Muito associada ao navegador Cristóvão Colombo, a cidade de Génova é uma lição de história que continua a ser escrita, dia a dia. Passado, presente e também futuro, pois ela não para de reinventar-se graças agora a outros seus filhos ilustres, como é caso do arquiteto mais do que premiado Renzo Piano.

Texto de Daniela Pinto Neves / Fotografias de Patrick Esteves

Génova. Chego à Stazione Principe, na Piazza Acqua Verde, com a habitual e comedida ansiedade de que sempre se reveste a chegada a um destino desconhecido. Dirijo-me ao Hotel Britannia. A meio caminho, a estátua de Cristóvão Colombo saúda-me. Na receção do hotel apresento-me em inglês e sou surpreendida pelas palavras amáveis de uma das funcionárias que me responde em português do Brasil. Viria mais tarde a inteirar-me de que a língua de Camões também se estuda formalmente em Génova, embora de forma relativamente restrita.

Na famosa Via Garibaldi, ao subir uma das inúmeras escadarias que compõem as ruas de Génova para chegar à Spianata Castelleto, tenho a primeira confirmação de que estou, efetivamente, na denominada cidade vertical. Edifícios coroados de terraços ajardinados povoam as colinas que se estendem até ao mar, ao fundo, e o perfume das glicínias que pendem dos gradeamentos adensa a sensação de que os sentidos ficarão despertos durante a jornada. Sublime. A descida de retorno faz-se de forma cautelosa, apesar do calçado confortável (recomenda-se), apreciando cada fachada e cada janela verde que ladeiam as estreitas ruas da escadaria. Começa, então, a descoberta da antiga Strada Nuova ou Via Aurea, onde os doze palácios de arquitetura maneirista, referenciados pela UNESCO, lhe conferem a designação de museu ao ar livre.

Construídos pelas famílias aristocráticas mais abastadas e poderosas de Génova, encontram-se dispostos de forma hierárquica, sendo fácil distinguir a posição económica ocupada por cada uma, atendendo à suntuosidade da construção. Estes palácios surgiram com o propósito de satisfazer as intenções do governo, cuja estratégia seria atrair visitantes e, evidentemente, desenvolver a cidade. Então, nada melhor do que albergar as mais importantes figuras da época, sem custos acrescidos. Como tal, cada família esmerava ao máximo as sua capacidades, de modo a poder ser contemplada com os visitantes mais distintos que receberia, responsabilizando-se pelas suas expensas. Este sistema criado pela república era designado por Rolli e englobava três categorias de edifícios: os de primeira categoria destinavam-se a receber realeza e papado, os de segunda albergavam figuras políticas e duques e, por último, os de categoria inferior acolhiam funcionários dos restantes estratos. Todos os edifícios foram concluídos entre 1550 e 1584. O maior, o Grimaldi, foi morada dos conhecidos Savoya, sendo atualmente ocupado pelo município, onde podemos visitar um museu, tal como acontece com o Palazzo Bianco e o Palazzo Rosso. O acervo existente foi pertença das famílias e pode ser apreciado por quem o desejar. A não perder.

Em finais do século XVIII, Génova estabelece fortes relações políticas com a França, sendo prova disso o estilo neoclássico que se manifesta em muitos destes palácios. O regresso ao passado recomeça assim que entramos nos palácios. Sou convidada a entrar no Palazzo Verde, em frente ao município, e apercebo-me da grandiosidade e da estratégia da construção: todas as escadarias são voltadas para poente, pois era hábito dos hóspedes chegar durante a tarde e a luminosidade fornecida pela luz natural tornava mais confortável e apetecível a estada de quem vinha. Além deste preciso detalhe, os hóspedes encontravam condições de exceção para a época, tais como calefação, água corrente e sanitários.

Uns metros à frente, ao lado do edifício do município, enche-me a visão uma fachada grandiosa, restaurada em 2004, ano em que coube a Génova o título de Capital Europeia da Cultura, mantendo a cor original. O pátio dá lugar a uma imagem de outra dimensão.

Segue-se o Pallavicini, atual sede da Câmara do Comércio de Génova. Vale a pena dar uma escapadela à loja histórica que se situa em frente, cuja especialidade são os caramelos e alguns exemplares feitos de pasta pro fumo, que justificam de forma incontestável a permanência do estabelecimento neste local. O palácio número dois dá-nos a possibilidade de subir de elevador até ao piso superior. À saída da pequena cabina, podemos apreciar a beleza de uma pintura em perspetiva no teto, que representa a Alegoria da Paz.

A lembrança da capital do país surge no palácio número 2. Aqui foi chamado um discípulo do arquiteto Galeazzo Alessi, um reformador/inovador da arquitetura maneirista de Génova, que laborou na Basílica de São Pedro, em Roma. O trajeto ao longo da Via Garibaldi conduz-nos à Piazza delle Fontane Marose. Aqui, a perspetiva de espaço alarga-se um pouco, mas a sua dimensão é reduzida quando comparada com o conceito de praça em terras lusas.

Totalmente habitado, este centro histórico proporciona ao visitante a agradável sensação de se perder sem se perder. Estreito e, claro está, sinuoso e com vários níveis, eis-nos calcorreando o trajeto outrora ocupado pelas águas. Os pequenos estabelecimentos que existem são charmosos, claramente remodelados com respeito pelas origens, mantendo um compromisso entre a história e a modernidade. Quando os prédios foram reformados, a demolição não estava sequer em consideração, tudo foi restaurado dando origem a uma sedimentação da arquitetura de Itália: há fragmentos de todos os momentos arquitetónicos e históricos.

À medida que percorro as vielas, sou tentada a provar a focaccia (fogaça), uma espécie de pão salgado com azeite, muito apreciado pelos genoveses em qualquer pequena pausa entre refeições. O percurso continua pela Via Macelli di Soziglia, onde podemos encontrar produtos genuínos como bacalhau, azeite e queijo.

O aroma e as cores convidam a entrar em frutarias que se estendem até à calçada e a atenção prende-se com a decoração de um talho, em particular com o seu imponente balcão de mármore, onde se pode apreciar os rostos de Garibaldi e de um casal de monarcas.

Desemboco na pequena Piazza Lavagna, rodeada de casas com estrutura medieval, e sigo até à Via Maddalena, pequena rua romana paralela à Via Garibaldi, onde me chama a atenção um pequeno santuário situado na aresta de um edifício e reparo também nas placas azuis que identificam e explicam todos os prédios que pertenceram ao mencionado sistema Rolli.

Ainda percorrendo a zona antiga da cidade, chego à Piazza dele Vigne, onde se situa a Basílica Maria dele Vigne, e encontro uma tumba suspensa. Aqui, uma vez mais, a interligação dos estilos medieval e barroco é evidente. Imperdível: a pouca distância, encontro a loja histórica Romanengo, onde tenho o prazer de apreciar frutas e flores conservadas em açúcar e degustar um peculiar licor de rosas.

Sigo em direção à Piazza San Matteo, a praça da família mais importante de Génova. A igreja é revestida de mármore preto e branco, na forma de linhas horizontais, como acontece em todos os edifícios públicos da cidade. Ao lado da igreja é possível usufruir de um momento de paz nos seus claustros. Na Chieza Gentilizia (Igreja Nobre) encontra-se a tumba do almirante Andrea Doria. A denominação advém do facto de ter sido construída com dinheiro da família, a quem cabia, inclusivamente, a escolha do pároco. O edifício pertencia, no entanto, ao Vaticano.

«Do mar veio Petrarca, avistou as torres de vigilância e denominou a cidade: Soberba!»
Estamos numa cidade vertical. Edifícios coroados de terraços ajardinados povoam as colinas que se estendem até ao mar. Lá em baixo, o centro histórico.

«Do mar veio Petrarca, avistou as torres de vigilância e denominou a cidade: Soberba!» O reconhecimento de edifícios de devoção continuaria até à Piazza di San Lorenzo. A coleção de telas patente na Cattedrale di San Lorenzo carrega séculos de história: desde tapar a mercadoria nos barcos até ornamentar os altares na época quaresmal, as suas funções revestem-se de uma verdadeira multiplicidade. A tinta que as constitui era, maioritariamente, azul, elaborada a partir de pó de flores trazidas da Índia, mais tarde utilizada para tingir o tecido das calças jeans – a este respeito permanece ainda a dúvida, bem como a eterna disputa entre Génova e a cidade francesa Nimes, cada uma reclamando a origem da universal peça de vestuário, feita com tela blue de Jean (Génova). Circundo a catedral subindo os últimos metros da Via S. Lorenzo em direção à Piazza de Ferrari e observo, uma vez mais, as fachadas dos edifícios envolventes, que convidam a analisar pinturas e portadas coloridas. Chego e encontro o Palazzo Ducale, local onde se realizam diversas atividades culturais, com fachada neoclássica, edificado sobre estruturas medievais. A visita a este edifício requer algum tempo, pois trata-se de um dos principais monumentos da cidade, com largos anos de história. Encontram-se em exibição vários trabalhos, de autores nacionais e internacionais, que podem ser apreciados de forma a adensar a panóplia de recordações que os visitantes transportam na viagem de regresso.

A coleção de telas patente na Cattedrale di San Lorenzo carrega séculos de história:
desde tapar a mercadoria nos barcos até ornamentar os altares na Quaresma. O seu tom azul era obtido a partir do pó de flores indianas.

Rodopio sem sair do lugar, embalada pela musicalidade dos repuxos de água do fontanário que ocupa o centro da praça, e contemplo o Teatro Carlo Felice – Teatro dell’Opera, a Accademia Linguistica di Belli Arti (Academia das Belas-Artes), o Palazzo della Borsa (Palácio da Bolsa), para voltar ao início da minha pequena expedição a este local que une o centro histórico medieval à zona moderna de Génova.

Deixo a Piazza de Ferrari e caminho pela Via Dante com destino à piazza com o mesmo nome, a entrada nascente da cidade para quem chegava pela antiga estrada romana.

Prossigo pelas ruas estreitas, trilhando o lugar onde antes passavam as águas, e vejo um plano urbanístico que mantém a estrutura original. Atravesso, de novo, a Via San Lorenzo e desço até à Piazza Banchi, a pouca distância do mar e do emblemático Acquario. Nesta praça, perto do Porto Antico, muitos artífices costumavam trabalhar em bancos de madeira. Aqui está a primeira Bolsa do Mundo, pois a mercadoria chegada do mar assim o tornou necessário, e aqui se realizava o mercado medieval e se ergueu uma igreja após a passagem de uma cruel peste, em forma de agradecimento à Virgem pelo término da enfermidade. Esta representação do passado facilmente se concebe quando nos encontramos frente ao Mediterrâneo e escutamos a vida das gentes que passam, passeiam, falam, vivem.

Redesenhada pelo arquiteto genovês Renzo Piano, desde 1992, a zona portuária ficou aberta ao público como espaço de turismo e lazer. Os armazéns deram lugar a lojas e restaurantes, bastante frequentados por genoveses e turistas; ao AcquarioVillage – o formato de porta-cargas do aquário, que parece esperar a vida vinda do mar; ao Galata Museo del Mare, onde se pode conhecer a história da navegação; à Città di Bambini, dedicada aos mais jovens; ou ao Bigo, elevador panorâmico – a não perder, de 2 a 6 de outubro, o International Boat Show, durante o qual a cidade organiza Genoa in Blue.

Volto as costas ao mar e observo a sede do governo, um edifício totalmente recuperado, que mantém o magnífico fresco principal na fachada, onde está representado S. Jorge a matar o dragão. Nesta rua podemos apreciar uma fila de fachadas sucessivas que provocam a ilusão de estarmos na presença de apenas uma construção – a frente marítima de Génova tem quase mil e quinhentos metros de extensão.

Depois da pausa para almoço, preparo-me para a segunda parte da jornada. Inicio a subida da rua lateral da Chiese S. Donato e olho uma vez mais para a sua torre octogonal. Chego a um terraço, o Giardini Luzzati, constituído essencialmente por um parque infantil. Aqui, rodeadas de história, várias famílias desfrutam do seu café enquanto um grupo de crianças soltam risadas e palavras na língua italiana, que tão facilmente cativa.

Decido descer e retomar a Via San Lorenzo. A esplanada do Café del Duomo convida-me a ficar. Não resisto a um café acompanhado por um doce especial, com a catedral em frente, ao som da música que dois artistas de rua proporcionam. Neste momento de tranquilidade, escuto turistas na mesa vizinha e observo habitantes locais que passam calmamente com os seus sacos de compras.

Depois de atravessar a Piazza de Ferrari, avisto a Galeria Mazzini e acredito ter chegado à rua das sensações: um lugar acolhedor e charmoso, resguardado por uma cobertura envidraçada, onde se conciliam cafés e estabelecimentos comerciais para diversos gostos e preços. Em determinadas épocas do ano, nomeadamente no Natal, este espaço alberga antiquários e livreiros detentores de verdadeiras relíquias. Subo esta pequena encosta comercial de uma extremidade à outra e entro na Via Roma, que me levará ao Largo Eroslanfranco e ao Palazzo Antonio Doria (século xvi), sede da Prefettura, do Palazzo del Governo e da Amministrazione Provinciale, Património Mundial da UNESCO, também pertencente ao sistema de Rolli. Entro e visito o átrio deste edifício e detenho-me com as colunas que o sustentam e, particularmente, com as pinturas que adornam tetos e paredes, como se estivesse envolta numa autêntica manifestação de arte.

A esplanada do Café del Duomo, ao lado da catedral, convida-me a ficar e a contemplar.
Não resisto a um café acompanhado por um doce especial, com o monumento em frente, ao som da música que dois artistas de rua proporcionam.

Ao sair vejo, à direita, a Piazza Corvetto e contemplo o monumento a Vittorio Emanuele II, mas é para a esquerda que prossigo, pela Salita Santa Caterina, via onde também é possível fazer compras, interromper para uma pausa num dos cafés ou degustar um aperitivo no Mua, ali perto. Prossigo em direção à Piazza de Portello, onde desemboca a Galeria Giuseppe Garibaldi, um dos muitos túneis que integram Génova e que fazem parte do quotidiano de peões e automobilistas. Nesta praça situa-se também um dos elevadores, essenciais à deslocação nesta cidade vertical, bastante úteis pela comodidade que oferecem. O Ascensore de Castelleto apresenta um acesso em túnel, agradavelmente decorado e amplo até ao elevador propriamente dito, ascende à Spianatta di Castelleto. Neste corredor encontro na parede palavras de Giorgio Caproni: «Quando mi sarò deciso d’andarci, in paradiso ci andrò com l’ascensore di Castelleto. (Quando decidir ir ao paraíso, irei com e elevador de Castelletto.)» Sábias e verdadeiras para quem passa por Génova. Atravesso o túnel e, no Largo Zecca, encontro o funicular Zecca/Righi, uma alternativa igualmente agradável para visitar os pontos mais elevados da cidade. Saio em San Nicola e percorro ruas, que são verdadeiras plataformas, como se de varandas se tratasse. Desfruto das vozes e dos sorrisos da gente que passa enquanto sigo pela Via Corso Firenze, que me conduz a um miradouro e a um parque infantil com vistas soberbas sobre a cidade. Aproximo-me e misturo-me com algumas dezenas de famílias que ali se encontram no final da jornada de trabalho e observo-as conversando, enquanto vigiam os mais jovens. Ao descer a rua de autocarro, passo pelo Museo delle Culture del Mondo, em Castello D’Albertis, também facilmente acessível através do Ascensore Montegaletto. Saio na Piazza del Principe, onde se localiza o Palazzo di Andrea Doria, verdadeira maravilha do Renascimento, que pode ser visitado, percorrido e admirado.

Aproxima-se a hora do jantar e, após ponderar as inúmeras e tentadoras opções disponíveis, elejo o Sciuscià e Sciorbí, na Via xxv Aprile, próximo da Piazza de Ferrari. Enquanto aguardo, reparo nas frases que embelezam as paredes e familiarizo-me com o tom crescente das conversas dos outros clientes, descontraídos e alegres. A pizza que pedi é trazida poucos minutos depois e surpreende-me pelo seu exagerado diâmetro, mas a sensação de estranheza rapidamente se dissipa, à medida que a qualidade dos ingredientes frescos e autênticos se faz sentir. A tarte de maçã que completa a refeição é suave, doce e natural e o café expresso traz-me recordações de rotinas portuguesas.

Percorro uns escassos cinco minutos caminhando em direção à Piazza delle Erbe, ícone da noite e diversão genovesa, onde, entre centenas de pessoas de diferentes faixas etárias, é possível saborear uma bebida, degustar iguarias e, acima de tudo, conviver ao bom ritmo italiano. Coração da zona antiga da cidade, alberga restaurantes, bares, lojas de artesanato e diversão até altas horas da madrugada, especialmente aos fins de semana.

O dia começa cedo, pois espera-me um percurso de cerca de uma hora e trinta minutos de comboio, o meio mais simples e agradável de chegar às Cinque Terre (Cinco Terras), conjunto constituído por Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore. Reconhecidas desde 1997 pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, constituem uma singular zona protegida da Riviera Italiana.

À minha frente, alguns visitantes carregam malas de viagem, pois existe a possibilidade de pernoitar em Vernazza, arrendando quartos nas casas dos habitantes, com ou sem vista para o mar.

A poucos metros do hotel, na funcional Stazione Principe, adquiro o bilhete de comboio (13,60 euros, ida e volta) e instalo-me confortavelmente. No início, os quilómetros de linha subterrânea parecem-me infindáveis e aguçam a impaciência e a ansiedade pelas prometidas paisagens. A viagem é feita praticamente junto à costa. O mar como companhia de um lado e as colinas adornadas de peculiares construções do outro fazem ter a sensação de estarmos perante uma tela gigantesca que transforma o percurso numa agradável surpresa, como se deslizássemos enlaçados pela vegetação abundante e pelo Mediterrâneo, que teima em não desaparecer.

A estação de Vernazza apresenta dimensões particularmente reduzidas, pois a configuração natural desta zona é bastante montanhosa, sendo maioritariamente adaptada às necessidades humanas pela utilização de túneis. Encontro algumas dezenas de passageiros na plataforma, grande parte estrangeiros, e começo a aperceber-me da dimensão do espaço: exíguo e aproveitado ao detalhe, com um encanto especial. Desço os degraus da saída que me levam à rua principal, a única em plano horizontal, e começo a caminhar por entre visitantes e locais que circulam em ambos os sentidos. Esta pequena localidade piscatória, edificada sobre as escarpas, é um verdadeiro hino à cor e à variedade. Ao longo da rua é possível retemperar energias num dos charmosos cafés, adquirir souvenirs ou produtos naturais da região ou, simplesmente, desfrutar da beleza em redor. Chego ao fim da pequena via e eis-me em frente ao mar, numa praceta, Piazza Marconi, que desemboca num exíguo cais, com pequenas embarcações ancoradas e uma reduzida área de rocha escura, onde as ondas vêm reclamar o seu espaço. Guardas-sóis coloridos e bancos de madeira pintada de verde ornamentam este espaço, convidando a uma pausa em dias amenos e quentes, tendo o Mediterrâneo por companhia.

À direita está a Igreja de Santa Margherita, patrona di Vernazza, que visito para conhecer o templo onde a padroeira escuta as preces e os agradecimentos da gente que vive do mar. Pouco espaçosa e na penumbra, apresenta uma imagem da santa no pequeno hall que dá acesso aos poucos degraus que levam ao local de culto propriamente dito.

A visita ao Castello Doria faz-se através da subida de ruelas estreitas e labirínticas, constituídas essencialmente por degraus e curvaturas inimagináveis, que possibilitam a passagem por residências particulares, recantos curiosos e terraços ínfimos que demonstram o aproveitamento do espaço, algo pouco abundante por aqui. À minha frente, alguns turistas carregam malas de viagem, pois existe a possibilidade de pernoitar em Vernazza, arrendando quartos nas casas dos habitantes, com ou sem vista para o mar. Após 53 degraus em caracol, alcanço o miradouro que me oferece uma imagem memorável: de um lado a povoação que deixei há minutos, de outro as imponentes escarpas e o imenso oceano que se une ao céu no horizonte.

A descida de retorno é feita de forma mais contida e reaprecio cada pormenor novamente, na esperança de que nada se dissipe nos registos da minha memória. Aproveito para visitar a esplanada do restaurante Belforte. No alto da escarpa, é possível fazer a refeição numa esplanada soberba, a bastantes metros do mar e do ruído das ondas embatendo nas rochas. Mas acabo por eleger para almoço o Il Gambero Rosso, restaurante com vista para a Igreja de Santa Margherita e para o portinho, cuja decoração conjuga caraterísticas rústicas em equilíbrio com alguma elegância. As paredes mantêm a rocha original em algumas zonas, como se de uma extensão da mesma se tratasse, e lembra que estamos efetivamente perto do mar num lugar que integra a natureza existente. Imagens fotográficas das cheias que fustigaram a povoação em outubro de 2011 estão cuidadosamente emolduradas e colocadas nas paredes, recordando uma etapa difícil em que a união e a coragem do povo reergueram aquilo que as águas do mar tentaram tomar como seu.

A simpatia dos funcionários alia-se à qualidade e à confeção dos produtos. Começo por degustar fogaça e pão com azeite e vinagre balsâmico de Modena, uma alternativa saudável à manteiga a que estamos habituados, enquanto contemplo o cesto com limões e alecrim que ornamenta a mesa. Pacífico e tranquilizante. O prato principal consiste numa pasta com frutos do mar, molho de tomate fresco e ervas aromáticas, cujo sabor se intensifica quando acompanhado com o vinho que me foi sugerido. Remato com uma tarte de marmelada artesanal e um café.

Subo a rua novamente até à estação ferroviária para entrar no cómodo comboio intercidades que, cinco minutos depois, chega a Monterosso. Apesar de ter poucos minutos disponíveis, consigo caminhar ao longo da calçada marginal enquanto inalo um pouco mais da brisa do Mediterrâneo e aprecio os simpáticos hotéis que se estendem ao longo da rua em frente ao mar, ideais para quem aprecia praia, natureza e repouso. A hora de regresso a Génova não me permite permanecer aqui mais do que breves momentos, por isso despeço-me de Monterosso e Vernazza, que consigo contemplar ao longe.

Quem pretender visitar as Cinque Terre deve dispor de algum tempo. Pode ser uma viagem de introspeção e contemplação ou uma agradável jornada em família ou em grupo. Existem visitas guiadas em várias línguas para uma apreciação mais completa e pormenorizada.

A noite requer um aperitivo num lugar emblemático, mas a escolha é difícil. O Degli Asinelli, na verdade Bottiglieria Marchesa, na Via di Canneto il Lungo, acaba por ser o bar eleito. De decoração rústica e descomplicada, representa uma das relíquias da cidade no que diz respeito ao néctar mundialmente conhecido, o típico vinho de Coronata. “É o local ideal para aqueles que buscam a Génova autêntica”, segundo algumas vozes locais. O atendimento é feito por Marchesa e Adriano, o casal que gere o local. A não perder.

Para jantar posso contar com a companhia de Fausto Ferreira, um português que trabalha e estuda em Génova e que, a pedido do contacto comum Alfredo Briola (filho de brasileira e genovês que também habita na cidade), se disponibiliza amavelmente para me fazer companhia e facultar informações sobre a cidade. Marcamos encontro na Piazza del Portello e subimos no ascensore (a palavra elevador soa estranho quando nos encontramos em Génova) até à Spianata di Castelletto com destino ao restaurante La Barcaccia, conhecido pela cozinha genovesa e mediterrânica. Somos recebidos pelo gerente, que delicadamente pede desculpa pela impossibilidade de nos servir devido à lotação completa, que facilmente podemos verificar. A vantagem de nos fazermos acompanhar por quem conhece os lugares que visitamos é que nos permite encontrar facilmente alternativas, e bons lugares para jantar em Génova não faltam.

A vantagem de nos fazermos acompanhar por quem conhece os lugares que visitamos
é que nos permite encontrar facilmente alternativas, e bons lugares para comer em Génova, seja qual for a hora do dia, é coisa que não falta.

Descemos um número considerável de degraus e entramos no Axillo Trattoria, localizado na Salita Infanta Sant’anna, um restaurante típico com especialidades genovesas e da Ligúria. A decoração é bastante acolhedora, apesar da dimensão relativamente reduzida. A refeição consta da combinação de vários pratos: massa negra acompanhada de lulas e cogumelos, massa feita de farinha de castanhas, carne de vaca e massa com frutos do mar. A pasta tem formatos diferentes e é genuína, tanto em sabor como textura, produzida por empresas locais. Fico a saber que o coperto inclui pão, talheres e é sempre pago. Ou seja, mesmo que não se consuma o que é servido antes do prato principal, o «aluguer» dos talheres está incluído e consta sempre no recibo.

Perto do final da refeição reparo na presença de um cão de dimensão considerável que, discretamente, descansa debaixo de uma das mesas enquanto os donos jantam. Perante a minha surpresa, Fausto esclarece-me que os animais estão autorizados a entrar nos estabelecimentos comerciais, como se de familiares dos clientes se tratasse, compartilhando a sua própria experiência de estranheza quando da sua recente chegada à cidade, numa ocasião em que escolhia roupa numa conhecida cadeia de lojas de pronto-a-vestir, onde passeava por entre as peças de vestuário um cão que acompanhava o dono.

Uma vez mais, sinto um dos benefícios que as viagens nos proporcionam: vivenciar culturas distintas, sentindo de forma direta e intransferível cada pormenor e cada nuance que nos acompanharão para sempre.

Esta reportagem foi publicada na edição 234 da revista Volta ao Mundo, em abril de 2014.

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