Chile (Gonçalo Cadilhe)

O escritor Gonçalo Cadilhe embarcou numa segunda edição da viagem “Nos passos de Magalhães, uma volta ao Mundo”, a liderar um grupo da Pinto Lopes. E conta-nos porquê.

No Chile (Gonçalo Cadilhe)

A ideia da viagem de grupo à volta do Mundo nasceu com o livro “Nos Passos de Magalhães” (Clube do Autor, 2018), que a agência Pinto Lopes Viagens acreditou ser merecedora de integrar o seu portefólio de viagens com autores. E quem melhor do que o próprio escritor Gonçalo Cadilhe para recriar a sua própria volta ao Planeta atrás do navegador Fernão de Magalhães, 500 anos após o início da primeira circum-navegação. O projeto correu tão bem que logo se preparou uma segunda viagem de grupo que só não avançou porque a pandemia parou o Mundo. A reedição acontece apenas agora, mas com toda a alma colocada na primeira viagem.

Argentina (Gonçalo Cadilhe)

A VM falou com Gonçalo Cadilhe antes da partida. A conversa começou com uma pergunta simples e acabou na definição do que é a própria Viagem com V grande, toda a viagem, seja ao fim da rua, seja ao fim do Mundo. “O destino é a viagem”. E fica tudo dito.

Este é a quinta circum-navegação de Gonçalo Cadilhe. “Fiz três por minha conta. A primeira resultou no “Planisfério Pessoal” (que reúne as crónicas semanais publicada no “Expresso”). Era uma viagem sem aviões. A segunda foi para o livro “Nos Passos de Magalhães”. E uma terceira foram 2 meses em 12 ondas de sonho, para o surf (“Passagem para o Horizonte”). Depois fiz a Volta ao Mundo com a Pinto Lopes, no mês anterior à pandemia. Estávamos a preparar a segunda, mas não se fez devido à covid-19.” Faz-se agora, com quem ficou com água na boca. E esgotou.

Chile (Gonçalo Cadilhe)

Fernão de Magalhães demorou três anos. Como se consegue meter três anos num mês? Esta era a pergunta inicial da conversa. Ora bem, comece-se por corrigir os termos. “Não foram sequer três anos. Magalhães morreu a meio, nas Filipinas. Mas 18 dos 360 marinheiros que saíram com ele em 20 de setembro de 1519 cumpriram em três anos. E Magalhães tinha viajado por todo esse território nos anos anteriores. Portanto, fez duas meias voltas ao Mundo. Quando partiu foi para regressar pelo Pacífico….”

Quanto ao tempo que demorou, o circum-navegador “ia de nau – nós vamos de avião”. “Só para o Pacífico seriam quatro meses”, brinca Gonçalo Cadilhe. Além de que muito do que foi parte da viagem original não tem relevância para o viajante moderno. “Vamos aos lugares com valências turísticas, não a todos. E vamos a outros não relacionados com a circum-navegação ou tornados indispensáveis pela nossa navegação, como a Nova Zelândia, ou para descansar, como as Fiji, ou a Austrália, para gerir o jet lag, porque decidimos ter etapas com pouca diferença horária, no máximo três fusos em cada deslocação, exceto para a travessia do Pacífico.”

Argentina (Gonaçlo Cadilhe)

O escritor admite que, desta vez, a dificuldade na organização foi bem maior, porque a pandemia baralhou as contas na arte da viagem. “Há menos oferta, rotas aéreas que já não existem, horários mais castigadores para o corpo.” Além disso, aquando da expedição de 2019, estavam em marcha as comemorações dos 500 anos da circum-navegação de Magalhães e Gonçalo Cadilhe tinha “na ponta da língua” a própria viagem, que realizara em 2007 e sobre a qual escrevera em 2018, bem como a biografia do navegador. Agora foi preciso ir recuperar tudo.

Quénia (Gonçalo Cadilhe)

Ainda assim, o escritor admite que ficam de fora lugares onde gostaria de levar o grupo, uma empreitada que seria logisticamente dantesca, como Guam na Micronésia, a “a primeira ilha que Magalhães encontra após a travessia do Pacífico”. “Para estar lá dois dias teríamos de perder outros dois em viagem”, justifica.

“Eu fui lá para escrever o livro. Mas sozinho a lógica era outra. Demorei oito ou nove meses na volta ao Mundo. E não me importo de dormir num aeroporto”, explica.

Auckland (Gonçalo Cadilhe)

É aí que surge mais a pergunta sobre como viajar com um grupo quando se conhece a viagem solitária. “O mais difícil é o grupo criar cumplicidade para estarmos todos juntos um mês. Trata-se sobretudo de “criar o grupo” em viagem, fazer com que o grupo se sinta um grupo”, conta Gonçalo Cadilhe, que procura imprimir um trato informal na viagem e se regozija com o facto de todos se juntarem uma vez por ano desde então. “Ficam amigos, ou, pelo menos, com um elo.”

Admite que há “feitios difíceis”, mas uma coisa é certa: “Quem vem é porque quer vir. Já vem com uma certa predisposição para deixar-se levar. A postura é deixar-se deslumbrar pelos lugares. O privilégio que a nossa geração tem de poder viajar é único. Não podemos desperdiçá-lo. E vamos com este espírito para a viagem. Quando lemos Bruce Chatwin ou Paul Théroux, parecem aborrecidos com o privilégio que tiveram de viajar na altura deles…”.

Colónia Sacramento (Gonçalo Cadilhe)

E estas viagens com companhia, com quem tem orgulho em partilhar destinos a que tem uma ligação especial, acabam por compensar o ato solitário da viagem para a criação literária. Ainda que o escritor conceda: um viajante “sozinho abre-se ao Mundo, em grupo fecha-se no grupo”.

Ver que os companheiros “regressam felizes por conhecerem o Mundo” através dos meus olhos é o mais importante. “Magalhães passa a ser da família. Quando chegamos ao sítio onde ele morreu, não há ninguém que não sinta que perdeu uma parte de si.”

Chile (Gonçalo Cadilhe)

Por isso é que o destino, aqui, é própria viagem. Como a que fez sem ligações áreas. Foram 19 meses a palmilhar o Planeta e a procurar “um cargueiro que tivesse autorização e burocracia necessárias para levar um passageiro” a atravessar oceanos. “Apanhei um de valência a Nova Iorque. Cheguei lá em janeiro e só tinha sete meses depois um no Chile para continuar. Andei esses meses a descer a América. O cargueiro acabou cancelado, mas encontrei outro que partia em setembro do Panamá e tive de voltar para trás. No final, foi uma volta ao Mundo em 30 e tal países. De Bombaim vim por terra atravessando o Afeganistão. E aí apanhei o único avião da viagem, um voo doméstico entre Cabul e Herat.”

Questionado sobre o Mundo que já viu, Gonçalo Cadilhe diz não ter “prazer nenhum em responder quantos países” tem no currículo. Porque há sete ou oito que conhece “bem”. E há outros a que nunca foi nem tem “nenhum interesse em ir”. “As Seychelles, por exemplo… prefiro ir mais uma vez a Veneza.”

Montevideu (Gonçalo Cadilhe)

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