Num ano decisivo para a Europa, o politólogo Bernardo Pires de Lima faz-se à estrada para percorrer as 28 capitais da União Europeia. Depois de muitas conversas, encontros improváveis e perceções surpreendentes, vai juntar os 28 ensaios num livro. Até lá, a Eurovisão será emitida aqui, na Volta ao Mundo.

Liubliana, Eslovénia

Não é o ângulo mais trabalhado na história da Guerra Fria, mas a força do rock n’ roll ocidental no ideário de liberdade entre os muitos que viveram na esfera soviética tem sido alvo de uma maior focagem nos últimos tempos. É o caso do recente documentário Free Rock, realizado por Jim Brown, onde se testemunha a força da música na mudança progressiva das mentalidades nessa parte da Europa, desde a permissão dada por Gorbatchev a Billy Joel para tocar em Moscovo sem censura (1987), ao festival no verão de 1989 no estádio Lenine com os Motley Crue, Ozzy Osbourne ou os Scorpions, até à apoteose libertária no mítico festival de 1991, também em Moscovo, a poucas semanas da implosão formal da União Soviética e onde quase três milhões de russos celebraram com a fúria dos Metallica.

São igualmente memoráveis as imagens de Roger Waters em Berlim, logo após a queda do Muro, ou o cordão humano nos três países bálticos com mais de dois milhões de pessoas a cantar hinos rockeiros numa celebração da liberdade. Como disse um dia o antigo presidente checo, Václav Havel, «a música foi inimiga do totalitarismo».

Nas décadas anteriores, também a Radio Free Europe tinha feito muito para divulgar o rock n’ roll ocidental e vários autores malditos para o Kremlin, sempre com a censura soviética à perna, o que acabou por criar um ambiente de culto em redor da mensagem de libertação, hedonismo, criatividade e expressionismo sem amarras, comportamentos que de forma espontânea uma guitarra, um baixo e uma bateria conseguem gerar. O mesmo se passou na então Jugoslávia, com uma envolvente muito particular no punk esloveno, sobretudo em Liubliana.

É aqui que chego ao bairro de Metelkova, autoproclamado «zona cultural autónoma» por aqueles que têm feito a sua história e dinamizado os edifícios grafitados a mil cores, com esculturas entrelaçadas nas fachadas de uma meia dúzia de casas que no passado serviram o exército austro-húngaro e mais tarde o jugoslavo. Hoje são clubes de música ao vivo, bares, hostels, galerias e estúdios de arte, paredes meias com uma bonita e renovada praça onde estão frente a frente a galeria de arte moderna e o museu de arte contemporânea de Metelkova.

É no espírito rebelde deste bairro que encaixa a cena punk que Liubliana viveu durante as décadas de 1970 e 1980, numa radicalização identitária que gerou uma contracultura juvenil essencial à consciencialização da liberdade. Bandas como UBR, Pankrti, Niet ou Grupa 92, e personalidades como o jornalista e produtor musical Igor Vidmar, o sociólogo Gregor Tomc ou o empresário Matjaz Gantar, foram cabeças de cartaz de um movimento que marcou politicamente uma geração até a normalizar num cosmopolitismo europeu contemporâneo, uma evolução que entronca no contraste entre a calmaria de inspiração clássica que rodeia o magnífico centro da capital eslovena (como a ópera e a galeria nacional), cruzada pelas pontes no Ljubljanica, alguns edifícios mais assépticos a lembrar o cinzentismo titista (como o Parlamento) e o choque garrido das cores de Metelkova.

Numa pequena e agradável escala, Liubliana acaba por resumir com brilho e charme muito do que se passou no último meio século europeu: jugo ditatorial, transição para a democracia, normalização democrática. Pena que outras capitais do Leste e dos Balcãs tenham de acrescentar uma dose de tragédia ao imenso brilho e charme que igualmente carregam.

Texto e Fotografias de Bernardo Pires de Lima

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