Estivemos na capital italiana da moda a descobrir que não é só disso que vive a cidade. Do design aos automóveis, do cinema ao património histórico, não faltam motivos para uma visita.

Texto e fotografias de Nuno Mota Gomes

Enquanto Roma representa a antiguidade, Milão é a nova cara de Itália. A capital da moda e do design merece mais elogios do que normalmente recebe. É certo que não tem o património histórico de outras cidades – por ter sido destruída durante a II Guerra Mundial –, mas não parou no tempo. É vibrante e precisa de ser explorada com atenção e sem ideias preconcebidas. É a mais moderna de Itália, o centro financeiro do país, um paraíso das lojas, do futebol, da ópera e da vida noturna. Sim, e por vezes pode ser cinzenta e demasiado cosmopolita. Há vida nas ruas a desfilar. É aqui que nascem os estilos e as novas tendências, onde sempre acontecem eventos ligados à moda, mas nem só de moda se faz Milão.

Durante a Semana do Design (neste ano aconteceu de 4 a 9 de abril), todos os caminhos vão dar à Trienal, o maior evento do género do mundo. Desde 1933 que decorre no Palazzo dell’Arte, bem no centro histórico da cidade, e tem contribuído para a inovação e difusão da arte. Neste ano, uma das mentes criativas foi a arquiteta, designer e professora Neri Oxman, que colaborou e liderou a instalação apresentada na exposição da marca de automóveis Lexus. «Para ser criativo é preciso estar chateado», disse Neri, sorridente e divertida, assim que começou o seu discurso. Também estava «cansada pelo esforço do trabalho, mas concretizada e rodeada por uma equipa extraordinária» e de todas as idades. Na verdade, foram vários os «jovens adultos» que ali tiveram oportunidade de apresentar os seus trabalhos, como finalistas do Lexus Design Awards. Esta competição internacional é, desde 2013, uma das apostas da marca japonesa, procurando incentivar e apoiar novos talentos. E nada tem que ver com carros.

Para a última edição concorreram 1152 projetos, de 63 países, dando oportunidade a 12 criativos de exporem em Milão os seus trabalhos. E, claro, apenas um foi o vencedor. Mas já lá vamos, primeiro provamos uns petiscos, visitamos outros expositores e começamos a entrar no espírito artístico. Estamos no centro do design mundial e, inevitavelmente, surge a pergunta: «Como é que nunca me lembrei disto?»

 

Parco Sempione

É neste jardim, um dos mais antigos de Milão, que está o Palazzo dell’Arte (1) . Os relvados e as árvores centenárias são uma lufada de ar fresco para a população, que na ausência de praia consegue ali fugir ao trânsito caótico. É um exemplo de como a cidade é feita por quem lá vive e não por quem a visita, como é caso de tantas outras italianas. Correr, caminhar, passear o cão, andar de bicicleta ou apenas apreciar o jardim junto ao lago, é isso que aqui mais se vê. São jovens, casais ou famílias e sabem como aproveitar a sua cidade. O jardim está junto ao Castelo Sforzesco (2), uma referência em todos os roteiros, e a sua construção remete para o século XIV. Foi aumentado, destruído e reconstruído e uma das intervenções para fortificar a defesa foi de Leonardo da Vinci. No interior estão frescos do génio, e há sete museus.

Piazza Castello
Aberto todos os dias
milanocastello.it

 

Prémios de design

Uma cápsula para uma vida móvel, onde cabe «tudo» o que faz falta à vida moderna; instrumentos musicais feitos a partir de fruta e legumes pensados para crianças; uma colher de medição com graduação tátil para invisuais; ligaduras de folha de bananeira, que apresentam melhor desempenho na pele e são biodegradáveis. Estes são apenas alguns dos trabalhos finalistas do Lexus Design Award (3), assim como o píxel, do vencedor Hiroto Yoshizoe, um jovem designer de Tóquio. É uma estrutura que combina um efeito de iluminação e sombras através de projeção de luz e movimentos humanos.

Dito assim, pode parecer apenas uma brincadeira, mas tem muito de criatividade e inovação nas técnicas de pensar e usar a luz. Todos os anos o tema é diferente, mas desde sempre que a competição pretende estimular a produção de ideias que contribuem para a construção de um futuro melhor. (triennale.org/design_museum)

 

Centro histórico

«Todos os caminhos vão dar a Roma», mas em Milão todos os caminhos vão dar às Galerias Vittorio Emanuele II (4) e, obviamente, ao Duomo (5) , a catedral em estilo gótico que é sempre o postal da cidade. Mas para fugir aos selfie sticks basta caminhar para uma das ruas que dali partem, descobrindo-se o dia-a-dia de quem ali vive.

Uma sugestão é apanhar a Via Torino. Depois das lojas dos dois lados da estrada, eis que a surpresa é a Basílica de San Lorenzo Maggiore (6) e as dezasseis colunas de San Lorenzo (7) – um dos maiores vestígios romanos em Milão e onde à noite é ponto de encontro para uns copos entre amigos. Está também ali a estátua do Imperador Constantino, o Grande, que viveu no século IV, e uma das partes da primeira muralha que protegia a cidade. (turismo.milano.it)

 

Comer bem em Milão

Não é difícil, mas também é fácil cair no engano e procurar restaurantes à volta do Duomo. Os italianos, no geral, são da opinião de que esta cidade não representa o tradicional. A verdade é que está muito mais à frente e não se ficou pelas habituais pastas e pizas, lasanhas e raviólis. Soube reinventar-se, com uma cozinha mais próxima do centro da Europa, aproveitando o que de melhor há em Itália.

Uma sugestão é o Eataly Milano, um food court bem diferente do que se possa estar habituado. Começou em Turim, há dez anos, e tem moradas tanto noutras cidades italianas como até já chegou aos Estados Unidos, Brasil, Turquia ou Japão. Ocupa o antigo Teatro Smeraldo e há mercearia fina, com produtos frescos e de alta qualidade, dos queijos aos vinhos, massas de todas as formas e cores, e muito mais.

No primeiro andar, o convite é experimentar o Alice Ristorante (8) , com uma estrela Michelin. À frente da operação está a chef Viviane Varese e a sommelier Sandra Ciciriello, que há três anos ocupam aquele espaço. Servem verdadeiras obras de arte preparadas por uma equipa jovem, muito sincronizada e com preocupação por cada detalhe no empratamento.

Piazza XXV Aprile, 10
Menu de almoço desde 44 euros por pessoa
Encerra ao domingo
aliceristorante.it

 

Conduzir em Itália

Isto não é uma road trip, mas vale a pena sair do centro e conduzir em busca da paisagem italiana. No Norte, na região da Lombardia, as estradas cortam os campos verdes e as vilas pitorescas.

Ali tão perto, apenas a uma hora, está o lago de Como. Não fomos tão longe, parámos antes em Arese, a meia hora. Não tem nada de turístico e apenas se sugere para quem tem gosto por automóveis. É ali que está a La Pista (9) , uma das antigas da Alfa Romeo – marca fundada em Milão em 1910 –, que agora funciona para eventos e test drives, assim como o Museu, que reabriu em 2015, onde se conhece toda a história e se admiram modelos de tempos que já não voltam.

Museu Alfa Romeo
Encerra à terça-feira
Viale Alfa Romeo, Arese
museoalfaromeo.com

 

Ao volante

Estivemos ao volante de carros desportivos e imaginámos como terão sido muitas das voltas dadas àquela pequena La Pista. Cada um teve oportunidade de acelerar, com peso e medida, ao lado de pilotos profissionais. Ao nosso lado sentou-se uma rapariga, dando algumas indicações.

Belga, de 21 anos, começou a conduzir karts aos 8 anos. O gosto pela velocidade e a adrenalina não diminuíram, antes pelo contrário. Agora compete em automóveis para «adultos», para quem tem aptidão e coragem para acelerar sempre até ao limite. Depois de quatro voltas, diz: «Not bad for the first time!» Foi a vez de trocarmos de lugar. Na primeira travagem, capacete no vidro da frente e saída das curvas quase em slide. No fim, a rir-se, perguntou-nos: «Did you enjoy?».

Via Juan Manuel Frangio, Arese
centroilcentro.it/pista.php

 

Cinema e design

Onde já foram rodados muitos filmes, o Baxter Cinema (10) é agora uma loja de design e showroom. Ali foram apresentados os finalistas do concurso de curtasmetragens da Lexus, outra iniciativa que promove novos talentos e uma nova geração de cineastas emergentes.

Um dos projetos mais recentes da marca é a nave espacial Skyjet, parte integrante do filme de ficção científica de 2017 Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, da produtora do realizador francês Luc Besson. O filme estreou no final de julho e desenrola-se 700 anos no futuro, com os protagonistas Cara Delevingne e Dane DeHaan. (facebook.com/baxtercinemaofficial)

 

Onde ficar

O Excelsior Hotel Gallia (11) é um dos hotéis mais prestigiados de Milão desde que abriu, em 1932. Um cinco estrelas com varandas dos quartos a dar para a estação central de comboios. A sua fachada recorda a arquitetura da belle époque. No interior tudo foi renovado: há piscina, spa, ginásio e restaurante no último andar com terraço para a azáfama da praça.

Piazza Duca D’Aosta 9
Tel.: +39 02 67851
Quarto duplo desde
300 euros por noite
excelsiorhotelgallia.com

A Volta ao Mundo viajou a convite da Lexus

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