Num ano decisivo para a Europa, o politólogo Bernardo Pires de Lima faz-se à estrada para percorrer as 28 capitais da União Europeia. Depois de muitas conversas, encontros improváveis e perceções surpreendentes, vai juntar os 28 ensaios num livro. Até lá, a Eurovisão será emitida aqui, na Volta ao Mundo.

Paris, França

Por mais que vá a Paris, continuo com a mesma sensação: a capital francesa e eu não nos entendemos. Há poucas cidades tão bonitas, mas continuo sem poder dizer que tenho uma química com ela. Como disse um dia George Steiner, «desce-se uma rua em Paris e há vinte placas azuis com o nome de grandes poetas ou pensadores. Vivemos num grande museu». Acho que é isto que sinto: Paris é uma grande e bela cidade parada.

Sou profundamente grato a França. Tocqueville, Constant, Camus, Aron ou Manent estão no núcleo duro dos pensadores que admiro. A revolução francesa continua a ser um dos momentos-chave, para o bem e para o mal, da minha formação ideológica e académica. Vários outros momentos da história da Europa ditaram a centralidade de França na sua evolução e todos eles, com maior ou menor prevalência trágica, contribuíram para o meu interesse na política europeia. Não é por acaso que regresso a Paris nesta altura: o futuro da Europa voltou a confundir-se com o destino de França.

Paris viveu um clímax eleitoral entre um apocalipse nacionalista (Le Pen) e uma epopeia cosmopolita (Macron). Viver por dentro o desenlace desta contenda civilizacional é estar no centro do futuro próximo da Europa. É por isso que a morte anunciada da França vanguardista foi manifestamente exagerada. Quantos países europeus podem dizer que derrotaram o populismo apocalíptico com um arrojado programa liberal? Quantos analistas podem dizer que um político relativamente desconhecido e tão novo poderia transformar a política francesa de forma tão súbita e entusiasmante? É isto que a França, a espaços, simboliza: um arrojo cultural de supetão.

Com um espólio cultural a céu aberto e um mundo de arte por explorar do Louvre ao Orsey, do Rodin ao Pompidou, do Quai Branly ao Picasso, acabei por parar na fundação Cartier, dedicada à arte contemporânea e projetada por Jean Nouvel, ali bem junto ao cemitério de Montparnasse onde estão sepultados Sartre, Aron, Baudelaire, Beckett ou Serge Gainsbourg. Com um jardim agradável que envolve um edifício de fachada alta totalmente em vidro e que ajuda a fundir a natureza com os materiais mais frios, como as múltiplas linhas de ferro usadas, a fundação tirou-me por umas horas da imponência classista parisiense. Lá dentro, uma retrospetiva fotográfica sobre o universo automóvel, dos clássicos aos mais modernos, da evolução dos seus detalhes à sua absorção pelas sociedades de consumo como um prolongamento da estética e do poder individuais. Em paralelo, mas à noite, vários artistas são convidados a usar os espaços da fundação da forma que entenderem, seja numa atuação musical, numa conferência ou através de uma instalação, criando assim uma sensação de nomadismo numa programação que traz a Paris autores africanos, asiáticos ou de uma qualquer outra parte do mundo.

Esta é a Paris que me atrai: aberta, cosmopolita, inovadora, agregadora, a fervilhar de ideias e expressões culturais.

Paris, a capital de um país motor da política feita na Europa em tantas das suas fases e que pode, vencida para já a treva nacionalista, ressurgir com brio e vanguardismo. Mas a verdade é que todos sabemos que mesmo perante uma fundação Cartier capaz de espelhar esse desafio, há sempre uma linha de montagem excessivamente clássica por trás dos seus relógios. Paris é isto.

Texto e Fotografias de Bernardo Pires de Lima

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