Mi Buenos Aires Querido

As passagens de avião com destino a Buenos Aires deveriam trazer uma advertência impressa semelhante às que constam nos maços de cigarros: a visita a esta cidade pode viciar. Sem ser a mais bela nem a mais limpa, Buenos Aires é a mais sedutora. E, no regresso, é certo e sabido, a mala voltará cheia de experiências que não se encontram em nenhuma outra capital do mundo.

Texto e fotografias de Rafael Estefania

A primeira coisa que surpreende nesta cidade é, porventura, a sua magnitude, realçada pelas faraónicas avenidas – como se fossem rios abrindo-se numa selva de asfalto. Na imperial Avenida 9 de Julho, a mais larga do mundo, ergue-se o fálico símbolo de Buenos Aires, um obelisco de pedra tão amado quanto odiado desde a sua construção. Na sua base encontra-se Corrientes (a avenida dos teatros e o berço do tango), mais adiante temos a Avenida de Maio (que culmina com a Casa Rosada e a célebre Praça de Maio) e a Avenida do Libertador (válvula de escape da cidade nos Bosques de Palermo).

Há algumas décadas, alguém disse que «em Buenos Aires há mais táxis do que lugares para se ir». Hoje, o número de táxis continua elevado, mas os seus destinos são tão abundantes como atraentes. Deslocar-me de táxi em Buenos Aires é um dos meus vícios. Um vício caro, devido à inflação galopante da Argentina (o preço da bandeirada dobrou em somente dois anos). Mas, além das enormes distâncias entre pontos na cidade, que justificam o seu uso, os taxistas representam o termómetro da cidade; informados, dogmáticos e sempre dispostos a partilhar a sua versão do mundo. O tema da conversa pode ser política. Pergunto ao taxista daquela corrida: «Externa ou interna?» Ele responde-me, ajustando o retrovisor para me ver enquanto se prepara para falar, ansioso.

Talvez seja este o mais distinto traço dos buenairenses, o prazer da conversa, o gosto pelo intercâmbio, a predisposição ao debate, sendo qualquer situação propícia para este exercício. Não há cenário melhor para essa prática do que numa das muitas adegas da cidade, rodeado de latas de comida, garrafas de licor e enchidos. Com uma pequena garrafa de vinho e um prato de cozido caseiro à sua frente, a conversa é essencial para essas instituições, não só de gastronomia, mas de sociedade, onde se come com vagar e se fala com o vizinho ou com os empregados de mesa que lá trabalharam a vida inteira, tal qual as garrafas empoeiradas de Fernet que adornam as prateleiras de forma não intencional.

A cultura também é outra forma de hedonismo. O teatro experimental, as exposições nas galerias alternativas e a música ao vivo fazem parte do ADN da cidade. E, é claro, os livros, o vício público dos buenairenses.

Hedonismo
Em Buenos Aires, o hedonismo é democrático; não é património dos jovens ou de pessoas de um nível determinado, mas todos, independentemente da sua idade ou condição social, são apaixonados pelo desporto nacional: um assado de carnes suculentas, uma noite na ópera no Teatro Colón, uma partida de futebol do Boca na Bombonera, uma corrida de cavalos no hipódromo, uma erva picada nos bosques de Palermo, uma pechincha na feira da ladra, bolsas fartas de roupas de marca na Recoleta, um musical em Corrientes, uma exposição nas galerias de Palermo, o amanhecer ao ritmo de música eletrónica em Costanera Norte.

A cultura também é outra forma de hedonismo. O teatro experimental, as exposições nas galerias alternativas e a música ao vivo fazem parte do ADN da cidade. E, é claro, os livros, o vício público dos buenairenses. A livraria do Ateneu, provavelmente a mais bela livraria do mundo, representa uma homenagem à literatura. A sua cúpula, adornada com frescos e mais de 120 mil exemplares, é um presente para os leitores que ali chegam para comprar ou simplesmente olhar para os exemplares dispostos nos palcos deste antigo teatro.

Outras livrarias em Corrientes, abertas toda a noite, servem de refúgio aos insones, ávidos de cultura. Em Palermo, as livrarias/cafés ou cafés/livrarias convidam a degustar um expresso acompanhado de alfajores e croissants, rodeado de volumes. Alimento para o corpo e para a alma. Numa delas, o simples slogan, pintado à mão na janela, diz: «Ler é amar.» E em Buenos Aires, não haja dúvidas, ama-se muito.

Apesar do grau de sofisticação que se respira, Buenos Aires tem também o seu lado obscuro e ardiloso. Notas falsas em circulação fazem até que alguns hotéis carimbem as notas de cem pesos dos seus clientes para evitar o tradicional golpe conhecido como «cambiazo» – consiste no seguinte: o taxista, ao ser pago pelo cliente, afirma que a nota de cem pesos que recebeu dele é falsa. Em seguida, ele devolve ao cliente uma nota diferente da que recebeu, esta sim, falsa.

Entrar em certos bairros (La Boca, pouco além do Caminito, seguramente é um deles) pressupõe um risco que os próprios habitantes se encarregam de lembrar o tempo todo. «Guarde a máquina na bolsa» é o conselho unânime que recebo o tempo todo, até mesmo nos bairros «bons» de Recoleta e no reluzente Puerto Madero. A advertência repetida confere-me certo grau de paranoia e faz que me sinta um sortudo quando, ao final do dia, regresso ao hotel com o meu equipamento intacto.

San Telmo: tango e mercado
O bairro de San Telmo é palco de adegas e de conversas. Federico, um senhor de meia-idade vestido impecavelmente, acende um cigarro com um Zippo de gasolina. «Aqui, a dançar, eu conheci a minha mulher e passámos juntos uma vida até que o cancro a levou no ano passado. Continuo a vir a cada domingo e visto-me assim para que ela regresse.» O seu testemunho bem poderia ser a letra de tango que soa ao fundo, bailado por casais que se formam casualmente; turistas apaixonados pela dança, «tangueiros» apaixonados pelas turistas e casais mais velhos simplesmente apaixonados e que, como Federico, não param de dançar quando termina a canção da sua única companheira de dança.

Onde há pouco mais de uma década havia armazéns e garagens, hoje florescem lojas de moda e dos esqueletos de casas antigas à beira do colapso surgem glamorosos hotéis-boutique com spas, piscinas japonesas e pequenos-almoços desconstruídos.

Domingo é o grande dia de San Telmo. As ruas enchem-se de turistas atraídos pela milonga ao ar livre e feira de antiguidades. Sentado no café-bar Plaza Dorrego, com vista para a praça cheia de vendedores e de visitantes, sinto que a barulheira do domingo não permite que se mergulhe no estado natural de San Telmo, mais próximo da nostalgia do que da alegria. Felizmente, no balcão de madeira do bar, em cujas prateleiras se alinham licores que deixaram de ser fabricados há décadas, é quase possível tocar a essência do bairro com os dedos. Com as suas ruas de paralelepípedos adornadas com lamparinas e casas coloniais, a classe é algo que vem de longa data. A aristocracia que se estabeleceu ali no século xix trouxe com ela a tradicional arquitetura do local, mas a verdadeira atração, o seu caráter, é o legado dos imigrantes de todas as partes do mundo que chegaram mais tarde. Hoje, a nova imigração é formada pelos estrangeiros apaixonados pelo bairro e pelos profissionais portenhos acomodados com a boémia que se instalaram em apartamentos renovados e que abrem restaurantes modernos, bares, hotéis e boutiques.

Palermo Cool
O cardápio do restaurante Magendie, elaborado pelo seu proprietário nutricionista, oferece pratos equilibrados, atenção a hidratos de carbono e sobremesas com zero de gordura. Num país em que o churrasco e o doce de leite são como religião, um menu assim poderia ser considerado um sacrilégio, mas para os gourmands e jovens profissionais que abarrotam as suas mesas, está mais para uma bênção. São precisamente restaurantes como este, com cozinhas bem cuidadas e interiores com estilo, que, juntamente com lojas de design, modernos cafés e hotéis-boutique, representam o cartão de visita de Palermo Hollywood e de Palermo Soho, distritos do bairro de Palermo e autênticas montras da versão mais cool dos buenairenses.

Nem sempre foi assim. Jorge Luis Borges, o ilustre vizinho de Palermo, definiu-o como «um bairro com mais buracos do que casas, um bairro com malandros calabreses e crioulos». Muita coisa mudou em Palermo e nas suas ruas há, no presente, mais óculos escuros de designers do que facas. Pelas suas calçadas caminham profissionais de TV e de cinema (o nome de Palermo Hollywood vem dos estúdios e escritórios de produção da região), estrangeiros de boa pinta e gente bonita de maneira geral. Onde há pouco mais de uma década havia armazéns e garagens, hoje florescem lojas de moda e dos esqueletos de casas antigas à beira do colapso surgem glamorosos hotéis-boutique com spas, piscinas japonesas e pequenos-almoços desconstruídos. Um deles é Home, um oásis de calma a poucos quarteirões da movimentada Praça Serrano (a Placita), símbolo maior do progresso de Palermo. As suas construções minimalistas de estética rétro contrastam com a formosura do seu jardim. No terraço ao redor da piscina reúne-se uma legião de hedonistas nos fins de semana, atraídos pelos seus famosos chill outs e pela oferta de cocktails de autor.Quando chega a noite, o bairro convida a perder-se pelas suas ruas e a descobrir os seus segredos. Num beco, um grupo de jovens vestidos de forma impecável desapareceu por uma porta negra numa fachada coberta de grafite. Em vez do bar que seria de esperar encontrar do outro lado, descubro o Tegui, um dos restaurantes mais na moda atualmente.

Além das lojas de roupas trendy e das galerias, em Palermo é possível encontrar tesouros. Onde? Não há lugar melhor do que a feira da ladra, um verdadeiro deleite, onde mais de duzentos vendedores exibem as suas mercadorias em enormes barracões. Sifões, móveis art déco, porcelanas inglesas, delirantes lâmpadas de aranha, tudo cabe neste enorme bazar. No pátio, carpinteiros e restauradores renovam peças antigas e criam novas. Móveis antigos e novos desenhos; testemunhos do passado do que foi uma das cidades mais sofisticadas do planeta e que, agora, pelo menos em Palermo, se empenha em preservar.

O apelo da carne
Uma grelha sobre a qual são dispostos generosos nacos de carne, vigiados pelo olhar especializado do churrasqueiro, é sem dúvida a imagem que se associa automaticamente à gastronomia da Argentina. A carne é objeto de culto, idolatrada igualmente em bairros operários, assim como nas mais refinadas mesas. O corpo da vaca é um mapa em que são desenhados cortes exclusivos como se fossem países delimitados pelas suas fronteiras. Os diferentes tipos de cortes fazem parte do vocabulário dos argentinos. Os açougueiros com vocação de cirurgiões dissecam as vacas separando as peças como que formando um quebra-cabeças. A grelha é o altar onde cada corte recebe o tempo necessário para que, uma vez no prato, possa induzir sensações, texturas e sabores desconhecidos até então.

De certo, numa cidade tão cosmopolita quanto Buenos Aires, a oferta gastronómica satisfaz muito mais do que os prazeres da carne. Sofisticados restaurantes de autor, modernos, orgânicos e vegetarianos, pizarias e restaurantes de massa italiana, com o pedigree dos imigrantes italianos.

Mas, além dos sabores, o ato de sair para jantar converte-se numa experiência que agrada aos demais sentidos. Restaurantes como Casa Coupage, onde os vinhos argentinos são a partitura adequada numa sinfonia gastronómica perfeitamente afinada, locais de portas fechadas em casas particulares, onde a interação social dos frequentadores é tão importante quanto a comida, ou ainda estabelecimentos como o citado Tegui, que são uma passerelle exclusiva para ver e ser visto.

Numa cidade tão cosmopolita quanto Buenos Aires, a gastronomia satisfaz muito mais do que os prazeres da carne.

E de noite
Buenos Aires não descansa em noites que parecem ser mais prolongadas do que as de outras cidades; possivelmente pela forma como os seus moradores se esforçam em espremê-las até à última gota. É sexta-feira e Buenos Aires mostra a sua faceta mais elegante. Decido começar com uma dose de tango, mas sem os clichés associados ao género, na Catedral, um impressionante espaço com pé-direito de 12 metros e soalho de madeira. Desarrumado e sujo, não é difícil imaginar o seu passado de armazém. Mas a pista é iluminada por luzinhas coloridas, como se estivéssemos numa festa de rua de um vilarejo, e a coleção de mesas e móveis que delimitam o espaço cria um lugar mágico para a milonga. É cedo e é o momento ideal para que diversos casais «normais» possam desfrutar, sem exibicionismos dispensáveis, de uma dança cuja linguagem é a intimidade. Olhos fechados, cadência gravada na memória, sensualidade a cada gesto que observo do meu lugar, fascinado, como se fosse um voyeur.

A noite prossegue, a oferta de bares e casas noturnas é farta, mas numa cidade tão evocadora como Buenos Aires seria um crime conformar-se com o habitual quando o surpreendente se encontra ao virar da esquina. Numa majestosa mansão colonial no bairro da Recoleta, dou com o bar Million. Durante o dia, os seus belos salões bem poderiam constar de um filme de época, não fossem as exposições de arte contemporânea que adornam as suas paredes. Arte tão provocadora quanto os cocktails são descomprometidos. É hora de regressar ao habitat natural dos filhos da noite: Palermo Hollywood. Uma rua discreta, uma porta escondida, uma portinha que se abre ligeiramente para que se solicite uma senha que permitirá a entrada. Bem-vindo ao Frank’s Bar, o primeiro speakeasy da Argentina e recentemente eleito o melhor bar da América do Sul. Dentro, a atividade secreta do bairro é o segredo do sucesso. Um ponto de encontro dos buenairenses cool e de europeus com critério. Caminhando entre a penumbra que faz deste lugar um espaço íntimo, apesar do seu grande tamanho, chego a um ambiente com curiosos artigos nas vitrinas. Mulheres artificiais, vibradores e outros objetos sexuais adornam esta estilosa e libidinosa sex-shop. Mais uma piscadela maliciosa sobre este bar onde o hedonismo é uma virtude servida em copo de martini.


Guia de Buenos Aires

 

Onde ficar
Hub Porteño
Na Recoleta, a zona mais elegante de Buenos Aires, um novo hotel redefine o conceito de luxo. Móveis feitos à mão por artesãos locais, arte para colecionadores e experiências íntimas organizadas pelo proprietário do hotel em torno da cultura, do polo, do tango e da história da cidade. Um perfeito refúgio para gourmands.
hubporteno.com/

Home Hotel
Hotel-boutique de Palermo. Cool, vintage, jovem e com vocação europeia, o seu formoso jardim é um oásis no coração de Palermo.
homebuenosaires.com/

Mansión Vitraux
Sumptuoso edifício de vidro em San Telmo com salão de vinhos, spa e piscina na varanda, além de vista para a Igreja de San Pedro Telmo. Uma oportunidade de fazer turismo a cada braçada.
mansionvitraux.com/

Onde comer
Casa Coupage
Casamento perfeito de comida típica elaborada e vinhos argentinos. Os proprietários sommeliers encarregam-se de fazer que a sua refeição seja tão requintada quanto instrutiva.Indispensável para amantes de vinhos.
casacoupage.com/

El preferido
Rodeado de latas de conserva e garrafas de licor, este adegão é um dos mais tradicionais de Buenos Aires. Comida caseira, preços populares, vinhos de garrafão e conversas.
Jorge Luis Borges, 2108, Palermo

La Brigada
O templo da carne. Churrascaria indispensável em San Telmo. Refúgio de futebolistas, atores, cantores e amantes do churrasco e nostalgia desportiva. Apesar de ser um local turístico, as suas carnes mantêm a mesma qualidade de quando foram provadas por uma jovem promessa futebolística chamada Diego Maradona.
parrillalabrigada.com.ar/

8 Mandamentos
➊ Pechinchar na feira da ladra
➋ Caminhar nos bosques de Palermo
➌ Comer um gelado (a qualquer hora) no Pérsico e no Freddo
➍ Folhear um livro no Ateneo
➎ Visitar alguma galeria de arte independente
➏ Assistir a uma milonga
➐ Assistir a um jogo de futebol na Bombonera
➑ Passar a noite fora até ao amanhecer

A não perder
É possível ter uma ideia do que é uma cidade só por se visitar os seus cemitérios. Um passeio pela Recoleta é uma viagem pelo passado aristocrático de Buenos Aires, graças aos mausoléus das famílias nobres, cujo esplendor chega a lembrar o das residências de luxo. A turbulenta história política do país poderia ser contada pelo túmulo de Evita, visitado por milhares de pessoas.

Reportagem publicada na edição 221 da revista Volta ao Mundo, em março de 2013.

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