Bastante mais pequeno, em território e em concentração de almas, do que a sua vizinha Índia, o Sri Lanka, que muitos portugueses continuam a recordar como Ceilão, tem quase tudo para ser uma ilha feliz. A começar na esperança de que o pior já passou e que, depois da tempestade até 2009, é tempo de bonança. E de alegria. E de celebrar a vida e a paz.

Texto e fotografias de Rafael Estefania

O motorista do autocarro conduz com perícia entre os carros e o enxame de riquexós que se movem da esquerda para a direita, reinventando as regras de trânsito. Parados diante de um semáforo, um camião rudimentar está ao nosso lado. Na parte de trás, um enorme elefante acorrentado mantém o seu equilíbrio de forma precária – a tromba à altura da janela do meu carro parece dar-me as boas-vindas ou, mais prosaicamente, lembrar-me que este é um país em que o insólito faz parte da paisagem. É assim mesmo esta ilha, surpreendente e sempre disposta a nunca nos deixar indiferentes.

Situado no oceano Índico, à sombra da sua gigantesca vizinha Índia e dos seus mais de mil milhões de almas, o Sri Lanka revela-se compacto (com pouco mais de vinte milhões de habitantes), acessível e pronto para receber a nova onda de visitantes que começaram a regressar ao país a partir de 2009, quando a paz pôs ponto final à atroz guerra civil que consumiu o país durante 26 anos sangrentos.

Atualmente, os cingaleses não querem falar do passado e preferem investir as suas energias no futuro. Como se procurassem recuperar o tempo perdido, recebem hoje o visitante com extrema hospitalidade, resultado das décadas em que o conflito os obrigou a reprimir essa generosidade inata.

Ao sair do templo hindu de Sri Kailawasanathar Swami Devasthanam, em Colombo, uma família com quatro filhos pequenos aproxima-se de mim e pede que eu pose para uma fotografia com eles. As vívidas cores que adornam a frente do templo servem de fundo para este retrato familiar com um turista. Apesar de ser o Kovil (templo hindu) maior e mais antigo de Colombo, apenas um pequeno grupo de visitantes passeia em seu redor. É que os verdadeiros tesouros do Sri Lanka estão longe das imediações da sua capital maltratada e empoeirada – afinal, convenhamos, é difícil alcançar a iluminação espiritual quando se está cercado de lixo.

Por isso, para alimentar a alma não há nada melhor do que os templos budistas, ruínas e mosteiros espalhados ao longo de quarenta quilómetros de natureza de Anuradhapura. Ali, neste enorme museu ao ar livre, antiga capital do Sri Lanka do século IV e hoje uma cidade sagrada para os budistas, a grandeza da antiga civilização cingalesa vem contada nas pedras talhadas com os relevos que durante séculos permaneceram ocultos pela selva. Um exemplo disso é a gigantesca stupa de Jetavanaramaya (com os seus 122 metros de altura era, juntamente com as pirâmides de Giza, o monumento mais alto do mundo antigo), que permaneceu camuflada como uma montanha desde o princípio do século XX. Agora, a sua estrutura semiesférica de tijoleira voltou a ver a luz por entre a vegetação rasteira e as especulações em torno da relíquia dão conta de que o local abrigaria um fragmento do cinto de Buda.

Os verdadeiros tesouros do Sri Lanka, como a natureza, os templos budistas e as ruínas, estão longe das imediações da sua capital, mais conhecida pelo seu caos do que propriamente pelas atrações turísticas.

O pôr-do-sol acentua o tom da tijoleira e a estrutura. Subitamente, todo o parque é coberto por uma intensa cor avermelhada. A poucos metros dali, cumprindo um ritual diário, um grupo de jovens monges recolhe a faixa laranja que adorna o perímetro de quase trezentos metros de Ruwanwelisaya, outra stupa gigantesca e centro de peregrinação budista. As suas túnicas alaranjadadas contrastam com o branco impoluto do templo, enquanto realizam uma coreografia hipnótica (cada um deles segura uma ponta da faixa até formar uma imensa bola de tecido alaranjado). À vista de todos os presentes, macacos apropriam-se das oferendas de fruta dispostas aos pés das estátuas de Buda e fogem com o saque em direção ao lugar mais alto e venerado da cerimónia: o Sri Maha Bodhi, uma árvore sagrada que teria brotado no mesmo lugar que abrigou a figueira debaixo da qual Buda alcançou a iluminação.

Para quem busca uma experiência mais reservada, nenhum outro lugar se compara ao recolhimento que pode ser sentido no mosteiro encravado no rochedo de Dambulla. No interior destas cinco grutas, centenas de frescos com cores vibrantes cobrem as paredes e os tetos. Um total de 153 estátuas de Buda, de todos os tamanhos e em todas as posições, conferem, por sua vez, a este espaço a majestade de uma catedral neolítica. Como se fosse uma espécie de Triângulo das Bermudas, é muito fácil acabarmos engolidos pela riqueza arquitetónica e pela carga espiritual do chamado triângulo cultural do centro da ilha que, juntamente com as já citadas Anuradhapura e Dambulla, também inclui a majestosa Polonnaruwa, a cidade mais bela do país, Kandy, e o desafiador forte de Sigiriya, situado em cima de uma rocha de magma solidificada a uma altura de 370 metros a partir do nível do mar.

O acesso a esta última, protegido por fossas infestadas de crocodilos, foi construído em 495 d.C. e constituiu, por bom tempo, uma tarefa impossível. Hoje, aceder ali é ligeiramente mais fácil, ainda que se exija pulmões possantes para subir os 1200 degraus da escadaria construída nas paredes de pedra. Na metade do caminho, como recompensa pelo esforço inicial, os requintados frescos das mulheres de Sigiriya oferecem uma oportunidade de se respirar em frente da presença erótica destas «Giocondas».

Mas nem tudo no Sri Lanka serve de alimento à alma. Uma vez livres dos fascínios do centro, é possível dar ao corpo uma trégua nas praias idílicas a oeste da ilha – são quilómetros e quilómetros de areia finíssima e de palmeiras em Trincomalee, sem falar nas águas cristalinas e nos recifes prontos para serem explorados em Hikkaduwa. Não longe dali, na costa de Kathaluwa, encontram-se os chamados pescadores das pernas de pau. Como se fossem aves empoleiradas em varas rudimentares cravadas nos recifes do coral, ficam à espreita das suas presas. Com peles marcadas pelo vento e articulações castigadas por conta da sua postura forçada, são os pescadores mais pobres e, sem barcos, atrevem-se a desafiar o mar bravio do alto das suas frágeis pernas de pau.

A região costeira do Sri Lanka tem um passado que o país prefere esquecer: o tsunami de 2004 golpeou as costas do Sri Lanka levando mais de três mil vidas. No extremo sul da ilha, uma das populações mais afetadas, na colonial Galle, sorri agora com entusiasmo e, saradas as feridas, a única recordação deixada pelo mar são as poderosas ondas que fazem da praia vizinha de Unawatuna um paraíso para os surfistas.

É em Galle que o legado colonial se mantém com mais força, através da indelével marca do império britânico, que pode ser percebida nos uniformes escolares, na paixão desmedida pelo críquete, no respeito à coroa e nos maneirismos tipicamente british.

É precisamente em Galle que o legado colonial se mantém com mais força, através da indelével marca do império britânico, que pode ser percebida nos uniformes escolares, na paixão desmedida pelo críquete jogado em cada esquina, no respeito pela coroa e nos maneirismos tipicamente british, que permanecem vivos até hoje.

No centro histórico da cidade, conhecido como O Forte devido às muralhas que o rodeiam, vestígios de outros colonizadores mais antigos (portugueses e holandeses) estão presentes na arquitetura e no desenho urbano formado por ruas estreitas.

Ali, junto às muralhas do forte de Galle, o pôr-do-sol converte-se num espetáculo diurno e ponto de encontro dos habitantes da cidade. No relvado deste pontão, três monges budistas vestidos com túnicas da cor do vinho meditam olhando o mar. As alunas de uma madraça, com os cabelos cobertos com hijabs (lenços ou véus), caminham em fila enquanto sorriem para um grupo de jovens cingaleses que, sentados em círculo, escutam uma música de Bob Marley e bebem cerveja numa versão tropical do botellón. No balcão das casas coloniais holandesas do forte, uma distinta senhora de rosto da cor do leite, com traços europeus, protege-se com uma sombrinha de renda enquanto observa os turistas vestidos de bermudas e T-shirts coloridas que não querem perder o entardecer junto ao mar. Segundo Arthur C. Clarke, autor de 2001: Odisseia no Espaço, que viveu e morreu na ilha, «o Sri Lanka é o melhor lugar do mundo para contemplar o universo». Com efeito, quem vê este espetáculo sentado nas muralhas de Galle não pode deixar de lhe dar razão.

Há quem diga que um pôr do Sol é igual em qualquer parte do planeta, mas isso é para quem nunca assistiu a um a partir das muralhas de Galle. O Sri Lanka é o melhor lugar do mundo para contemplar o universo e pensar na vida.

São duas da tarde e é possível perceber a excitação dos elefantes através da agitação das suas orelhas e do seu ocasional barrido dissonante. Guiada por tratadores, a imponente manada de 72 elefantes (o maior número de elefantes cativos no mundo) caminha como se fosse um exército, a passos largos, pelas instalações rudimentares do orfanato de elefantes de Pinnawala. Os grupos de crianças com os seus tradicionais uniformes escolares, outra herança colonial britânica, posicionam-se, por segurança, atrás das varas de madeira para ver o desfile, enquanto os paquidermes mais sociáveis mexem as trombas em busca de pedaços de fruta. Repetida diariamente, esta marcha marca o início do ritual dos elefantes, que se dirigem ao rio, a meio quilómetro de distância, e onde, por algumas horas, combatem o calor pegajoso com um banho refrescante.

Pinnawala é o primeiro orfanato de elefantes em todo o mundo e a sua popularidade entre turistas e locais deve-se tanto ao contacto próximo com os animais – ali é possível viver a irresistível experiência de dar de beber a algum dos pequenos elefantes órfãos – como à sua localização, a noventa quilómetros apenas da capital, Colombo. Pequenos órfãos, veneráveis anciãos vítimas de maus-tratos e animais feridos são os habitantes deste local de acolhimento, o que faz de Pinnawala o lugar mais óbvio e também o mais amável para se entrar em contacto com a fauna local.

Mas não é sequer o único do género, pois a ilha, apesar do seu pequeno tamanho (consideravelmente menor do que Portugal), abriga uma das maiores biodiversidades do planeta: mamíferos, répteis, anfíbios, aves e peixes protegidos em nove parques nacionais, um parque marinho e sete santuários de aves espalhados pelo país. Centenas de espécies, muitas delas endémicas, vivem também neste paraíso ecológico.

No entanto, mesmo com todos os esforços de conservação realizados graças à criação de espaços protegidos, 43 das espécies que a ilha possui estão na lista negra de animais em perigo de extinção, como é o caso do leopardo e do elefante autóctone do Sri Lanka (o mesmo que perambula pelo orfanato de Pinnawala rumo ao seu incerto futuro).

Qualquer outro país com tamanha riqueza e variedade ecológica seria destino imprescindível para os amantes da natureza e uma meca do turismo verde (na costa sul, por exemplo, é possível ver os maiores mamíferos da terra no mesmo dia, elefantes selvagens no parque de Udawalawe e baleias azuis na costa de Mirissa), mas nem mesmo os tesouros culturais da ilha, juntamente com a oferta hedonista das suas praias banhadas pelo Índico, fazem que o Sri Lanka seja mais conhecido por estes atrativos deslumbrantes do que pela sua oferta ecológica.

Uma oferta tão mais abundante, é bom dizê-lo, quando se leva em conta a vasta diversidade topográfica, climática e natural, mais própria de um continente do que de uma pequena ilha. A vantagem de tudo isto é que aqueles que se animam a explorá-la acabam por se ver recompensados com espaços naturais praticamente vazios e parques onde ainda é possível fazer uma incursão sem que se esteja cercado de jipes e de hordas ruidosas de turistas, tão comuns em grandes safaris africanos. Inclusive no mais popular dos parques, a reserva selvagem de Yala, conhecida por ter uma das maiores populações de leopardos do mundo, ainda se respira um ar de calmaria – quando ali estive, eram seis da manhã e em vez de uma frota de SUV, havia somente quatro veículos, cada um com dez pessoas, partindo do único lodge existente na reserva, o Yala Yala Village. Juntos por alguns minutos, os quatro dispersaram-se tomando rotas diferentes pelos 141 quilómetros quadrados que se podem visitar do parque (a extensão total do parque é de 940 quilómetros). Um delicioso amanhecer que acabei por perder, infelizmente. A experiência teve início ainda na madrugada, com os búfalos deambulando por entre as cabanas e, depois, pela possibilidade (não cumprida) de ver elefantes vagueando pela praia de Yala, adjacente ao lodge. Não me levantei à hora marcada. Uma hora mais tarde do que o restante grupo, juntei-me ao safari num quinto veículo, juntamente com três cingaleses tão pouco pontuais quanto eu.

O paradigma do Sri Lanka. Este país continua muito aquém do seu enorme potencial turístico, tanto que, apesar de bastante louvado pela sua cultura, patrímónio e praias deslumbrantes, a sua natureza pródiga não tem a atenção merecida

O guia conduzia com perícia o veículo aberto pelas pistas de terra, com um olho no caminho e outro no matagal onde os galhos partidos nos alertavam para a presença de um elefante fêmea a poucos metros da pista. Com movimentos rítmicos, esta coçou o seu traseiro num mal-afortunado arvoredo, que cedeu à pressão de cinco toneladas de coceira. Alguns metros depois, manadas de búfalos pastavam com as suas patas semi-imersas num dos muitos pantanais do parque. Atrás deles, em cima de uma rocha, um pavão-real posava com a sua plumagem aberta, como que pronto para ser fotografado.

O número de animais à vista é diretamente proporcional ao calor e três horas e meia mais tarde, com o sol inclemente, era hora de abandonar o parque. O motorista pisou no travão bruscamente e indicou que iria virar à esquerda. Com passos lentos, um leopardo aproximava-se da pista de terra e deteve-se a uns dez metros dos nossos veículos. O rei da selva cingalesa e o astro dos safaris do Sri Lanka fez a sua aparição. Durante vários minutos, ele olhou fixo para o horizonte, alheio à nossa presença. Quando escutou à distância o som dos motores de outros veículos que se aproximavam apressadamente, sua majestade simplesmente desapareceu no matagal sem lhes dar sequer oportunidade de vê-lo. A deceção nos rostos dos turistas contrastava com o sorriso cúmplice dos meus companheiros de jipe cingaleses, cientes da nossa boa sorte. Deus ajuda a quem cedo madruga, mas no Sri Lanka, pelos vistos, Buda prefere os dorminhocos.

Ouro cingalês

Como se tivessem sido recém-penteadas, as subidas das montanhas do interior da ilha parecem uma sucessão de sulcos simétricos. À distância, estes lugares são pontilhados por cores vibrantes. São as colhedoras de chá, atividade sempre exercida por mulheres, que trabalham de sol a sol recolhendo a apreciada folha. A qualidade da folha é diretamente proporcional à altitude, mas as mais cobiçadas encontram-se à altitude de cerca de 1200 metros. Sob o olhar ameaçador do capataz, cada uma recolhe em média 16 quilos por dia. Estas folhas secas, dissolvidas e submetidas a um processo de oxidação na fábrica, dão origem ao famoso chá do Ceilão, um dos mais requintados e cobiçados no mundo. Sempre coado e nunca em saquinhos (que se enchem de folhas da pior qualidade e restos), a sua complexidade de sabores exige que ele seja saboreado com calma e respeito; o trabalho incansável de centenas de coletoras está, afinal, presente em cada gole.

Esta reportagem foi publicada na edição 217 da revista Volta ao Mundo, em novembro de 2012.

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