João e Valérie conheceram-se em Istambul, casaram e andaram quatro anos de bicicleta pelo mundo. Fizeram pausa nas aventuras depois de terem filhos (Yacha e Sinai), mas quando a vontade de partir foi mais forte, nem duvidaram. Foram os quatro numa grande viagem em família.

Texto de Bárbara Cruz

João Fonseca e Valérie Rochat conheceram-se em 1988, na Turquia. Ele, lisboeta, a frequentar o primeiro ano do curso de Matemáticas Aplicadas, andava à boleia pela Europa, como de costume, e decidira ir mais a leste. Ela, suíça, que também já tinha experiência em viajar sozinha ou com amigas, estava a caminho de África.

Cruzaram-se num hostel para mochileiros em Istambul. «Para onde vais?», perguntou-lhe ele. «Para o Sul da Turquia», disse Valérie. «Então vamos juntos», decidiu João. «E estamos juntos até hoje», contam com um sorriso embevecido. «Eu tinha 23 anos, ela 22.» Depois da Turquia, onde fizeram dois meses à boleia, pararam em Israel e arranjaram empregos para amealhar dinheiro, antes de partirem para África. Andaram por lá dois anos e até tiveram tempo de comprar uma canoa para descer o rio Cassai, que atravessa Angola e a República do Congo.

Separaram-se no fim da viagem, mas por pouco tempo. Ela ainda veio a Portugal duas vezes antes de decidirem, ao telefone, que o melhor era casarem-se e viverem juntos.

Valérie veio para Portugal e a vida seguiu. Mas com muitas saudades da estrada. «Qualquer dia vamos para a China de bicicleta», diziam. Prometeram e cumpriram: em 1996, começaram a pedalar e só pararam quatro anos depois: «atravessámos a Rússia, o Cazaquistão, andámos um ano na China, atravessámos o Tibete, pedalámos por estradas proibidas», conta João. O resultado da viagem foi um livro, Pedalar Devagar, e um balão de oxigénio que lhes permitiu aguentar mais de uma década sem arriscarem numa aventura igual. Fizeram 38 mil quilómetros sem pressa: «A bicicleta foi sempre um meio de transporte, não somos ciclistas», assinala João. «Nem estoicos», diz Valérie. «Quando não dava, apanhávamos um comboio.» Ele resume: «É um meio de transporte que nos permite um contacto com as pessoas muito bom, barato e ecológico também.»

Depois desta jornada épica, estabeleceram-se em Zurique, na Suíça, onde nasceram o Yacha e o Sinai. «Vivíamos num bairro muito giro, junto de uma floresta, como se fosse uma pequena aldeia à saída de Zurique. Estávamos no nosso apartamento como num ninho, tínhamos amigos, era difícil largar tudo», explica Valérie. Mas foi precisamente o que fizeram.

João trabalhava numa empresa de material para viajar em bicicletas, o que lhe alimentava a vontade de partir. «E já estava a entrar quase em depressão», admite. Sentia falta do estilo de vida latino, estava de «saco cheio» do suíço alemão. Começaram a matutar em mais uma viagem, mas agora com os filhos na equação. Perguntavam a outros pais se seriam capazes de tirar os filhos da escola para viajar. «Todos nos diziam que sim, mas que não tinham coragem de o fazer.»

Decidiram apostar novamente na bicicleta e, numa espécie de treino, meteram-se os quatro ao caminho e foram de Zurique até à casa dos pais de Valérie, na parte francesa da Suíça, a 250 quilómetros de distância. O mais novo ainda ia numa bicicleta com rodas de apoio. Aguentaram-se.

Em 2013, Valérie viu no jornal um concurso: queriam uma família para viver gratuitamente durante um ano numa casa modelo de uma urbanização ecológica. A contrapartida era mostrar a casa e dar conta do andamento do projeto. Nesse dia, ela chegou a casa aos gritos: «Isto é para nós!». Ganhava quem fizesse o melhor vídeo a explicar porque devia viver ali e como João tem o hobby do audiovisual, foi fácil. Venceram e estava dado o pontapé de saída para a viagem seguinte.

Não tinham GPS e ninguém lhes dizia ao certo quantos quilómetros tinham pela frente. Mas os mais pequenos queriam ir. Cederam.

Durante um ano, pouparam nas despesas e despediram-se da Suíça com uma venda de garagem. Regressaram a Portugal e inscreveram os filhos na escola em Estremoz – de onde os pais de João são naturais – e onde já planeavam estabelecer-se no regresso. Saíram a 15 de setembro de 2014 para uma viagem de dois anos na América Latina, tinham os filhos 8 e 10 anos. Aterraram no Brasil e logo no Rio de Janeiro, a pedalar no meio de um «trânsito louco», tiveram dúvidas. «O que é que estamos aqui a fazer?».

O início foi complicado. «De repente, encontramo-nos a montar duas tendas, eles a fazerem perguntas, tínhamos a sensação de que era só montar tenda, desmontar, ir ao supermercado, fazer comida, mais nada.» Eventualmente, os mais pequenos ficaram mais autónomos e deixaram de reclamar, mesmo quando pedalaram a quase 5000 metros de altitude, como aconteceu nos Andes.

Apanharam muitos sustos, algumas doenças, mas hoje não fariam nada diferente. Na Bolívia, nas planícies de sal do Salar de Uyuni, apanharam a pior das tempestades e chegaram a duvidar do objetivo de fazer a travessia. Não tinham GPS e ninguém lhes dizia ao certo quantos quilómetros tinham pela frente. Mas os mais pequenos queriam ir. Cederam. «Foi uma travessia magnífica.»

No Equador, pagaram a um mestre que lhes fizesse um barco para descer o rio Amazonas. Começaram os 1500 quilómetros a remar no rio Napo, perante a ameaça de subida do nível das águas por causa das erupções do vulcão Cotopaxi. Compraram 20 kg de arroz, sete de lentilhas, pescavam pelo caminho. No Amazonas, deixaram de mergulhar porque viam os «peixes pré-históricos» que lhes cercavam o barco. Foram com os locais «chamar crocodilos» no meio da Amazónia, ficaram presos nos troncos das árvores do rio, tiveram de remar sob tempestades. «Os miúdos adoraram, mas eu, que achava que não tinha medo de nada, tive muito medo», diz Valérie.

Deixaram o barco em Leticia, na Colômbia, e continuaram a pedalar. Fizeram a travessia para o Panamá de veleiro, com um francês experiente que os levou mesmo com uma avaria no motor e sem piloto automático. Andaram pela Costa Rica, Nicarágua, Guatemala. No México, já no final da viagem, arrendaram uma casa durante um mês para prepararem os filhos para os exames, quase dois anos depois de terem saído de Portugal. No total, fizeram 11 mil quilómetros a pedalar.

Por agora, ficam por Estremoz, onde estão a renovar um monte e já começaram um projeto de agricultura sustentável. «Estamos tranquilos, pelo menos para já.» Yacha e Sinai, agora com 13 e 11 anos, nunca falam da viagem. «É uma coisa normal que aconteceu na vida deles, só falam quando lhes perguntam. E eu fico mesmo contente por isso», diz João.


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