeste Transmontano, em pleno Parque Natural de Montesinho, não resistiu ao apelo da natureza e fez-se fotógrafo de vida selvagem. «Tenho a felicidade de viver num local que tem cerca de 77% da fauna existente na Península Ibérica.» Já fez muitas loucuras para captar as melhores imagens, desde subir a escarpas altas a ver-se rodeado de alcateias de lobos. Chegou a passar 15 horas seguidas num abrigo no mato para conseguir apanhar uma ave de rapina em habitat natural. Com a fotografia, estava como «peixe na água», mas faltavam-lhe as viagens. Por ser um «homem de causas», garante, não quis limitar-se a ir por aí de câmara ao peito. «Abracei a causa de fazer histórias com animais em perigo de extinção.» Imaginou um projeto que contempla seis fases: seis viagens para fotografar animais ameaçados por todo o mundo. Duas já estão, África e Polo Norte.

Em 2015, começou a planear a viagem a Svalbard, território norueguês no Ártico. O objetivo era passar cerca de duas semanas no Polo Norte, fotografar ursos polares, perceber o impacte das alterações climáticas e passar tudo para um livro e um documentário. Percebeu que não tinha meios para financiar sozinho a expedição e recorreu ao crowdfunding: 72 pessoas e nove patrocinadores ajudaram-no a pagar metade da viagem. Estava pronto. «A minha mãe chorou», diz a rir-se. Não foi de alegria: não queria que o filho se lançasse naquela loucura.

«Sou uma pessoa preocupada que quer preservar o que temos de melhor no mundo», diz Pedro Rego.

Chegou ao Ártico a 31 de maio de 2016 – com temperaturas próximas dos zero graus – e depois de uma viagem de trinta horas com partida de Bragança. Passou sete dias num barco e outros quatro em expedições em terra. Ficou fascinado com a beleza visual, sentiu «uma emoção enorme» sempre que conseguiu ver e fotografar um urso polar. Mas veio «preocupado e triste» com a magreza das fêmeas e com o facto de o urso polar, solitário e territorial, ter cada vez menos zonas de gelo para caçar, vendo-se obrigado a partilhar o espaço com outros animais da mesma espécie. «Vai dar confrontos, vão ficar feridos e com fome», explica.

Viajou com cientistas, entrevistou investigadores, partilhou o barco com birdwatchers. Meses depois de ter regressado, publicou Polo Norte – O Degelo Final, uma edição de autor que é uma espécie de diário de bordo pontuado com as fotografias que tirou. O trailer do documentário, que será lançado em breve, já está disponível no site da Go Wild.

No início de 2017, novo destino: passou dez dias em África, na Tanzânia, a fotografar chitas, leões e leopardos. Desta vez foi mais fácil: levou um amigo, que também gosta de fotografar, contrataram um guia e fizeram campismo selvagem enquanto andaram pelo Parque Nacional de Tarangire, pela cratera de Ngorongoro e nas planícies do Serengeti.

«As duas primeiras noites foram um bocadinho assustadoras, por ouvir as hienas e as chitas cá fora.» Deitava-se ao anoitecer e começava a fotografar quando o dia nascia. Seguiu religiosamente o conselho do guia: durante a noite, nem um pé fora da tenda. Viu todos os animais que queria ver e, mais uma vez, veio encantado com a beleza natural, mas apreensivo com a seca e com a descoordenação da estação das chuvas, que está a afetar os movimentos migratórios dos animais. Também quer publicar um livro sobre os grandes predadores africanos e, enquanto o projeto avança, está já a planear a próxima viagem, à Antártida. «Não sei se será no final deste ano ou no próximo, mas vai acontecer», assegura, ainda que a logística seja mais complicada – e dispendiosa – do que no Polo Norte.

Depois, seguirá provavelmente para o Parque Natural de Yellowstone, nos EUA. «Além da diferença em termos de paisagem, por causa do enxofre, a fauna é riquíssima: ursos, lobos, alces», enumera. Mas há dois destinos do projeto a seis tempos que desenhou que ainda não revela: «Podem mudar. Um dos locais está neste momento com graves problemas, é inseguro. É preciso ponderar.»

Já foi convidado para dar palestras em várias universidades e politécnicos: pedem-lhe que conte o que viu, como o viveu, e fica grato por poder passar a mensagem com o aval da comunidade científica. Se é um ativista? «Nem pensar. Sou uma pessoa preocupada que quer preservar o que temos de melhor no mundo.»

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